Julho é de Jazz, 20 de Julho de 2017

Julho é de Jazz

Bitola alta

texto Nuno Catarino e João Esteves da Silva fotografia GNRation

A edição de 2017 do ciclo organizado em Braga pelo GNRation subiu ainda mais os níveis de qualidade do seu programa, com um Evan Parker (foto acima) que não parece afectado pela idade, dois dos melhores grupos portugueses em rodagem, Slow is Possible e os Impermanence de Susana Santos Silva e uma formação inglesa, Get the Blessing, que fez com que as cabeças se agitassem sem abrir concessões à facilidade. A jazz.pt esteve lá…

O belíssimo espaço GNRation, em Braga, vem promovendo desde há três anos um ciclo dedicado ao jazz e à música improvisada intitulado Julho é de Jazz. Nas edições anteriores passaram pelo evento nomes internacionais de referência como Peter Brötzmann e Joe Morris, além de músicos e projectos nacionais de relevo, como Rodrigo Amado, Ensemble Super Moderne, Red Trio e Hugo Carvalhais, entre outros. Para a edição deste ano foram programados quatro concertos (em duas noites), além de um “workshop”. Na primeira noite (dia 7) apresentaram-se os portugueses Slow is Possible e o inglês Evan Parker - a solo. O ciclo continuou com uma oficina de improvisação ministrada por Evan Parker (dia 8) e no segundo fim-de-semana actuaram os ingleses Get the Blessing e a portuguesa Susana Santos Silva, apresentando o seu magnífico "Impermanence" (dia 14).

Os concertos de dia 7, que estavam originalmente agendados para o pátio exterior, foram mudados para a Black Box devido à ameaça de chuva. A actuação dos Slow is Possible (SiP) arrancou de forma tranquila, com um “drone” arrastado, que evoluiu, lentamente, até atingir um ponto de explosão. Nesse momento o sexteto atacou com toda a força, numa massa sonora enérgica, e o público presente percebeu que não ia assistir apenas a mais um concerto de "jazzinho".

A música dos SiP é uma surpresa permanente, parte de um motivo melódico base, vai evoluindo às voltas, em repetições sedutoras, em uníssonos impecáveis, mas depois lança rasteiras, com quebras bruscas, que atrapalham o ouvinte, para depois o apanhar de volta. Houve instrumentos que se destacaram com naturalidade: a guitarra eléctrica (João Clemente), o violoncelo (André Pontífice) e o saxofone alto (Bruno Figueira) são os principais impulsionadores desta música, responsáveis por lançarem mais faíscas. O restante grupo (a secção rítmica de Nuno Santos Dias, Ricardo Sousa e Duarte Fonseca) fica mais na rectaguarda, contribuindo (com eficácia e precisão) para a força do som colectivo. A música dos Slow is Possible é um desafio constante para o ouvinte, não serve para ficar em segundo plano, exige atenção permanente. O ouvinte é recompensado: todo esse sobressalto resulta em alguma da música mais original feita actualmente no nosso país.

Esta música não se cola a um rótulo, serve-se de vários: tem uma matriz jazz, engloba elementos da clássica e, sobretudo, assenta num espírito rock. Aliás, a música dos SiP, que vive de recorrentes crescendos e explosões, será até tão directamente devedora da estética pós-rock como do jazz. No palco do GNRation os Slow is Possible apresentaram uma música riquíssima, mescla de influências que resulta em algo de novo. Despedindo-se do público, o saxofonista Bruno Figueira aproveitou para informar que o material que a banda tinha acabado de tocar irá integrar o seu próximo disco, que irá ser lançado em Setembro pela editora Clean Feed. O disco de estreia já foi uma excelente surpresa. O que aí vem vai chamar-se "Moonwatchers" e, depois desta amostra ao vivo, a expectativa é altíssima.

Após a actuação do sexteto português, seguiu-se a muito aguardada performance do veterano Evan Parker. O inglês (n. Bristol, 1944), que foi um dos pioneiros da improvisação livre, foi a Braga para uma actuação a solo, acompanhado pelo seu saxofone soprano. Parker interpretou duas peças improvisadas, uma primeira mais curta (cerca de 15/20 minutos de duração) e outra mais longa (cerca de meia hora) que completou a intervenção. Apesar da respeitável idade (73 anos!), Evan Parker foi enérgico e pleno de intensidade. Com um sopro imparável, serviu-se da respiração circular (do princípio ao fim!), debitando notas em velocidade supersónica, fazendo os dedos passar pelas chaves vertiginosamente, o que resultou num vendaval de sons sobrepostos.

