The Legends Honor McCoy
Homenagem à chuva
Luminárias do jazz como Ron Carter, Wallace Roney, Roy Haynes e o próprio McCoy Tyner tocaram no Central Park, em Nova Iorque, num tributo ao pianista que reforçou a imponência e o charme da música de John Coltrane. Chovia torrencialmente e a jazz.pt resistiu o quanto pôde. Valeu a pena.
SummerStage, o maior festival de artes performativas de Nova Iorque, em associação com o Blue Note Jazz Festival, teve um dos seus apogeus no dia 4 de Junho, com um concerto de homenagem ao pianista McCoy Tyner, hoje com 77 anos de idade. O evento, intitulado 'The Legends Honor McCoy', teve lugar no Rumsey Playfield do Central Park, e atraiu ávidos entusiastas de várias idades, que se reuniram para ver e ouvir algumas das, ainda vivas, lendas do jazz.
O notável Ron Carter, embaixador dos contrabaixistas de jazz, tocou com o seu quarteto: Renee Rosnes ao piano, Payton Crossley na bateria e Rolando Morales-Matos na percussão. Abriram a sessão com um longo “medley” que misturou sabores bossa nova/samba, um bop empático e uma iluminada música modal. Foram identificáveis temas como “Flamenco Sketches” e “7 Steps to Heaven”, ambos de Miles Davis, bem como “Samba de Orfeu”, de Luiz Bonfá, em cujo solo Carter deleitou a audiência com os seus “slides” e “grooves” espontâneos. “My Funny Valentine” trouxe as primeiras gotas de chuva, antecipando a entrada em palco do aguardado trompetista Wallace Roney, que teve oportunidade de brilhar em dois clássicos, “Billie’s Bounce” e “Bye Bye Blackbird”.
A ameaça de chuva torrencial tornou-se realidade e o negro céu resolveu derramar toda a sua água sobre os presentes, obrigando à retirada de grande parte deles. Apenas os tenazes resistiram e sentiram-se gratos pela boa disposição e pelo incrível andamento do veterano baterista Roy Haynes que, aos 91 anos, ainda nos presenteou com um número de sapateado. A sua banda de longa data, Fountain of Youth, inclui Jaleel Shaw no saxofone alto, Martin Bejerano no piano e David Wong no contrabaixo. Algumas composições de Thelonious Monk e Wayne Shorter foram revisitados por este ágil quarteto.
Mesmo completamente encharcado e desconfortável, eu estava determinado a ver actuar o homem da noite. E vi! McCoy Tyner pode já não andar tão rápido como antes, mas aquela sua mão esquerda continua a ter a imponência e o charme que estarão para sempre associados aos álbuns mais entusiasmantes de Coltrane, sem esquecer os seus sensacionais trabalhos como líder.
Harmonizando em estilo e recorrendo às suas típicas frases com “staccati” durante as improvisações, McCoy foi buscar jóias do passado, começando com “Fly With the Wind”, retirado do álbum de 1976 com o mesmo nome. Seguiram-se uma versão encurtada de “Walk Spirit, Talk Spirit” e o emblemático “Blues on the Corner”. Com ele estiveram o saxofonista alto Sherman Irby, o baixista Gerald Cannon e o baterista Joe Farnsworth. Gelado, não consegui resistir para além do terceiro tema. No entanto, abandonei o local satisfeito em relação aos músicos que vi e à música que ouvi.