Barraca’bana
Violinos, violoncelos e um fiasco
Em mais uma edição do ciclo de concertos pensado para A Barraca, em Lisboa, deu-se especial atenção às cordas de arco da improvisação nacional. Com resultados magníficos, destoando de um arranque sem cordofones que não funcionou…
No mesmo cenário, o bar de A Barraca, em Santos, onde decorreram as primeiras edições do Rescaldo, o Barraca’bana quase ia deixando, no último sábado, de se diferenciar desse outro ciclo de concertos. E isso porque o evento dedicado à música improvisada e ao jazz criativo abriu com a estreia («mundial», como referiu ao público um dos organizadores, Marcelo dos Reis) de um projecto assente na composição, o de Tiago Sousa e Luís Vicente.
A combinação entre um teclista (Sousa em harmónio, órgão e piano) conhecido pelas suas filiações neoclássicas e quase New Age, apesar do que fez com o trio Pão nos domínios da improvisação livre, e um trompetista (Vicente) de jazz parecia improvável, mas despertou a curiosidade e muitas expectativas. O facto é que a fórmula não resultou.
Tiago Sousa foi igual a si próprio e chamou à sua zona de conforto o parceiro do duo. Este raras vezes conseguiu encaixar na moldura, tocando ao lado do que se esperava. Luís Vicente estava em noite não, ora pouco imaginativo no fraseio, ora perdendo-se nos desenvolvimentos, ora lidando com problemas de tonalidade, se não mesmo de afinação. A música não colou: não havia empatia nem comunhão de propósitos e isso acentuou ainda mais a monotonia da prestação.
Muito diferente foi a actuação do quarteto de cordofones que se seguiu, formado por rodados improvisadores da cena nacional, Carlos “Zíngaro” no violino, Miguel Mira no violoncelo, Hernâni Faustino no contrabaixo e Marcelo dos Reis na guitarra. Todos eles utilizaram arco e todos eles entraram por situações em pizzicato, anulando as diferenças entre cordas de arco e guitarra.
Marcelo dos Reis escolheu, regra geral, uma postura de suporte, com a repetição de padrões rítmicos (por vezes utilizando mesmo a guitarra como percussão) ou de malhas, tendo um sempre irrequieto, e mais conotado com o jazz, Faustino como contraponto. Entre pontilhismos e densidades várias, com um grande espectro de dinâmicas, a música cresceu e extrapolou-se, com “Zíngaro” e Mira a alimentarem continuamente o fogo, resultando num magnífico exemplo da arte da improvisação. A última peça terminou abruptamente e em conjunto, como se o final estivesse escrito no papel.
O nível manteve-se alto com o dueto de Gil Dionísio e Joana Guerra. O mesmo tipo de sonoridade (violino e violoncelo) ampliou-se com o trabalho vocal, mas as coordenadas eram bem diferentes. Mais definida e prevista (este é umduo fixo, enquanto o quarteto anterior só tocara uma vez antes), a música apresentada fez-se de figurações sempre em movimento, com mudanças de direcção totalmente imprevisíveis. E era uma mistura bem conseguida de referências muito diversas, entre elementos provenientes do classicismo, do jazz, da música cigana dos Balcãs e do rock.
Não por meio de fusão ou colagem de géneros e estilos, mas de canibalismo dos seus ingredientes, algo bem menos óbvio. Se Joana Guerra se tornou num nome incontornável da jovem cena “improv”, Gil Dionísio é um caso bem especial. Com uma forte presença de palco, talvez devido à sua experiência no teatro e na dança, a forma como utiliza o instrumento está entre o virtuosístico e exactamente o seu contrário, a exemplo das várias ocasiões em que bateu intencionalmente com o arco no microfone. Ora aqui está uma proposta nova e com uma identidade própria que merece atenção.