Jazz em Agosto 2023, 1 de Junho de 2023

Jazz em Agosto 2023

Traços de quem correu riscos: Jazz em Agosto 2023

texto: Gonçalo Falcão

Frank Lowe, numa conversa com Brian Morton, disse que gostava do saxofonista Chu Berry (1908-1941), famoso nos anos 30 do século passado, porque ele tocava uma coisa e depois tocava-a outra vez... só que melhor. E isso – disse Lowe – é a essência da improvisação: «Everyone thinks you play something new every time, but that isn’t it. You play the same things. You just dig deeper into them. That’s what Coltrane did. He must have played ‘My Favorite Things’ 500 times (…) and them he played it again, only better, or deeper…» O Jazz em Agosto deste ano é sobre isto: tocar outra vez, melhor e mais profundamente. É um regresso à essência da música, ao momento inaugural. Às primeiras músicas surgidas no Pleistoceno, que eram seguramente improvisadas, e onde a repetição era o que distinguia o que eram sons e o que era música. A jazz.pt leva-o até lá.

A um ano de completar 40, o Jazz em Agiosto (JeA) vai à procura da metafísico da repetição. É este o leitmotiv da edição - a 39.ª - que decorrerá entre 27 de julho e 6 de agosto. Algumas coisas não mudam: concertos às 21h30 (quase) todos os dias no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian, com dose dupla nos fins de semana, sendo que nestes casos o aquecimento é feito no Auditório 2 da Fundação, às 18h30. Bilhetes entre seis e 15 euros.

O jazz feminino é outra das singularidades que conseguimos destacar do programa, ou não estivéssemos quase a celebrar quatro décadas sobre a criação deste festival por Madalena de Azeredo Perdigão (e o centenário do seu nascimento, [1923-1989]). Sem o risco que ela gostava de correr não teria havido Jazz em Agosto, ou pelo menos não seria como é hoje, um festival que procura colaborar no avanço do jazz. A presença de mulheres é dominante nesta edição.

Correr riscos: 3 sugestões para 3 orçamentos.

1.
O passe para todos os concertos custa 105 euros (11 às 21h30 e quatro às 18h30) e os bilhetes variam entre seis e 15 euros. Feitas as contas esta é a versão que vale a pena (assinatura), com o acesso a todos os concertos, muitos dos quais esgotam.

2.
Numa versão mais poupada, a jazz.pt recomenda a compra de sete bilhetes no valor de 75 euros; a listagem de concertos para este modelo é:

27 de julho, 21h30
Eve Risser’s Red Desert Orchestra
29 de julho, 18h30
Susana Santos Silva Solo
                     21h30
Natural Information Society + Evan Parker
30 de julho, 21h30
Hedvig Mollestad’s “Ekhidna”
3 de agosto, 21h30
“Ghosted” | Anfiteatro Ao Ar Livre
5 de agosto, 21h30
Mary Halvorson’s “Amaryllis”
6 de agosto, 18h30
Camille Émaille

3.
Num plano minimal, para portugueses não nómadas digitais que vivem do seu ordenado (ou para os que estão a começar e vão em modo “ora deixa-me lá ver o que isto é”), a redução possível para uma dieta rigorosa será de 48 euros com:

27 de julho, 21h30
Eve Risser’s Red Desert Orchestra
29 de julho, 18h30
Susana Santos Silva Solo
                     21h30
Natural Information Society + Evan Parker
6 de agosto, 21h30
Gard Nilssen’s Supersonic Orchestra

 

Mas como o melhor é cada um ir pelos seus ouvidos, aqui fica o preview de todos os concertos:

Eve Risser Red Desert Orchestra

Quinta-feira, 27 de julho, 21h30
Eve Risser’s Red Desert Orchestra
Anfiteatro Ao Ar Livre

O festival começa com uma grande formação e com música descomunal. Os discos de Eve Risser têm sido mais do que discos. Acontecimentos históricos. Tenho para mim que o “Des Pas sur la Neige”, que elegemos como disco do seu ano , é um dos mais interessantes discos de sempre de improvisação no piano. Seguiu-se a White Desert Orchestra que também veio ao Jazz em Agosto em 2016. A compositora e pianista lançou o ano passado "Eurythmia", com a Red Desert Orchestra que assume claramente influências africanas sub-sarianas (Guiné, Senegal, Mali) com o uso de dois balafons e djembé. O disco, foi novamente surpreendente, com os doze músicos a evoluírem numa dança estranha: a secção rítmica colorida e os sopros europeus em disfasia, juntos pela repetição e em melodias encantatórias.

