Jazz no Parque, 21 de Julho de 2017

Jazz no Parque

Um exemplo a seguir

texto João Esteves da Silva e Nuno Catarino fotografia Fundação de Serralves

O mote da edição deste ano do ciclo de concertos da Fundação de Serralves foi a reunião no palco de músicos portugueses e de outros países. A jazz.pt assistiu a dois deles, os de Rodrigo Amado Northern Liberties e Joëlle Léandre X5, juntando os seus “Bravo!” aos demais que se ouviram.

O trabalho que Rui Eduardo Paes (REP) tem desenvolvido enquanto programador – ou, melhor dizendo, curador – do Jazz no Parque, na Fundação de Serralves, assume uma importante dimensão produtiva, dado que vai muito além da habitual selecção de formações pré-existentes para integrar um determinado cartaz: envolve-se, de certa maneira, no próprio processo criativo, algo que, para resultar, tem de ser feito por alguém com vasta experiência e, acima de tudo, sensibilidade na matéria em questão (o que é manifestamente o caso), promovendo o aparecimento de formações inéditas, por si idealizadas, especialmente para a ocasião. Foi, neste mês de Julho, o da 26ª edição do ciclo, o caso dos concertos realizados pelos Spinifex Plus (com cinco músicos portugueses a juntarem-se aos Spinifex) a que a jazz.pt não pôde assistir), do quarteto Rodrigo Amado Northern Liberties (o saxofonista de Lisboa mais três noruegueses) e de Joëlle Léandre X5, com a contrabaixista francesa a tocar com improvisadoras da cena nacional…

Mais do que construir um programa regido por determinados princípios estéticos, trata-se, aqui, de fomentar o aparecimento de algo novo – em muitos casos, diria até, necessário – e que tanto pode levar os ouvintes e, claro, os próprios músicos envolvidos, à consumação de certas expectativas (altas, presume-se) como à total surpresa.

Esta linha de acção, já com provas dadas, não deverá ser vista como alternativa à programação mais convencional, mas antes como um importante complemento. É evidente que nem todos deverão enveredar por este caminho, mas uma maior aposta nesta prática, isto se feita pelas pessoas certas, seria muitíssimo bem-vinda. Muito se teria a ganhar se alguns dos principais ciclos e festivais nacionais começassem a incluir nos seus cartazes um par de concertos desta natureza, nomeadamente colaborações entre músicos portugueses e estrangeiros que, apesar da distância geográfica, se poderiam revelar próximos ou, acima de tudo, compatíveis (o que está longe de implicar necessariamente proximidade no seu sentido mais comum), do ponto de vista musical; novos laços, de assinalável potencial, e oportunidades poderiam, assim, florescer. REP tem sido, a este nível, uma referência e, portanto, um exemplo a seguir. (J.E.S.) 

E depois entrelaçavam-se…

 

Rodrigo Amado tem alcançado uma crescente projecção internacional com os seus diversos projectos, O grupo Northern Liberties, resultado de um desafio que lhe foi lançado por Rui Eduardo Paes, tem tudo para reforçar esse caminho. Neste novo projecto, a acompanhar o saxofone tenor de Amado, estão três músicos noruegueses: o trompetista Thomas Johansson (Cortex, Pan Scan Ensemble. All Included, Friends & Neighbors, Paal Nilssen Love’s Large Unit, Kepler), o contrabaixista Jon Rune Strøm (Universal Indians e também All Included, Friends & Neighbors e Large Unit) e o baterista Gard Nilssen (Bushman’s Revenge, Cortex, Zanussi 5, Starlite Motel, Acoustic Unity).

Distinta da “working band” Motion Trio (o grupo estável do saxofonista, que está a celebrar 10 anos de actividade contínua) e dos seus outros grupos recentes – como o trio que gravou “The Attic” (com Gonçalo Almeida e Marco Franco), Wire Quartet (com Manuel Mota, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini) ou o “quarteto americano” (com Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano) -, esta formação representa um novo contexto em que Amado se encontra com três músicos de “backgrounds” e linguagens distintas dos dos seus colaboradores habituais. Desta vez, em vez de improvisadores puros, juntou-se a músicos que habitualmente improvisam tendo como base alguma composição.

