Jazz ao Centro, 1 de Novembro de 2017

Jazz ao Centro

Todos os jazzes

texto Rui Eduardo Paes fotografia João Duarte

Na sua 15ª edição, os Encontros de Jazz não foram apenas de Coimbra, embora aí se concentrasse a maior parte dos concertos. A jazz.pt foi assistir àquele que, este ano, terá sido o festival que reflectiu a maior diversidade de abordagens estéticas e de estilo a que se vai chamando jazz. É como segue…

Com a duração de três fins-de-semana durante o mês de Outubro, o novo modelo de programação do Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra levou-o a outros locais da Região Centro para além da Cidade Universitária (Penela, Miranda do Corvo, Figueira da Foz, Vila Nova de Poiares), totalizando uma vintena de concertos e elevando-o, nesta sua 15ª edição, ao estatuto de um dos mais importantes festivais de jazz do País. Este ano terá sido, também, aquele que mais evidenciou a extrema diversidade deste género musical na actualidade, com um cartaz que não podia ser mais estilisticamente variado, cruzando perspectivas estéticas e tipos de abordagem à improvisação, com ou sem partituras visíveis. A jazz.pt assistiu à parte do amplo cartaz que se concentrou em Coimbra. 

Sopa de harmónicos

 

O primeiro decorreu dia 20 no Salão Brazil, com a Lisbon Freedom Unit em octeto, dada a impossibilidade de o gira-disquista Pedro Lopes se deslocar de Berlim, onde reside e tem a sua base de trabalho. Não foi das melhores actuações a que já pudemos assistir do grupo que junta alguns dos mais importantes nomes da cena de Lisboa da música improvisada, designadamente Luís Lopes, Rodrigo Amado, Pedro Sousa, José Bruno Parrinha, Rodrigo Pinheiro, Ricardo Jacinto, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini, e muito devido ao desenho de som escolhido pela técnica levada pelos músicos. Pelo meio da sopa de harmónicos e frequências agudas só os dois saxofones tenores, o piano e a bateria se distinguiram claramente, com os restantes instrumentos a confundirem-se na nuvem de ruído que tudo afogava num denso e pastoso “drone”. Entre momentos de um detectável free jazz orquestral e outros em que se entrou por mais experimentalistas soluções, regra geral alinhadas com as coordenadas da chamada EAI (acrónimo de “electro-acoustic improvisation”), a prestação foi enérgica, exploratória e decidida, com Amado a opor fraseados melódicos à percussão textural de Ferrandini e um sempre oportuno Pinheiro a introduzir nos enredos algumas surpreendentes figuras pianísticas da música contemporânea. 

Apropriacionismo

 

O dia seguinte foi de maratona, aproveitando diferentes espaços do Convento de São Francisco. Ao arrancar a tarde, na Black Box, apresentaram-se os Cinemascope de Nils Berg, vindos da Suécia. Com um curioso projecto que tem como eixo vídeos musicais – projectados numa tela no fundo do palco – colocados no Youtube e no Vimeo pelos seus próprios protagonistas, a partir dos países mais distantes do planeta, o trio tocou uma música leve e agradável que, ainda assim, colocava pertinentes questões quanto ao nosso tempo de livre disponibilização (e, supostamente, livre uso) de conteúdos no meio virtual da Internet – questões que têm que ver com apropriacionismo autoral e cultural e, inclusive, com neocolonialismo, nos casos em que o que se ouvia derivava de músicas do Punjab ou do Bornéu. No alinhamento do concerto, até Amália Rodrigues surgiu, tratada à maneira do jazz escandinavo. O grupo enveredou por uma muito simples, mas eficaz, derivação do “sampling” e do plagiarismo, com o líder, Nils Berg, a solar em saxofone tenor e flauta, acompanhado pelo contrabaixo e pelo baixo eléctrico de Josef Kallerdahl e pela bateria de Christopher Cantillo. 

Transparente, diminuta

 

De seguida, rumou-se para a igreja do complexo de São Francisco, para ouvir os Pareidolia de João Camões, Gabriel Lemaire e Yves Arques, com Alvaro Rosso como convidado. Foi um dos melhores concertos do festival, com uma música que se abria ao silêncio, tocada quase permanentemente num volume baixo e detalhístico, ainda que não seguisse os princípios da escola reducionista da improvisação. Mais marcada pela new music erudita do que pelo jazz, a performance contou com a reverberação natural providenciada pelas características arquitectónicas do local, sem recorrer a qualquer tipo de amplificação. Transparente, diminuta, apenas com ocasionais explosões por parte do saxofone barítono do francês Lemaire e do contrabaixo do uruguaio Rosso, foi um fantástico exemplo de escuta e de contenção, marcado pela beleza das soluções apresentadas pelo piano do também francês Arques e pelo sempre imaginativo Camões, violetista português especialmente interessante. A utilização de técnicas extensivas, com generoso recurso a preparações, e uma lida intimista dos materiais sonoros estão no cerne da proposta. 

