JPES Trio, 11 de Agosto de 2017

JPES Trio

Música transparente

texto Gonçalo Falcão fotografia Joaquim Mendes

A jazz.pt foi ao Hot Clube ouvir do trio de João Paulo Esteves da Silva, ao vivo, o que vem no álbum “Brightbird”, a publicar “oficialmente” em Novembro próximo, mas já com alguns exemplares disponibilizados nos três concertos que o grupo está a protagonizar na lisboeta Praça da Alegria – o último dos quais hoje mesmo. A música parece feita de vidro, mas tem um mundo de ideias dentro.

Em Agosto, Lisboa não pára e fica melhor do que sempre, cheia de coisas boas para fazer e com estacionamento à porta. Por exemplo, uma ida ao Hot Clube numa quinta-feira à noite, a de dia 10, para assistir ao segundo de um ciclo de três concertos do JPES Trio, grupo liderado por João Paulo Esteves da Silva (quando é que os nomes páram de crescer?) com Mário Franco e Samuel Rohrer  durante o qual se fez o pré-lançamento (quando é que os lançamentos páram de crescer?) do novo disco "Brightbird" (Arjunamusic Records), a sair em Novembro deste ano.

Muito cheio de assistência, o Hot começou por escutar uma improvisação urdida a partir de uma ideia musical cíclica. Foi o melhor tema da noite, com a música a ganhar vida própria e a rolar naturalmente e com os músicos a entrarem e a saírem deste movimento que parecia autónomo. Excelentes as improvisações ao contrabaixo de Mário Franco, o músico mais admirável desta quinta-feira. João Paulo esteve seguríssimo e apresentou soluções interessantes. Os dois estiveram dentro da música, tocaram-na com emoção e honestidade e ouviram-se com prazer.

O concerto teve dois momentos claramente distintos: o tema inicial do primeiro “set” e o final do segundo, ambos partindo de estruturas, mas desenvolvendo-se através de improvisações conjuntas (foram «90% improvisados», segundo as palavras de JPEDS) e as peças de fecho e de abertura do primeiro e do segundo “sets”, respectivamente, que eram muito mais estruturadas. Nestas, a actuação perdeu claramente fulgor, pois a escrita era de um lirismo exacerbado, quase meloso, e as canções repetiam-se vezes sem conta, sem que nada de entusiasmante acontecesse para além das explorações de tempo, de transposição e de outros recursos improvisacionais académicos.

O primeiro tema do segundo “set”, em particular, foi repetido “ad nauseum” até se tornar quase impossível de ouvir, com variações pouco significativas e previsíveis. E, no entanto, fez com que eu ficasse com uma admiração ainda maior por João Paulo Esteves da Silva, Mário Franco e Samuel Rohrer, pois pegaram num elemento pobre e trabalharam-no até conseguirem extrair ouro. O problema é que se tratava de um ouro fátuo, muito brilhante, mas sem corpo e densidade. Fora isso, a audição global do concerto foi boa e saí do Hot Clube com a sensação de que assistira a uma entrega e a uma honestidade musical enormes, com uma alma jazzística segura e um elevado nível de espiritualidade.

Hoje ainda é dia de ir até à Praça da Alegria e dar ouvidos a este trio, pois dentro da música aparentemente transparente que toca há um mundo de ideias que se vai desenvolvendo e que dá vontade de seguir.