Perante um campo de ténis cheio, o segundo concerto do ciclo de Serralves arrancou apenas com a dupla de sopros, saxofone e trompete, em diálogo. A dupla foi alimentando um fluxo musical comum, ao qual se juntaram depois contrabaixo e bateria. No palco do Jazz no Parque o quarteto demonstrou uma fluidez inesperada – há que lembrar que esta foi uma estreia. Foi não só a primeira vez que os quatro músicos tocaram juntos como a primeira em que se falaram sem ser por email, tal como Amado referiu ao microfone. O quarteto luso-nórdico mostrou uma música muito estruturada, com blocos bem definidos. A prioridade era dada aos solos dos sopros, que expunham as suas ideias individuais e depois se entrelaçavam. Frequentemente, seguia-se a entrada do contrabaixo, que ganhava espaço para solar.

Tal como Rodrigo Amado, também Johansson se mostrou um impecável fraseador, criando linhas sólidas e estruturadas – e refira-se ainda o seu grande fôlego, pouco comum para um trompete. Assistimos a uma excelente dinâmica entre ambos, complementando-se e até completando os discursos um do outro. Nota de destaque, também, para o muito interventivo contrabaixo de Rune Strom. Remetido a um papel secundário, Gard Nilssen fez-se notar com um solo no final da actuação (muito aplaudido, diga-se). Entre os quatro músicos nasceu uma música que, mesmo sem rede, exibiu uma imaginação sem limites e, sobretudo, uma fenomenal estabilidade.

Este foi apenas o primeiro passo do novo projecto liderado pelo saxofonista português. Se o Motion Trio e o quarteto que gravou “This is Our Language” já conseguiram construir os seus percursos, este agora estreado grupo tem todo o potencial para conquistar o seu próprio terreno, com características diferentes dos demais. Uns dias depois do concerto em Serralves foi gravar para o Namouche, em Lisboa, havendo planos para um disco. Veremos onde o futuro irá levar este quarteto, mas para já a expectativa está alta. (N.C.) 

Verdadeiras delícias

 

O terceiro e último concerto desta edição do Jazz no Parque foi igualmente o resultado de uma colaboração inédita: um sexteto 100% feminino encabeçado pela contrabaixista francesa Joëlle Léandre – nome maior da música contemporânea, activa tanto ao nível das músicas improvisadas como da interpretação, contando-se no seu historial colaborações com nomes como John Cage, Giacinto Scelsi ou Pierre Boulez, sem esquecer a sua escrita, e que, em boa verdade, dispensa apresentações – e que incluía, ainda, escolhidas a dedo por REP, as portuguesas Susana Santos Silva (trompete), Maria Radich (voz), Maria do Mar (violino) e Joana Guerra (violoncelo e voz), além da espanhola, mas residente no Porto, Angélica V. Salvi (harpa), todas elas experientes improvisadoras e de percursos artísticos bastante diversificados. Assumidamente feminista, o mote deste encontro assentava numa homenagem ao percurso de emancipação das mulheres no seio de um contexto musical com frequência associado à masculinidade e até com um certo historial de discriminação, no qual se destacaram projectos como, entre outros, o Feminist Improvising Group ou Les Diaboliques.

O concerto, integralmente improvisado, dividiu-se em duas partes. A primeira, mais longa, foi iniciada pelo grupo completo, numa toada enérgica e irrequieta, desde logo reveladora da escuta atenta e das altas capacidades reactivas das seis, com o poderoso contrabaixo de Léandre a funcionar em grande medida como eixo. O desenvolvimento fez-se numa sequência de formações mais pequenas, de grande intimismo – duos e solos, sobretudo, mas também alguns trios e quartetos. Na segunda parte esteve em destaque o conjunto completo, pleno de sensibilidade.