Groove paisagístico

 

De regresso à Black Box, tivemos o oposto com os germano-suíços Ambiq, apostados numa formulação de jazz electrónico com os préstimos de um produtor de techno e música ambiental tocada em sintetizadores modulares, Max Loderbauer, a associarem-se aos de dois músicos com um percurso no jazz, o clarinetista Claudio Puntin e o baterista Samuel Rohrer. O que se ouviu pode ser descrito como o que resultaria se Jon Hassell e os Tangerine Dream dos começos tivessem tocado juntos, numa fórmula que combina “groove” com paisagismo. O clarinete tinha funções solísticas, mas quase nunca era perceptível a sua sonoridade natural – Puntin mergulhava-o em processamentos de sinal, sempre rodando botões e acertando manípulos. Até Rohrer ia tratando o que fazia nas peles e nos pratos com dispositivos vários, multiplicando os efeitos percussivos ou distorcendo-os. Loderbauer, esse, aplicava-se agitadamente entre cabos de diversas cores, mantendo um borbulhar de sons sintéticos. As construções podiam soar frias, artificiais, mas eram também inesperadamente orgânicas. Muito curioso, ainda que não particularmente entusiasmante. 

Romântico, mas não só

 

Já à noite, no grande auditório, vez para os Azul de Carlos Bica. Mais uma vez, houve um problema de som, com o técnico do Convento a achar que o contrabaixo devia estar em primeiro plano pelo facto de quem o tocava ser o líder do grupo. Felizmente, o equívoco não foi suficiente para desvirtuar o que aconteceu: uma incansável e empenhada desfilada das composições de cunho elegante e lírico (ou «romântico», segundo o seu autor) de Bica, um dos mais internacionais dos músicos portugueses de jazz, em invólucros que associavam o jazz à folk e ao rock, com os guitarrismos muito cromáticos do alemão Frank Mobus e a rítmica sempre implacável do norte-americano Jim Black. O concerto foi crescendo de vida e intensidade, passando pelo repertório do mais recente disco do trio, “More Than This”, e por repescagens de temas anteriores. No “encore”, uma surpresa: Carlos Bica sentou-se à bateria, Black pegou na guitarra e Mobus pôs-se a contar uma história ao microfone, fechando de modo divertido uma actuação que muito mereceu o aplauso do público. 

Um excêntrico Moacir

 

De madrugada, mais outro dos pontos altos do festival. No Salão Brazil, tocou o colectivo Quartabê, precisamente do Brasil, com a sua releitura algo excêntrica, porque com o free jazz, o jazz de fusão, a música experimental, etc., como filtros, da escrita de Moacir Santos, ícone maior da MPB. E não só: interpretou-se Brad Mehldau em dada altura e às tantas surgiu uma peça de Dorival Caymmi, autor a quem “Jojô” Queiroz, “Mia” Bastos, “Má” Portugal e Chicão vão dedicar o seu próximo disco. Vestidos com uniformes de colégio e com alguma encenação (até um acidente com a girafa do microfone de voz foi explorado teatralmente), os quatro músicos depressa tiveram os favores da assistência, entre os que à baixa de Coimbra foram por motivos exclusivamente musicais e aqueles que compareceram sabendo do activismo LGBTQ do quarteto. As interacções da dupla de sopros (os clarinetes soprano e baixo e o saxofone tenor de Jojô e Mia) foram particularmente curiosas de seguir e os teclados de Chicão remeteram-nos para o melhor que o Grupo Um fez no Brasil da década de 1970. 

Salt Peanuts

 

Falhámos a apresentação de Marcelo D2 com os SambaDrive de dia 26 de Outubro, mas a 27 outra maratona de concertos nos esperava ao final da tarde e serão fora, iniciando-se em espaços onde habitualmente não se realizam eventos do género. Nos claustros do Colégio da Graça, Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini apresentaram a fórmula PeterGabriel. Liberdade expressiva e concisão foram as coordenadas da sua improvisação total a dois, escolhendo desenvolvimentos em volta de módulos em staccato, com curtas e muito rítmicas frases de saxofone do primeiro. Em determinada altura, fosse inconscientemente ou não, aproximaram-se do tema “Salt Peanuts”, de Dizzy Gillespie. Ali perto, no Colégio do Espírito Santo, estiveram depois os Alforjs de Mestre André, Bernardo Álvares e Raphael Soares. As duas primeiras longas intervenções desenrolaram-se como vem sendo hábito, num tribalismo psicadélico com módulos obsessivamente repetitivos de contrabaixo e bateria e uma electrónica de enchimento que levava tudo para outros contextos que não propriamente o dos povos da floresta tropical. Nada parecia acontecer tudo acontecendo. No final, André pegou no saxofone tenor para algo de completamente diferente e mais conotável com o jazz. 

