Gonçalo Almeida + Kabas & Luís Vicente, 6 de Janeiro de 2018

Gonçalo Almeida + Kabas & Luís Vicente

De um ano para outro

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Um solo do contrabaixista de “The Attic” (disco gravado no mesmo espaço com Rodrigo Amado e Marco Franco) e do trio The Selva e um regresso do grupo belga e do seu convidado português para apresentar um duplo álbum também aí registado marcaram a passagem de ano na SMUP. Contamos como foi aqui em baixo…

O último concerto de 2017 e o primeiro de 2018 na SMUP não poderiam ter sido mais representativos da importância que aquele espaço do concelho de Cascais conquistou no circuito das músicas que utilizam a improvisação como método de trabalho. A 23 de Dezembro ali tocou, a solo, o contrabaixista Gonçalo Almeida, que antes estivera envolvido em várias formações cujos discos foram escolhidos como os melhores do ano por várias listas internacionais, como o trio com Rodrigo Amado e Marco Franco de “The Attic” (gravado, precisamente, na SMUP), o grupo The Selva e ainda Lama, Spinifex e Tetterapadequ. Por sua vez, no dia 3 de Janeiro verificou-se o regresso à Parede dos belgas Kabas, com o trompetista Luís Vicente como único convidado (na ocasião anterior esteve também Carlos Godinho). A ocasião serviu para apresentar o novo duplo álbum da banda, “Negen”: o segundo CD da edição, “Live at SMUP”, foi registado ao vivo no mesmo palco onde agora voltaram a actuar, tendo o primeiro resultado de uma ida ao estúdio lisboeta Namouche.

Com um profícuo trajecto como líder e “sideman” de vários projectos a partir de Roterdão, a cidade holandesa onde vive, faltava conhecer por cá, e ao vivo (tem um disco editado nesse formato, “Monologues Under the Sea Level”), o Gonçalo Almeida solista de contrabaixo e a oportunidade despertou a curiosidade do público, que afluiu ao sótão da Sociedade Musical União Paredense em bom número. Fosse em pizzicato ou com arco, as peças que interpretou, e sobre as quais improvisou, tiveram como principal característica a repetição de motivos, umas vezes com pequenas variações, outras intercalando-se com outros materiais que os contrastavam. E se esses motivos eram, regra geral, simples, os desenvolvimentos cresciam em complexidade e em energia.

Almeida explorou harmónicos e multifónicos, algo a que nenhum contrabaixista resiste quando está a sós, mas a sua atenção focou-se, sobretudo, nos aspectos rítmicos e nesta vertente ficou muito clara a sua filiação jazzística. As exposições por linhas quebradas, quase sempre em implacáveis cortes de sequência e com largas polarizações de dinâmicas, iam formando um tronco principal, mas a dado momento, quando a fórmula lhe parecia esgotada, era uma situação totalmente distinta que surgia, numa espécie de alívio direccional, como se uma rua desembocasse numa praça. Se a música não era propriamente introspectiva, resultava, no entanto, de uma enorme concentração psíquica e física, com um foco que nos deixava sem fôlego, mas que sabia quando devia abrir para nos dar tréguas. Sabíamos das virtudes de Gonçalo Almeida quando pensa para um grupo e quando o serve instrumentalmente, ficámos também cientes das suas enormes capacidades numa situação de alto risco como o solo absoluto.

Gonçalo Almeida

Jan Daelman e Luís Vicente

Tijs Troch

Nils Vermeulen e Elias Devoldere

Foi bastante diferente do primeiro o concerto de ano novo que o flautista Jan Daelman, o pianista Tijs Troch, o contrabaixista Nils Vermeulen e o baterista Elias Devoldere, mais o seu repetente parceiro trompetista português, Luís Vicente, deram na SMUP. Se Troch decidiu pouco aparecer na dianteira, preferindo um eficaz trabalho de estruturação da música colectiva, por meio de acordes e “clusters” nas teclas centrais que colavam as partes, equilibrando agudos e graves, já Daelman teve nesta ocasião um protagonismo que lhe faltou na outra: desenvolveu alguns espectaculares solos, intervalados pelos do trompete ou em contraponto com este. Se antes a grande influência “clássica” dos Kabas estivera nas mãos de Tijs Troch, com as suas alusões a Satie, foi por Jan Daelman que ela agora passou, bem como os picos de beleza da viagem que nos foi proporcionada. Vicente reagiu escolhendo uma intervenção conotável com o hard bop, se bem que temperada por um melodismo especialmente emotivo que lembrou Kenny Wheeler.

De Luís Vicente dependeram, também, muitos dos transportes de intensidade do quinteto, com um atento Devoldere a encher essa intensidade com argumentos que não a deixaram parecer apenas um aumento de força. O mesmo Devoldere que, quando a música baixava quase até ao silêncio, o preenchia com texturas percussivas de uma especial sensibilidade, pontuadas pelo contrabaixo minimalista (inclusive quando a música levantava voo), mas oportuno e essencial, de Vermeulen. Ficou confirmada a natureza metamórfica dos conceitos musicais propostos pelo grupo belga, capaz tanto de ir para situações experimentais que vão muito além do universo do jazz, incluindo o free, como de pegar nos aspectos mais identificativos, e mais enraizados, deste género musical, sem excluir nenhum tipo de materiais. Na passagem de 2017 para 2018, a bitola de qualidade que tem caracterizado as programações da direcção da SMUP manteve-se alta. Seguem-se prestações do trio de Pedro Sousa, Miguel Mira e Afonso Simões e os Insalata Statica de Giovanni Di Domenico.