Guimarães Jazz, 15 de Novembro de 2017

Guimarães Jazz

Contas trocadas

texto Gonçalo Falcão fotografia Paulo Pacheco

Num ano em que se assinalam 100 de gravações de jazz, o festival da cidade-berço contou mais com o concerto dos Mostly Other People Do the Killing para fazer essas contas do que com a Exciting Musical Trip Through 100 Years of Jazz Recording da All Star Orchestra de Vincent Herring, convidada para esse efeito. Aqui fica um relato disso e do que mais aconteceu na primeira semana do evento…

«Estava a ver que não te via este ano.» Esta é uma frase que se ouve muito no “foyer” do Centro Cultural Vila Flor. Voltar ao Guimarães Jazz é um reencontro com coisas que mudam e com as que ficam iguais, enquanto o festival regressa pendularmente e nos relembra que passou mais um ano. É como rever um amigo de longa data e pôr a escrita em dia. Como habitualmente, houve melhorias, piorias e permanências. O habitual nas coisas vivas que não se conformam com a repetição. As de sempre são as condições do Vila Flor, a organização acima do perfeito e a cidade de Guimarães, que será sempre um paraíso até que o turismo de massas internacional a descubra e o excelente apresentador que introduz cada um dos concertos.

O festival tem sido exemplar em “design”, tendo sido nos últimos anos o melhor exemplo nacional não só pela qualidade da imagem mas também em saber o que fazer com ela. Este ano, porém, apresentou-se com uma comunicação visual amadora, totalmente incaracterística. Mudou também o clima: não me lembro de um ano em que a ameaça da chuva nem sequer se fez sentir (o que justifica a tradicional produção de impermeáveis com a marca do festival, vendidos nos concertos) e em que o Verão de São Martinho não é frio. Este ano a atmosfera marroquina a que nos teremos de adaptar impôs-se e nem um laivo de chuva manchou a roupa dos festivaleiros.

Mudou para melhor o ambiente na sala das “jam sessions” no centro cultural, onde agora se cumpre a lei e não se fuma. Hashtag civismo. Mantêm-se as salas cheias e uma freguesia fiel e assídua que vem propositadamente de diversos pontos do País e de Espanha. Continuam também as actividades paralelas, nomeadamente as oficinas de jazz, que tanto têm contribuído para a formação e as animações musicais em vários pontos da cidade. 

Poeira para os olhos

 

Fomos à primeira semana do Guimarães Jazz. A abertura fez-se com o novo projecto do guitarrista norte-americano Nels Cline, intitulado “Lovers”, com o seu quarteto a ser acompanhado por 13 músicos da Orquestra de Guimarães. Assim se vê o salto cultural que Portugal deu: já há orquestras e filarmónicas de qualidade espalhadas pelo País, mas se este foi um concerto a que não pudemos fisicamente ir, conseguimos depois ver e ouvir o vídeo que o documentou. Uma proposta bela para começar o festival sob o tema do amor. O guitarrista americano montou um espectáculo assente num som orquestral, em que foi avançando com canções que são tratados sobre amor, romance e sexo. Começámos por ouvir “Lady Gabor” de Gabor Szabo, para um disco de Chico Hamilton, “Passin’ Thru” (1962), “Cry, Want” de Jimmy Giuffre (1961) e “Glad to Be Unhappy” de Rogers/Hart (1936), que já foi magnificamente interpretada por muitos, com destaque para Paul Desmond no álbum com o mesmo nome. Tempos lentos, orquestrações belíssimas, a criação de uma atmosfera sensual, mesmo quando o grupo tocava composições de Cline como “You Noticed”. De Guimarães viajámos para o ambiente de um estúdio de gravação nos anos 1960 da Impulse, com a guitarra a liderar uma pequena orquestra com um som doce e com o ataque metálico dos saxofones a ser substituído por sopros de madeira e por um trompete introspectivo.

