Jazz im Goethe Garten, 24 de Julho de 2017

Jazz im Goethe Garten

Fins de tarde entre os pássaros

texto Nuno Catarino fotografia Carlos Porfírio / Goethe Institut

O festival do Goethe Institut cumpriu, em Lisboa, mais uma edição, com prestações que ou entusiasmaram ou deixaram o público a querer mais. E se um dos concertos foi perturbado por um público que não estava lá para ouvir música, os restantes tiveram a colaboração da passarada que povoava o jardim. Sobretudo o dos portugueses Earnear.

Entre os dias 5 e 14 de Julho, o Goethe Institut, em Lisboa, acolheu mais uma edição do Jazz im Goethe Garten. Com programação de Rui Neves, o festival apresenta uma linha de jazz contemporâneo e música improvisada, reunindo para esta edição sete participações oriundas do mesmo número de países europeus: Alemanha, Áustria, Espanha, Itália, Suíça, Turquia e Portugal.

O evento arrancou, como habitualmente, com a actuação de uma formação portuguesa, Earnear. O trio junta Rodrigo Pinheiro (piano), Miguel Mira (violoncelo) e João Camões (viola), apresentando uma música puramente assente na improvisação livre. Dada a natureza instrumental, um piano e dois cordofones, o grupo aproxima-se com naturalidade da música de câmara. Pinheiro trabalha um piano originalíssimo, que evita ideias comuns, mas acaba por soar a um certo classicismo. Tal como no Motion Trio, também aqui Mira é versátil e surpreendente, com o violoncelo como âncora central, fazendo a ligação entre as ideias do piano e da viola. Nesta, Camões confirma-se como um improvisador original, herdeiro de Carlos “Zíngaro” (com quem já trabalhou).

A música cresceu em momentos de verdadeira trepidação, alternados por instantes de acalmia. Desde logo foi evidente o entendimento do trio, num diálogo contínuo em constante escuta-acção-reacção. Após um primeiro tema (cerca de 20 minutos), seguiu-se um segundo mais livre, com os músicos a explorarem técnicas extensivas (Pinheiro debruçando-se sobre o interior do piano e Camões utilizando pauzinhos entre as cordas da viola). O grupo exibiu a sua conexão, num concerto em que não faltou a participação – já habitual - dos pássaros, que interagiram com os sons provenientes do palco.

Ao segundo dia, o JiGG continuou a apostar na improvisação livre, desta vez com o Liquid Trio. Oriundo de Espanha, reúne o celebrado pianista Agustí Fernandez, o saxofonista Albert Cirera (residente em Lisboa há vários anos, figura omnipresente das cenas jazz e improvisada nacionais) e o baterista Ramón Prats (que também tem o projecto Duot, um duo com Cirera). O trio desenvolveu desde cedo uma massa sonora una, exibindo um entendimento perfeito, numa magnífica fluidez instrumental. Cirera começou no sax soprano e, com a versatilidade habitual, facilmente se alinhou no trilho comum. Fernandez foi desfilando a sua elegância pianística e Prats mostrou precisão nas manipulações percussivas. Os três foram desenvolvendo um crescendo dinâmico, irresistível. Passaram depois para uma fase mais experimental, com Fernandez a explorar longamente o interior do piano, enquanto Cirera centrou as atenções no sax tenor - mesmo durante esta fase, a química era imbatível.

Depois regressou-se à abordagem inicial, com Cirera novamente no soprano e Fernandez de volta às teclas pretas e brancas do piano. Entre diálogos e crescendos enérgicos, o trio trabalhou uma música fascinante. No final do concerto, Cirera, Fernandez e Prats foram aplaudidos entusiasticamente. Tratou-se de um justo reconhecimento pelo espectáculo de música elástica que foi proporcionado.

Na sexta-feira, dia 7, actuou a banda Namby Pamby Boy, da Áustria, e na segunda-feira, dia 10, o duo de Oğuz Büyükberber & Tobias Klein – infelizmente, não tivemos oportunidade de assistir a estes dois concertos. O programa continuou com os italianos Roots Magic, na quarta-feira. Com dois discos publicados pela portuguesa Clean Feed - “Hoodoo Blues” de 2015 e “Last Kind Words”, que acaba de ser editado – o quarteto trabalha uma música jazzística com margem aberta para a improvisação, assente sobretudo em clássicos dos blues e do free jazz. Perante um jardim à pinha, o concerto começou com duas revisões de blues – uma primeira mais tranquila, em jeito de “warm-up”, com a segunda, após a exposição do tema, a acelerar o ritmo, protagonizada por um clarinete a solar com alta intensidade.

