Cambien, 17 de Dezembro de 2015

Cambien

Entre abordagens

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

A “tour” por Portugal do trio norueguês passou pela Parede e fez com que o pouco público parecesse crescer, tal foi o entusiasmo. A música esteve entre as coordenadas da improvisação livre e do jazz, com melodias de canção pop a surgirem pelo meio. Até o fantasma de Roland Kirk andou por ali, tocando saxofones tenor e soprano em simultâneo.

Parede (SMUP), Coimbra (Salão Brazil) e Porto (Sonoscopia): este é um percurso cada vez mais usual nas pequenas digressões que grupos da Escandinávia fazem por Portugal, e assim aconteceu com o trio Cambien, formado pelo pianista belga, mas radicado em Oslo, Jonas Cambien (Platform, Aksiom, Karokh), com duas figuras de vulto na cena norueguesa, o saxofonista (tenor e soprano) e clarinetista (baixo) André Roligheten (Friends & Neighbours, Team Hegdal, Trondheim Jazz Orchestra) e o baterista Andreas Wildhagen (Mopti, Paal Nilssen-Love Large Unit). Fomos ouvi-los à Parede, numa noite húmida de terça-feira que manteve dentro de portas os apreciadores dos sons que vêm do Norte da Europa: apenas uma dezena de pessoas assistiu ao excelente concerto, mais um da Combat Jazz Series. Não sabem o que perderam.

Depressa ficaram a claro as estratégias de condução do grupo, colocando-se entre dois tipos de abordagem e entrando largamente por cada um deles em cada peça: a improvisação livre e o jazz, com referências na clássica contemporânea (área em que Jonas Cambien também se move) a irromperem aqui ou ali. Regra geral, a música começava por graduais aproximações aos temas em registo exploratório e abstracto, com Roligheten a demorar-se nos burburismos que definem a “new school” da música improvisada, com especial incidência no “slap-tonguing” e no “over-blowing”, sobre um simples, mal altamente eficaz, referencial, motivo de piano (Cambien quase sempre se colocando ao serviço do todo – só saltou para a frente num delicioso solo que nos remeteu para Ligeti e quando introduziu uma cadência africana com preparação do seu instrumento) e ora o tricotado da percussão, percebendo-se por que é que Nilssen-Love chamou Wildhagen para a sua orquestra, como segundo baterista.

Jonas Cambien

André Rolighetten

Depois, todas as pontas se juntavam e o trio irrompia numa situação claramente jazzística, trocando as frágeis texturas, quase sempre picadas por ostinati e staccati, por poderosos novelos de melodia, harmonia e ritmo, estes bem mais convencionais. Aí chegados, nenhuma referência era excluída: aconteceu algo que poderia ter sido feito por Stan Getz em registo bossa nova ou um abrasivo Sonny Rollins numa assunção descomplexada do hard bop. Com uma particularidade: os fraseados melódicos eram daquele tipo que fica no ouvido, como numa canção pop ou folclórica.

Só uma vez não foi assim: partiu-se do jazz e a música foi-se decompondo até se tornar num fluir de “bricolage” sonora, com estalidos e respirações de sax, mãos nas peles da bateria e intervenções directas nas cordas do piano. Por duas ocasiões, Rolighetten tocou em simultâneo os saxofones tenor e soprano, à maneira de Roland Kirk e de David Jackson, dos Van Der Graaf Generator. Nesses momentos, o trio cresceu em densidade e amplitude tímbrica, até porque o músico não se ficou pelos uníssonos: jogou com os choques de frequências entre oitavas da mesma nota e até fez contrapontos. Mesmo o pouco público pareceu crescer, com o entusiasmo. Foi bom, muito bom.