Este projecto é uma grande aposta na carreira de Cline, não só pelo esforço que implica de movimentação e ensaios de grupo como por se sentir que foi uma escolha cuidada e muito pensada de canções de/sobre o amor. A peça central do álbum, e também do concerto, foi "The Night Porter / Max, Mon Amour" (não se percebe a tradução do título para Inglês, mas andando que é gerúndio). A ligação destes dois temas cinematográficos cola o final de um filme erótico italiano de Liliana Cavani, “Il Portiere di Notte” (banda-sonora de Daniele Paris), em que vemos o casal (um médico nazi que tem uma relação sadomasoquista com uma sobrevivente do Holocausto) a ser assassinado numa ponte (o nome da personagem era Max), com o início de outra película, esta de Nagisa Oshima, “Max, mon amour”, em que a mulher de um diplomata a viver em França faz de um chimpanzé (Max) o seu amante (banda-sonora de Michel Portal). A seguir a este tema tocaram “Snare Girl” dos Sonic Youth, um tema rock em que o vocalista dos Sonic Youth canta como um “crooner”. Não foi só um concerto belíssimo: foi um discurso intelectual, uma exposição de ideias sobre o amor, fazendo-nos perceber que a música – e o jazz em particular – vive muito da capacidade de conceptualização dos seus músicos. Uma noite superior.

O segundo dia propunha uma ideia arriscada e é, desde já, de elogiar a vontade de a correr. Uma banda americana e um concerto pedagógico a celebrar 100 anos de gravações de jazz. É preciso introduzir desde já um aviso: deste lado da escrita está alguém que acredita que a história não é uma narrativa fixada e indiscutível e que o confronto entre diferentes perspectivas enriquece a visão do passado. Dito isto, estamos em condições de discutir a “história” apresentada pelo grupo de Vincent Herring, auto-intitulado como All Star Orchestra. Comecemos pelo nome: se uma equipa de basquetebol americana se chamar “All Star”, mas for constituída por Kevin Duran mais nove jogadores da terceira divisão, sentimo-nos enganados. Sabemos quem são as “stars”, não nos atirem areia para os olhos. E além disso perdem os jogos, porque o basquetebol evoluiu muito na Europa e já não dá para ganhar com jogadores de terceira linha. É esta a sensação de ouvir o decateto de nove músicos + 1. O 1 é James Carter, que encheu as medidas cada vez que solou. Arrastou consigo os outros nove, com algumas presenças francamente desinteressantes (o baixista, o teclista e o próprio Herring). Larguemos o nome e vamos ao conduto: se a proposta é a de celebrar os 100 anos de gravações de jazz (“An Exciting Musical Trip Through 100 Years Of Jazz Recording”), não aceitamos que celebrem apenas 60. A história não parou no “Street Life” dos Crusaders (aliás, prefere nem lembrar esse triste incidente). A organização devia descontar-lhes 40% do “cachet” + 10% de taxa farsola, por terem tocado este tema numa casa decente.

Também é difícil de perceber porque é que começaram com “St Louis Blues” (1914?) e não com “Livery Stable Blues” ou "Dixie Jass Band One Step", tocando um dos primeiros temas gravados. O propósito do concerto era pedagógico e não académico, mas há um mínimo de coerência lógica expectável. A música foi acompanhada por um fundo de imagens de época (a maior parte das quais reconheci do Youtube), com uma montagem tão sem sincronia quanto a execução. Nas pausas, o vocalista Nicolas Bearde lia um texto pobremente projectado, numa espécie de Powerpoint gago. É simpático partir do princípio de que na sala há analfabetos (mas que conseguem compreender Inglês falado). Sentimo-nos no coração da América, o país da precariedade, onde a informação mais simples é repetida devagarinho para os cérebros que votam no Trump perceberem.

O discurso musical avançou a bom ritmo dos anos 1920 até aos 60, pausando em Horace Silver e Miles Davis. Até aqui a coisa corria bem. Depois foi tocado o “Caravan” de Duke Ellington (regresso a 1936, aceitável em prol do didactismo e do arranjo musical). Também a inclusão de “Hard Times” (1959, popularizada por David “Fathead” Newman) foi uma escolha invulgar, mas até interessante para exemplificar a soul dentro do hard bop (o grupo de Newman foi apresentado como o sexteto de Ray Charles). A nova década chegou sem melindre com Herbie Hancock (“Speak Like a Child”), Getz/Gilberto (“The Girl From Ipanema”), “Take Five” de Brubeck e “Alligator Bogaloo” de Lou Donaldson (era dia de festa, vá…).