Nesse primeiro tema exibiu os galões, mostrando um Evan Parker "clássico" e o seu fôlego infinito (deixando o público sem fôlego). Numa soberba exploração dos multifónicos, mais parecia que várias pessoas estavam a tocar em simultâneo. Depois, Parker abrandou um pouco e variou os registos. Algo mais lento, interrompeu por várias vezes a respiração circular. Apesar de mais diverso, este tema contou também com momentos memoráveis de imparável ferocidade. Após o inevitável aplauso no final, entusiasmado, alguém lhe perguntou pelo saxofone tenor. Parker respondeu que só o trazia quando tocava com bateria. Para o “encore”, fez uma interpretação (original e breve) de um tema de Eric Dolphy. O histórico saxofonista cumpriu as elevadas expectativas e o público bracarense mostrou-se satisfeito. (N.C.)

 Excelente ambiente

 Público da Black Box

João Clemente

Bruno Figueira

Duarte Fonseca e André Pontífice

Evan Parker

Público do pátio

Impermanence

Susana Santos Silva e Hugo Raro

João Pedro Brandão

Get the Blessing

Pete Juge

Jim Barr

O pátio exterior do GNRation, em Braga, espaço bem interessante do ponto de vista arquitectónico e de invulgarmente boa acústica, recebeu de seguida, a 14 de Julho, a segunda sessão do Julho é de Jazz deste ano. A vez foi para os Impermanence (com disco editado pela Carimbo Porta-Jazz em 2015) de Susana Santos Silva e para os ingleses Get the Blessing. Com lotação esgotada e um público, na sua grande maioria, bastante jovem, a noite decorreu num excelente ambiente.

Subiu primeiro ao palco o quinteto Impermanence, com Susana Santos Silva (trompete), João Pedro Brandão (saxofone alto e flauta), Hugo Raro (Fender Rhodes), Demian Cabaud (contrabaixo) e Marcos Cavaleiro (bateria). Em relação ao disco e a outros concertos, entre os quais a apresentação na Festa do Jazz de 2016, verificaram-se algumas diferenças. Primeiro a substituição do piano pelo Rhodes (que, no geral, dá uma sonoridade mais densa – e menos camerística – ao conjunto, além de apresentar outro tipo de cores e efeitos), provavelmente por motivos logísticos, ainda que tendo este ficado também a cargo de Raro, sem dúvida um dos bons pianistas que por aqui vamos tendo (e que, por certo, mereceria maior visibilidade). Em segundo lugar, a substituição do inventivo contrabaixista sueco Torbjörn Zetterberg por Cabaud, aposta sempre segura e que foi, aliás, um dos músicos em melhor plano nesta noite.

Hoje a residir em Estocolmo e mantendo-se intensamente activa, colaborando com músicos das mais diversas origens geográficas e musicais, Santos Silva tem visto, nos últimos anos, a sua projecção internacional crescer a passos largos. Aventurosa e cosmopolita, a sua música denota uma grande atenção a variadíssimas correntes contemporâneas. A par de uma extensa dedicação à improvisação sem rede, revelando uma considerável amplitude estética (ouça-se, por exemplo, o recente “Life and Other Transient Storms”, num quinteto com figuras de proa da cena escandinava como Sten Sandell ou Lotte Anker), tem-se afirmado, também, enquanto compositora, sendo “Impermanence” precisamente um dos projectos em que maior ênfase dá à escrita.

Uma escrita rigorosa, com estruturas muito marcadas (ostinatos e linhas melódicas angulosas, pautadas por subtis dissonâncias, por vezes tocadas em uníssono mas, sobretudo, criando contrapontos), que, por sua vez, se articula de forma orgânica com solos mais convencionais (sobre harmonias), mas, também, com muita improvisação livre – livre, sim, mas com um considerável foco composicional, contribuindo para a coerência estética desta música, não obstante toda a diversidade verificada: entre o cerebral e o lírico, o estruturado e o exploratório, a par de múltiplos contrastes ao nível dos tempos e das dinâmicas. Foi nesta toada que o concerto se desenrolou, sucedendo-se ambientes vários (também do ponto de vista da instrumentação, dado que o conjunto se ia desdobrando constantemente em diferentes formações – houve de tudo, do solo ao quinteto), sem que se perdesse o fio condutor, entre os quais, a par de uma ou outra paragem, teve lugar um par de pequenos interlúdios de electrónica. Todos os músicos se apresentaram a um bom nível: no mínimo, muito competentes, e por vezes até francamente inspirados, revelando coesão – nota-se, agora, uma maior rodagem do grupo – e eficácia na muitas vezes difícil execução destas composições.