Earnear

Liquid Trio

Roots Magic

Weird Beard

Rotozaza

O grupo interpretou revisões de temas de Julius Hemphill (“The Hard Blues” e “Dogon A.D.”), Blind Willie Johnson (“Dark Was the Night”), Sun Ra (“Call for All Demons”), Roscoe Mitchell, Marion Brown e Charlie Patton. Alberto Popolla (clarinetes), Errico DeFabritiis (saxofone alto), Gianfranco Tedeschi (contrabaixo) e Fabrizio Spera (bateria) tiveram interpretações focadas, que evoluíram em improvisações que não se estendiam demasiado e chegavam rapidamente ao clímax. O melhor ficou reservado para o final: um tema mais longo em que Popolla incluiu um excelente solo de clarinete (por momentos a lembrar Evan Parker, com recurso à respiração circular e a multifónicos), seguido de bons solos do sax de DeFabritiis e do contrabaixo de Tedeschi. Foi uma performance globalmente interessante, sobretudo pelos cruzamentos de universos e linguagens.

Sobre este concerto há que deixar uma palavra sobre o público. O jardim esteve cheio, a abarrotar. Infelizmente, uma boa parte das pessoas não estava lá para assistir à música, mas para socializar, beber cerveja e conversar, como se estivesse num bar ou numa “sunset party”. Não só não dedicaram qualquer atenção à música, como funcionaram como factor de distracção para todos aqueles que queriam simplesmente ouvir, mostrando total desrespeito pelos músicos e por todas as pessoas que pagaram bilhete. O conceito do JiGG, com concertos de fim de tarde, em ambiente informal e com bar a funcionar, costumam resultar bem, com público atento e respeitoso. Esperemos que este mau exemplo tenha sido apenas uma excepção.

Na quinta-feira, dia 13, actuaram os suíços Weird Beard. O quarteto helvético apresentou uma música de desenvolvimento lento, geralmente suave. Liderada pelo saxofonista Florian Egli (um dos seus outros projectos é o Egli-Santana Group, com o luso-brasileiro Gileno Santana), esta banda dedica-se a uma toada atmosférica, quase etérea. A guitarra eléctrica de Dave Gisler funciona como principal eixo condutor, sobre o qual o sax alto de Egli desenvolve linhas sinuosas. A secção rítmica de Martina Berther (baixo eléctrico) e Rico Bauman (bateria) cumpre na perfeição, alimentando a fluxo sonoro com subtileza. O quarteto, que se apresentou também na Sala Porta-Jazz, no Porto, e no Salão Brazil, em Coimbra, mostrou no Goethe que a sua música leve é perfeita para o Verão e o público mostrou-se, desta vez, atento e silencioso.

Para fechar esta 13ª edição, chegaram os Rotozaza da Alemanha. O grupo reúne o guitarrista Nicola L. Hein, o contrabaixista Adam Pultz Melbye e o baterista Christian Lillinger (fenómeno omnipresente da cena improvisada europeia e membro do Lisbon Berlin Trio do português Luís Lopes). O quarteto completa-se com o clarinetista Rudi Mahall (que participa no disco gravado pelo quarteto), mas para este concerto em Lisboa foi substituído por outro músico de renome, o saxofonista Tobias Delius. A música da banda assenta na improvisação pura, mistura de free jazz enérgico e noise.

Na bateria, Lilinger mostrou-se, como sempre, imparável. Delius exibiu a sua fulgurante imaginação. No contrabaixo, Pultz Melbye mostrou-se sempre atento e imprescindível para a orientação colectiva. Fundamental no som do grupo foi a guitarra suja de Hein, talvez o elemento menos interessante, com uma contribuição que se reduzia apenas a um feixe eléctrico, quase estático. Longe da contenção, mas sem abusar da explosão, a música do quarteto construiu-se sobretudo em momentos “in between”, antes da rebentação. Não lhe faltou energia, mas pedia-se mais clareza.