Acabou-se com “Work Song” de Nat Adderley (é de 1960, mas nada obrigava a um cumprimento cronológico fundamentalista e encaixou bem musicalmente). Por esta altura começava a incomodar a ausência de alguns nomes fundamentais… É muito difícil de aceitar que alguém planeie um espectáculo sobre 100 anos de gravações de jazz e não se sinta obrigado a incluir temas de Thelonious Monk, Sonny Rollins ou Ornette Coleman. É grave? É. Se reduzirmos a história do jazz a cinco nomes, Monk está lá. Se minorarmos a seis, Ornette entra no “dream team”. E não tocar Sonny Rollins e Mingus… é grave? É gravezinho. Fui eu que estive desatento ou não se tocou nada de Charlie Parker (ardam no inferno, hereges)?

A questão – quero deixar claro - não é de preferências pessoais do repórter: é fazer uma história da literatura portuguesa e omitir Pessoa e Saramago. Ninguém morre com estas escolhas, mas moem o fígado e a partir deste momento, a noite, que até corria agradável, deslaçou como a maionaise. É sabido que alguns americanos entram com facilidade no untuoso e nem se lembram que a Europa existe (não teria ficado mal um Django ou um Grappelli no meio de mais de 20 músicas).

E se até aos anos 60 do século passado a viagem se fez com prazer, com o decateto a tocar bons arranjos e com solos deslumbrantes de Carter, a passagem para os anos 1970 trouxe a ignomínia. Return to Forever (Chick Corea), Headhunters (sim, repetiu-se o Hancock), Groover Wahington Jr., Chuck Mangione e The Crusaders. Além de não se cumprir a promessa dos 100 anos, foi triste perceber que, a partir de 1979, Herring não considera ter havido nada de musicalmente relevante no jazz, finando-se a tal “celebration” com “Street Life” (justificando a expressão futebolística “impróprio para cardíacos”). Esta escolha resume bem o problema de gosto e falta de preparação do soprador para a tarefa a que se propôs. Se a ideia era acabar com uma música “uplifting” para o público acompanhar com palmas e ir para casa feliz, o “Don’t Worry Be Happy” de Bobby MacFerrin não seria uma escolha mais lógica? Sempre avançávamos até 1988….

O “encore” destruiu qualquer esperança de dignidade que restava e tornou claro o que se pressentia: ataca o Jon Faddis em modo chuva de estrelas a imitar Louis Armstrong em “What a Wonderful World” (1967). Aaaah, isto não era um concerto… era um negócio! E os anos 1990 (Zorn, Metheny, Marsalis, o próprio James Carter…)? E os anos 2000 (Jason Moran, Dave Douglas, Vijay Iyer, Brad Mehldau)? Na primeira década deste século não aconteceu nada? Não haveria espaço para Keith Jarrett em mais de 20 canções se houve para Mangione e para Washington Jr.? Os americanos são bons no comércio e a vender: neste caso bem nos enganaram. A ideia de um espectáculo educativo e relaxado era acertada, mas o grupo é um logro, sem “allstars” (Jon Fadis não tem lugar em equipas de elite) e com uma narrativa sem o mínimo de preocupações históricas ou mesmo musicais. Uma narrativa deformada, com música maltratada e visualmente cuspida, assim foi a novela musical. 

Mil formas expressivas

 

A noite que se seguiu já foi o oposto: um concertaço! Subiu ao palco o quarteto de Andrew Cyrille, o mesmo que gravou o magnífico “The Declaration of Musical Independence” este ano na ECM, mas com Ben Monder no lugar de Bill Frisell. O baterista, que fazia 78 anos nesse dia, toca maravilhosamente, mas a sensação que tenho é a de que só agora, neste disco, se percebe plenamente as suas originalidade e unicidade. O concerto tocou quase o alinhamento do novo disco, tendo começado com “Coltrane Time”, cuja entrada de bateria (um pouco atrapalhada em Guimarães) nos prende ao disco e nos prendeu ao concerto. Explicou Cyrille em palco que a ideia para aquela transformação do tema de Coltrane lhe foi apresentada por Rashied Ali, o último baterista de Coltrane.