Tendo em conta a própria instrumentação (cordas, vozes, trompete), seria de esperar que predominassem as sonoridades da música de câmara contemporânea e assim foi, ainda que nunca de modo previsível. Por várias vezes, evocaram-se também outros universos, resultando num jogo muito próprio, livre de quaisquer complexos ou purismos. Muitos foram os momentos, regra geral imperando a subtileza e a concentração no detalhe (embora também tenha havido lugar para maiores agitações), que proporcionaram verdadeiras delícias, sempre desafiantes, para os ouvidos.

Memorável foi toda a sequência iniciada a partir de uma telúrica interacção entre Léandre e Radich, ambas parecendo evocar cânticos tribais de diversas proveniências, sustentados pelo contrabaixo, à qual se seguiu um momento a solo de Guerra, contrapondo murmúrios, pequenos gritos e outros ruídos ao seu violoncelo e, depois deste, um novo duo, desta feita entre Maria do Mar (que protagonizara outro, também de belo efeito, com Radich, logo no início) e Susana Santos Silva, com o violino a soltar apontamentos algo ligetianos e o trompete, outrora meditativo e responsável, talvez, pela principal reminiscência jazzística de todo o concerto, em modo mais experimental. Salvi, que entretanto se juntara, formando um trio, dando chão e intensificando a atmosfera, belíssima, plena de motivos repetitivos irregulares que se desdobravam, destacou-se, de seguida, a solo: ora impressionista ora, imagine-se, a fazer lembrar uma guitarra rock com distorção. Pelo meio, aproximou-se de um certo orientalismo ou do universo de Takemitsu. Entre notas esparsas e glissandos torrenciais, terminaria, por fim, com uma delicada nota repetida. Léandre dava continuidade ao fio condutor, também a solo, capaz de extrair toda a espécie de sons do seu instrumento, desde os convencionais aos mais surpreendentes. A sequência (e, por sua vez, a primeira parte do concerto), terminaria com Santos Silva, primeiro levantando voo, estimulada por uma densa base tecida pela contrabaixista, a explorar, juntamente com esta, interessantes texturas, muito bem controladas.

Nunca, por um instante que fosse, a exibição de capacidades individuais foi assunto. Os propósitos do grupo eram inteiramente distintos: importava aqui, acima de tudo, o trabalho de composição, em tempo real, de grande responsabilidade e a requerer permanente atenção aos mais diversos pormenores – o som, o espaço, a intensidade e as dinâmicas ou as próprias estruturas que, aqui e ali, iam surgindo e em relação às quais se exigiam decisões importantes. Tudo isso foi, regra geral, conseguido, até porque a atitude dominante foi a do respeito absoluto pelo princípio de que, se as coisas estão a soar bem, esteja quem estiver a tocar, só vale mesmo a pena participar na trama se houver realmente algo a acrescentar – em boa medida, metaforicamente falando, algo que a música (ou o som) esteja, de facto, a pedir naquele momento.

Neste sentido, mantendo-se sempre muitíssimo focadas, deixaram que as coisas fossem acontecendo, que os sons – e a sua respectiva articulação com o silêncio (que incluía os pequenos ruídos do parque), muito bem gerida – fluíssem, sem nada forçar (“We took time…”, destacava, satisfeita, Léandre, no final do concerto). As múltiplas tensões verificadas, no seio de uma atmosfera muitas vezes misteriosa, intrigante, de invulgar beleza, surgiam, mais do que dificuldades a resolver, como componentes orgânicas do todo, um verdadeiro enredo de pequenos episódios, contrastantes mas muito bem articulados entre si, cada um conduzindo ao seguinte, reforçando a expectativa que ia pairando.

Diverso mas nunca disperso, riquíssimo nos detalhes, delicado, belíssimo, este terá sido um dos melhores concertos do ano até ao momento. Uma aposta claramente ganha por parte de REP e uma experiência que estas instrumentistas tão cedo não irão esquecer. No geral, o público pareceu responder positivamente a esta música nada óbvia (mas, diga-se, em plena sintonia com o ambiente do parque) e manter, em boa medida, níveis de concentração necessários à sua assimilação. Houve até lugar para entusiásticos “Bravo!”, no final. (J.E.S.)