Granular Fest, 20 de Dezembro de 2017

Granular Fest

Despedida sem dramas

texto Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

O festival com que a Granular se despediu este mês no O’culto da Ajuda deixou a certeza de que, se aquela associação pioneira terminou a sua função, os músicos que a constituíam, que gravitavam à sua volta ou que por ela foram de alguma maneira influenciados continuarão o seu projecto. A qualidade esteve sempre a um nível elevado, mas o pleno foi conseguido pelo quarteto de Pedro Carneiro, Yedo Gibson, Ulrich Mitzlaff e João Madeira.

Sem discursos, sem dramas e sem qualquer encenação da emotividade – embora as emoções estivessem bem presentes – a Granular despediu-se da sua actividade de 15 anos nos passados dias 15 e 16 de Dezembro, com os quatro concertos do seu Granular Fest, cada um a seu modo testemunhando o alto nível de qualidade a que chegou a música improvisada feita em Portugal.

O texto de apresentação do festival combinara algum azedume à nota de esperança relativamente aos rumos futuros das músicas criativas portuguesas, sentimento esse que é bem conhecido das estruturas artísticas que no nosso país são condenadas à marginalidade pelo sistema político, económico e cultural vigente. Aí se lia: «É com marcado e sentido orgulho que fizemos o que fizemos, muitas vezes apenas com a nossa persistência perante múltiplas dificuldades, imprevistos e incompreensões várias. É sabido que as “artes experimentais” são sistematicamente confrontadas com diversas dificuldades, de entendimento e aceitação. Os poderes instituídos não as valorizam, quando não as desconhecem inteiramente nos seus fundamentos. Os “media” quase não lhes dedicam qualquer atenção, sendo que a divulgação crítica está praticamente em extinção. Presumimos que, no decorrer desta década e meia, a teimosa dedicação poderia contornar os paradigmas. Mas as memórias, sendo demasiado curtas, não fazem qualquer “história”... Aqui continuamos enquanto indivíduos, ainda que já não como colectivo.»

Nada se disse com o mesmo teor nos dias do festival, e mesmo um “post” no Facebook mais sentido da antiga produtora da Granular, Maria João Garcia, centrou-se no que está diante de nós e não nas derrotas ou nas contrariedades do passado, até porque muito do que se está a passar hoje na cena nacional é consequência do pioneirismo associativo da Granular e das suas vitórias, que foram muitas, juntando músicos e outros artistas que nunca tinham trabalhado juntos, organizando concertos em espaços de grande visibilidade pública, desenvolvendo conceitos e aplicando-os, promovendo o debate e a reflexão.

«Sem pesar, e sem que a sua existência tenha perdido pertinência porque ainda há muito trabalho a fazer no reconhecimento e na promoção destas músicas mais exploratórias, às vezes é preciso pôr o ponto final numa história para se iniciar outra», citamos dessa declaração. Como já se comentou nestas páginas, a maioria das principais figuras que em Portugal têm a improvisação como prática comum esteve envolvida com a Granular em alguma altura dos seus percursos ou mesmo desde a primeira hora. O próprio autor destas linhas foi um dos fundadores desta estrutura, juntamente com Carlos “Zíngaro”, Emídio Buchinho, Carlos Santos e Paulo Raposo, e esteve na sua direcção durante 11 anos, optando depois por um afastamento e pelo papel de observador.

O que aconteceu no O’culto da Ajuda, em Lisboa, ficou pela música: foi esta que falou o que havia a falar, por inteiro. A abertura fez-se com um quarteto em que despontava o presidente da Granular, Carlos “Zíngaro”, com Fred Lonberg-Holm, violoncelista norte-americano ligado à cena de Chicago que agora tem casa em Lisboa, Alvaro Rosso, contrabaixista uruguaio residente em Portugal, e Nuno Morão, percussionista português cujas contribuições para o álbum “The Selva” lhe mereceram os louvores da crítica internacional. A performance do grupo teve como parâmetros a música de câmara e reminiscências de indefinidas tradições populares, neste caso ora por meio das sonoridades étnicas dos instrumentos de pele de Morão, ora pelos melodismos de cunho “folky” introduzidos ao violino por “Zíngaro”. Esses elementos surgiam quase sempre como motivos para processos de desfiguramento em que Lonberg-Holm se destacava. Se todos os intervenientes estiveram bem, um fez maravilhas com o seu agudo sentido de oportunidade e com as boas ideias que foi introduzindo: Rosso é bem capaz de ser, neste momento, o mais cativante improvisador no contrabaixo que por cá temos.

A uma música de carácter acústico seguiu-se, ainda no dia 15, o trio electroacústico formado por Abdul Moimême, Carlos Santos e Emídio Buchinho, numa viagem que teve momentos particularmente preciosos mas falhou o fim por várias vezes, terminando só quando o desinteresse se tinha instalado. Moimême ia colocando címbalos e chapas por cima das cordas da guitarra que ele próprio desenhou e construiu, um instrumento já com poucas semelhanças com a dita, manuseando-os com o apoio de um microfone de modo a obter “drones” subgraves ou texturas percussivas. Buchinho começou por aplicar um transístor sobre a sua guitarra, esta convencional, e depois submeteu-a a outros objectos e à acção de pedais de efeitos, usualmente preferindo a produção de crepitações eléctricas. Em nenhum momento se lhe ouviu um acorde. Santos foi a cola, recorrendo a sínteses operadas no computador ou a uma concentrada gestão de “feedbacks” na mesa de mistura.

O segundo dia trouxe o melhor concerto deste último Granular Fest, com uma formação em que só dois elementos, Pedro Carneiro (marimba) e Ulrich Mitzlaff (violoncelo), tinham trabalhado juntos. O saxofonista Yedo Gibson (na ocasião só com um soprano) e o contrabaixista João Madeira foram os outros, e se este foi fundamental para os suportes, os multifónicos do músico brasileiro rivalizaram com a muito física destreza de Carneiro, percussionista com um percurso realizado, sobretudo, no âmbito da música erudita. O que se ouviu desafiou a previsibilidade dos modelos aplicados na música livremente improvisada e foi de uma ímpar riqueza de materiais sonoros e de um inusitado enfoque composicional, com a mais-valia de uma performatividade que também divertiu os olhos.

O final desta festa de despedida fez-se com uma formação não prevista. Aguardava-se o Wind Trio de Paulo Curado, Paulo Chagas e João Pedro Viegas, com Rodrigo Pinheiro como convidado, mas um acidente do primeiro levou a que fosse substituído pela violoncelista sueca Helena Espvall, também residente no nosso país. Introspectiva, pausada e multicolorida (ou seja, algo cinematográfica, como se fosse a banda-sonora em tempo real de um filme de animação), a actuação teve na flauta e no oboé de Chagas e no piano de Pinheiro os seus principais argumentadores. Detectaram-se no primeiro alguns ecos flautísticos do rock progressivo tanto quanto alusões arábicas, enquanto o segundo conotava a improvisação tanto com o jazz, em síncopes derivadas de Thelonious Monk, como com a música dita clássica, indo de uma revisitação de certos aspectos do romantismo até um Messiaen abstractizado.

Terminado o festival, fica a certeza de que, se a Granular morreu, continuará a acção dos músicos que fizeram dela o que foi, prosseguindo o seu projecto de outras maneiras.