A mudança do guitarrista não se fez sentir negativamente: se Frisell gere melhor os solos, Monder foi excelente nos temas, com um som de guitarra soberbo, um excelente uso da saturação e um perfeito diálogo com o sintetizador de Richard Teitelbaum. Neste grupo, Cyrille equilibra muito bem o seu passado mais livre de pautas – colocando Teitelbaum nos teclados – com uma nova geração de músicos (o contrabaixista Ben Street e Monder) para uma música que, sendo nova, guarda aquilo que sempre foi único e particular na sua forma de tocar e nas suas relações musicais. A noite foi sempre excepcional, com uma pequena descida para o duo Monder-Street, em grande parte por o guitarrista ficar preso a soluções seguras e pré-ensaiadas.

Já o dueto Teiltelbaum-Cyrille foi incrível, e o seu solo, baseado numa música congolesa, como explicou, foi admirável pela forma como encontrou, dentro de um padrão repetitivo, mil formas expressivas e variações, típicas da percussão africana. Cyrille deu-nos a ouvir o seu mundo feito de detalhe, despretensioso, feliz e preocupado com o essencial. Este foi também o melhor Teitelbaum que ouvimos, juntando às suas limitações de velocidade e técnica como pianista uma capacidade única para adicionar electrónica, assim tirando da vulgaridade o som do grupo. 

Ataque terrorista a New Orleans

 

Sábado chegou e com ele a primeira dose dupla de concertos. À tarde, o trio suíço VEIN convidou o saxofonista americano Rick Margitza para colorir os seus temas. A sala estava quase cheia, o que impressionou: os concertos desta semana deixaram todos muito poucos lugares por preencher, atestando o sucesso e a importância deste festival. Apesar de tocar sem grande emocionalidade física, como se fosse formado por músicos da clássica, o trio tem música interessante e entrega-a com energia. Nunca soaram óbvios e previsíveis e o destaque vai para o elemento que mais contribuiu para anular algum sentimento de música laboratorial, o baterista Florian Arbenz, com uma técnica e um rigor magníficos (e amplificação excessiva?). Margitza é um bom saxofonista e reconfigura o som do trio, tirando-o de um ambiente quase científico para uma arena mais expressiva. Esta fórmula de trio + 1 é o céu para qualquer soprador, com o grupo a formar uma base seguríssima, sobre a qual ele viajou por onde lhe apeteceu. Um bom concerto, sereno, para começar o dia.

À noite fomos ouvir a estreia em Portugal da nova formação dos Mosty Other People Do the Killing. O grupo foi reformulado em 2013, passando a ter duas formações: a inicial em quarteto com Peter Evans e esta, que agora se apresentou em Guimarães, em septeto. A Moppa Elliott no contrabaixo, Jon Irabagon no saxofone e Ron Stabinsky no piano juntaram-se trompete, trombone, bateria e guitarra eléctrica. Num ataque terrorista a New Orleans, o grupo fez muito mais pela celebração dos 100 anos de edições discográficas do que as sumidades de quinta-feira. O concerto assentou em grande parte no disco “Loafer’s Hollow” e em “Red Hot” e caracterizou-se pelo humor (DNA do grupo, começando pelas capas dos discos) e pela criação de uma sopa da pedra em que se misturaram vários estilos de jazz.