Destaque para a interacção dos sopros, com Santos Silva ora mais melódica ora explorando texturas diversas, e Brandão alternando entre os seus dois instrumentos, enriquecendo o espectro tímbrico do conjunto. Também para os vastos recursos de Raro (desde “voicings” jazzísticos nada óbvios a arpejos, “clusters” ou tremolos mais devedores à música contemporânea), assertivo e de assinalável bom gosto, ou a solidez, quer em tempos livres quer em momentos mais “groovy”, da dupla Cabaud-Cavaleiro, com este último intenso mas sensível e o contrabaixista, que se evidenciou num solo absoluto ainda na primeira parte do concerto, com um belíssimo som, possante e amadeirado, impecável tanto em “pizzicato” como quando manejando o arco. Em suma, mais uma boa amostra desta faceta de Susana Santos Silva, parecendo reminiscente (apesar de a mesma afirmar que nunca o ouviu) do octeto de Peter Evans, mas também de outros protagonistas do jazz nova-iorquino contemporâneo que têm procurado encontrar novas soluções, não raras vezes engenhosas, privilegiando o sentido de composição, para conciliar a improvisação com a escrita.

Seguiram-se os Get the Blessing, quarteto de Bristol composto por Pete Judge (trompete), Jake McMurchie (saxofone tenor), Jim Barr (baixo eléctrico) e Clive Deamer (bateria), os dois últimos conhecidos pela sua colaboração com os Portishead (e, no caso do baterista, também com os Radiohead), músicos de vasta experiência em diversas áreas do rock ou do jazz que, em 2000, motivados por, entre outros factores, o seu interesse comum pela música de Ornette Coleman (Coleman que é, aliás, homenageado no seu mais recente álbum: “Astronautilus”, de 2015), formaram este grupo – com uma instrumentação próxima do quarteto do pioneiro do free jazz – que, entretanto, tem rodado um pouco por todo o mundo. Foram apresentados temas dos cinco álbuns que até à data gravaram.

Se o concerto anterior requeria uma escuta atenta para ser devidamente fruído, este conquistou a larga maioria da assistência (e não mais a largou, à excepção, talvez, de alguns momentos de maior acalmia) logo desde os primeiros compassos, graças à sonoridade possante e acessível do grupo: alta intensidade, com uma secção rítmica roqueira e os sopros, em uníssono (inspirados pela monofonia das composições ornettianas), expondo linhas melódicas agitadas, também algo angulosas mas que entram no ouvido com relativa facilidade. A verdade é que, além de terem levado muito do público presente a bater o pé e a abanar a cabeça com entusiasmo praticamente desde o princípio ao fim (ao qual se seguiram ainda dois “encores”, recebidos de modo igualmente caloroso), proporcionando uma atmosfera quase festivaleira, a música que praticam, ainda que acessível, está muito longe de ser simples e desprovida de detalhes não imediatamente detectáveis. Aliás, se soa com frequência simples é por mérito dos próprios instrumentistas.

Sempre que os temas pareciam previsíveis, eram tomados caminhos surpreendentes, regra geral afastando-se de soluções mais óbvias. Revelando um entrosamento fora de série, fruto, por certo, da forte cumplicidade que os une e de vários anos de intensa rodagem, os quatro foram criando um ambiente de pendor cinemático, repleto de tensões e respectivas resoluções, para o qual em muito contribuíram a electrónica a que iam recorrendo Judge e McMurchie ou os pedais de efeitos usados por Barr. Enquanto solistas, todos revelaram bons recursos, quer técnicos quer pela forma como denotavam o seu à-vontade em numerosos estilos, ainda que, aqui, organicamente conjugados num todo específico (os Get the Blessing têm um som bastante próprio) e nunca enquanto colagem evidente. Num momento bem-humorado, um pouco mais ligeiro mas não por isso repreensível (até porque, ali, vinha a propósito), o público foi mesmo incitado a participar, através de um bater de palmas regular, tendo este aderido sem hesitações. Entretenimento, sim, mas muita música, e da boa.

Nota positiva, ainda, para o trabalho do técnico de som, sensível e empenhado, que conseguiu a proeza de, em dois concertos de sonoridades bem distintas, obter um excelente equilíbrio, permitindo que todos os instrumentos se ouvissem com quase idêntica clareza. Não é todos os dias que isso acontece, ainda para mais tratando-se de concertos ao ar livre. Para o ano há mais e uma coisa é certa: pelas mais variadas razões, este ciclo do GNRation está bem vivo e recomenda-se! (J.E.S.)