Raymond Chandler e os néons

 

A seguir, no cenário «à Raymond Chandler», segundo o trompetista, do Hotel Astória interveio o novo quarteto de Sei Miguel, a este e a Fala Mariam se juntando agora Bruno Silva e Pedro Castello-Lopes. Todas as peças começaram do mesmo modo, com esparsas notas do solitário trompete a abrir, intermediadas por silêncios, entrando depois o trombone e finalmente a guitarra e a percussão. As estruturas bastante rígidas ainda mais evidenciaram a preciosidade dos conteúdos, com os timbres limpos, redondos e cintilantes dos sopros a serem cortados por um guitarrista (Silva) com a óbvia função de “sujar” os ambientes criados e pelo par de claves (entre outro reduzidíssimo “set-up”) a que Castello-Lopes se aplicou de forma magistral. Depois do jantar, no Pátio da Inquisição, tocaram em círculo os Fail Better!, com néons dispostos geometricamente a iluminarem a cena a seus pés. Com um posicionamento ambíguo de banda de free jazz a tocar pós-rock ou de banda de pós-rock a tocar free jazz, tiveram como pilar a guitarra eléctrica de Marcelo dos Reis, com o contrabaixo de José Miguel Pereira e a bateria de Marco Franco a alimentarem o lume e os saxofones do catalão Albert Cirera e o trompete de Luís Vicente a lançarem as fagulhas pelo ar. O auge aconteceu quando o guitarrista aplicou um arco nas cordas, transformando o seu instrumento num lamentativo violoncelo. 

Em bloco

 

A noite terminou com os PLINT de Pablo Lapidusas, no Salão Brazil, num molde misto de jazz latino e trio de piano segundo o modelo Bad Plus (ou seja, com um enlevo similar ao do rock), beneficiando das origens argentina, brasileira e cubana dos músicos envolvidos, o líder pianista, que actuara antes com Marcelo D2, o baixista Leo Espinosa e o baterista Marcelo Araújo. Linhas melódicas orelhudas coexistiram com uma rítmica saltitante, em composições que mudavam subitamente de direcção e métrica. Ao longo da prestação foi evidente a intenção de escapar à organização musical em triângulo, com o pianista recusando um posicionamento na dianteira, o que fez com que Espinosa e Araújo pudessem brilhar, ora solando, ora colocando as suas síncopes em primeiro plano, em blocos de elementos indissociáveis que oram pesavam, ora disparavam até muito longe. Como não podia deixar de ser, espalhou-se uma particular agitação por quem assistia e um dos membros do público mais excitados era mesmo Marcelo D2. 

O efeito de uma bomba

 

O derradeiro dia dos Encontros, 28 de Outubro, levou ao Conservatório de Música o cabeça-de-cartaz Peter Evans e o seu novo ensemble em septeto, com Mazz Swift, Ron Stabinsky, Sam Pluta, Tom Blancarte, o repetente Jim Black e Levy Lorenzo. A composição do próprio Evans era de uma enorme complexidade, mais parecendo proveniente do universo da música contemporânea. Mas não era, como se percebeu com o espectacular, e um tanto bizarro, solo de bateria e com as intervenções jazzísticas do trompetista. Com o efeito de uma bomba, a prestação dividiu as opiniões, havendo quem tivesse adorado e quem tivesse odiado com a mesma paixão. Para a jazz.pt foi um dos concertos do ano, mas ouvimos comentários como «isto nunca mais acaba» e «foi mau demais para ser verdade». É natural: quando se sai da vulgata do jazz, e este grupo sai muito (foi o que saiu mais em todo o programa deste ano do Jazz ao Centro, mesmo tendo em conta o que se ouviu dos Ambiq e dos Alforjs), há sempre quem não aceite o desvio. Para além de esta ter sido mais uma magnífica oportunidade de reencontrarmos o exímio trompete de Peter Evans e as suas superiores qualidades de escrita, os destaques vão para o trabalho desenvolvido no computador e demais electrónica por Pluta e para o percussionista Lorenzo, que se desdobrava entre tímpanos, gongos e toda uma parafernália de instrumentos orquestrais clássicos. 

Onde está o tapete?

 

A despedida fez-se a seguir, no Salão Brazil, com Norberto Lobo, na companhia de Yaw Tembé, Ricardo Jacinto e Marco Franco. O projecto incide sobre a criação de canções instrumentais, numa abordagem “lounge” do jazz que por vezes roçava aquilo a que se designou por “incredibly strange music” ou se assemelhava à muzak de elevador. Com temas muito simples e melódicos, com um teor melancólico que se manteve durante todo o “gig”, indo da valsa a uma mimetização da música árabe, foi-se a pouco e pouco jogando com factores de reconhecimento e estranheza. Quando algo parecia aos próprios músicos – vindos da folk alternativa (caso de Lobo), do experimentalismo improvisado e do jazz criativo – demasiado arrumado, um elemento de alto contraste emergia, fosse um despropositado e desconforme solo de guitarra eléctrica pelo mentor do grupo ou uma improvisação colectiva com o trompete de Tembé a voar por cima. Norberto Lobo e os seus parceiros traçaram uma linha oblíqua entre Spike Jones, Don Cherry e John Cage, tirando-nos o tapete debaixo dos pés. Não poderia ter havido um melhor “até para o ano que vem”.