A escolha dos músicos foi fulcral, pois reúne uma série de excelentes instrumentistas com abordagens muito peculiares aos respectivos instrumentos. Com a sua hiperactiva bateria, Kevin Shea parecia estar sempre a tocar a música de outro grupo, sincronizando magicamente nos momentos-chave (com uma amplificação pouco nítida?). Brandon Seabrook, na guitarra eléctrica, entrou pelas portas abertas por Henry Kaiser e Eugene Chadbourne, mas foi capaz de swingar como deve ser, de usar os efeitos da pedaleira de forma inusitada e de acelerar para além do limite, num notável “zapping” de estilos. São dois nomes que eu tomei nota para seguir atentamente nas suas carreiras individuais. De acrescentar os dois metais, trompete de varas e trombone, sempre a trocar de surdinas e a saltar do clássico para a abstracção e para o humor. Os MOPDtK retomam uma corrente inaugurada nos anos 1090 por David Moss, Naked City, Lounge Lizards (não foi acidental a escolha de Steve Bernstein para o trompete, pois ele já tinha estado nos Lounge Lizards e nos Sex Mob) e tocam uma música ubíqua mas compreensível, “groovy” e abstracta. Foi mais outra noite excelente em Guimarães. 

Mais do que a memória

 

O saxofonista Jeff Lederer e a cantora Mary LaRose foram dois dos responsáveis pelas “jams” que decorreram a seguir aos concertos do auditório, no café do próprio Centro Cultural Vila Flor. E no domingo, como habitualmente, foram os responsáveis pela condução do projecto da tarde. É este o dia em que acontecem duas propostas originais do Guimarães Jazz que distinguem este de todos os outros festivais. A primeira ideia é simples, mas muito valiosa: que os músicos que visitam a cidade deixem mais do que a memória de um concerto. Assim, todos os anos convidam um grupo para uma residência que, além de assegurar as “jam sessions” (chamam-se assim, mas raramente se “jama”, porque normalmente são concertos), conduzem um “workshop” com alunos da ESMAE que, durante uns dias, vivem, aprendem, respiram jazz, com estes profissionais. Esta dimensão pedagógica do Guimarães Jazz é única em Portugal e nunca é demais salientar o seu valor.

Ouvimos a “big band” e o “ensemble” de cordas formados por estes jovens músicos que, como habitualmente, mostraram um bom nível técnico e tocaram com alegria e vida. Este foi talvez o melhor concerto deste tipo que ouvimos em Guimarães, com os músicos a conseguirem instalar um clima descontraído sem abdicar do rigor da execução. Usaram a espacialização do som no grande auditório (uma novidade acertada) e tocaram Ayler, Coleman e outros arranjos interessantes. Nem consigo imaginar o trabalho invisível para ter um grupo tão grande de jovens a tocar a este nível, mas o resultado final foi muito compensador para quem ouve e para os músicos. Parabéns ao Guimarães Jazz por manter esta ideia a funcionar.

À noite chegou a segunda ideia original: apoiar o desenvolvimento e a criação de associações de músicos de jazz nacionais e de projectos performativos que juntem diferentes artes. A relação estabeleceu-se com o colectivo Porta-Jazz, que foi convidado a apresentar um concerto que privilegiasse a performance global na Black Box da Plataforma das Artes e da Criatividade de Guimarães (um centro cultural magnífico!). Foi a estreia pública do trabalho que resultou da residência artística de uma semana do dramaturgo Jorge Louraço Figueira. Este escreveu um texto para a actriz Catarina Lacerda e ensaiou uma interpretação com um quarteto liderado pelo guitarrista Nuno Trocado.

A proposta de cruzar a música e o teatro na exploração do som e da palavra resultou, no entanto, fraca. A música tem uma relação íntima com a palavra (na cultura ocidental, durante os primeiros séculos após o império romano, só podia existir como veículo da palavra) e esta tem sido sistematicamente explorada (ainda no fim-de-semana anterior assistimos a um concerto sublime do compositor João Madureira a musicar as palavras de Ana Hatherly). O curto texto foi penosamente estendido através de uma interpretação que usou sempre uma sequência curta de palavras (2-5), intervalada regularmente, enquanto o quarteto construía uma banda-sonora tipo “film noir”. E se escrevo “tipo” é porque era “tipo”, como o queijo “tipo” Serra. Catarina Lacerda ficou com a missão performativa (não se percebe porque é que os músicos que estavam em palco com ela estavam isentos dessa tarefa) e fez o que pôde neste processo de esticar um texto e parti-lo em partes iguais. Longe de ter impressionado, também não foi um espectáculo difícil ou penoso, por isso saímos contentes do PAC, mas com a sensação de que já tínhamos visto este filme muito melhor realizado.