 

Trance Map + por Peter_Gannushskin

Sexta-feira, 28 de julho, 21h30
Trance Map +
Anfiteatro Ao Ar Livre

Evan Parker desenvolveu uma técnica de sopro contínuo e um fraseado muito particular. Isto porque sempre se interessou mais por praticar formas repetitivas não europeias do que as nossas escalas, dado considerar que estas últimas acabam por inconscientemente criar padrões nos solos que não queria incorporar. Em 2008, conheceu Matthew Wright e com ele tem trabalhado esta formação (variável, cuja única constante é a presença conjunta do saxofone de Parker, e o processamento eletrónico do som por Wright). O disco editado pela Intakt em 2019 em quinteto (“Crepuscule in Nickelsdorf”) foi o primeiro a fixar o som deste grupo que agora vem a Lisboa numa encarnação muito diferente. A presença de Pat Thomas no piano (que no ano passado deslumbrou com os أحمد [Ahmed]) e de Peter Evans (e de Hannah Marshall no violoncelo e Toma Gouband na percussão) antecipa grupo mais americanizado do que o europeu que gravou o primeiro disco e prediz um som mais afirmativo onde a repetição (Pat Thomas) e os ciclos (Parker/Evans) podem dominar. Será a estreia mundial desta formação que improvisará num ambiente eletroacústico; no JeA, por vezes são nestes concertos mais indeterminados que encontramos os momentos que nos reconciliam com o mundo.

 

Susana Santos Silva por Aloísio Brito

Sábado, 29 de julho, 18h30
Susana Santos Silva Solo
Auditório 2

A trompetista Susana Santos Silva é atualmente um dos músicos portugueses com maior reconhecimento internacional. As suas várias colaborações com músicos internacionais, alguns dos quais absolutamente incontornáveis como por exemplo Fred Frith ou Anthony Braxton, fizeram com que seja hoje uma das mais requisitadas trompetistas, sendo que tem a particularidade de estar igualmente à vontade no regime rigoroso de uma orquestra ou num processo de improvisação total. Tem também vindo a desenvolver um percurso como solista que começou com “All The Rivers” em que o seu trompete enfrentou o imenso espaço reverberatório do Panteão Nacional. Neste concerto viajaremos para o seu mais recente disco, "All the Birds and a Telephone Ringing" guiado pelo I Ching, e pela apanha de cogumelos, os elementos que John Cage usou para construir a sua teorização à volta de uma ideia de música indeterminada, feita pelo acaso e pela natureza.

 

Natural Information Society

Sábado, 29 de julho, 21h30
Natural Information Society + Evan Parker
Anfiteatro Ao Ar Livre

A ideia de que a música podia ser estática radica em Erik Satie (música como mobiliário). Vários outros compositores desenvolveram esta ideia como Henri Dutilleux, e mais recentemente John Luther Adams (Brian Eno, de algum modo, andou por estes territórios com a “música ambiental” no final dos anos 70 do século passado). Também nos processos cíclicos dos minimalistas e em particular em LaMonte Young e Terry Riley encontramos uma ideia formalmente diferente, mas que acaba por sedimentar o mesmo tipo de ideias: a circularidade e a repetição são processos comuns usados em várias músicas tradicionais como na Turquia, Índia ou Marrocos, de onde Joshua Abrams foi buscar o guimbri para substituir o seu contrabaixo. A Natural Information Society, formada pelo compositor, adotou este processo, de criação de um campo extático através da repetição, que evolui lentamente como um iceberg em direção a mares quentes. O guimbri é o elemento central do grupo fundado por Abrams em 2010 que convida diferentes solistas (Ari Brown, Evan Parker, Bitchin Bajas [Cooper Crain, Dan Quinlivan, Rob Frye]) para improvisarem sobre a base hipnótica que constroem. O concerto que irão dar no Jazz Em Agosto convida Evan Parker para tocar com o quarteto “Natural” (Joshua Abrams no guimbri, Lisa Alvarado no harmónio, Mikel Avery na bateria e Jason Stein no clarinete baixo), um reencontro que já deu resultados mágicos em 2019 e que ficou registado no magnífico “Descension”, gravado no Café Oto, em Londres.

 

Julia Reidy

Domingo, 30 de julho, 18h30
Julia Reidy
Auditório 2

Julia Reidy faz música para guitarras acústicas processadas por efeitos. As suas mais recentes gravações mostram uma lógica de compositora, em que o centro das atenções são os sons. Deixou a Austrália e fixou-se em Berlim, mas a sua música continua a ter grandes espaços abertos, um certo primitivismo da guitarra (americana), construindo narrativas dos Apalaches. Vamos ouvindo sons eletrónicos cuja origem nem sempre identificamos (mesmo sabendo que são feitos pela guitarra) gravações, e uma série de formas repetitivas que montam episódios, e história sonoras. Espera-se por isso um concerto dentro de um universo ambiental panorâmico, onde se vão desenvolver músicas a partir da guitarra, que induzem pensamentos absortos.

 

Hedvig Mollestad's "Ekhidna"

Domingo, 30 de julho, 21h30
Hedvig Mollestad’s “Ekhidna”
Anfiteatro Ao Ar Livre

Temo-nos mantido atentos ao trabalho de Hedvig Mollestad que, desde 2018, marca presença assídua nos pools anuais da nossa revista. Em 2019, montou o “Ekhidna” e expandiu o seu trio inicial sem alterar o seu jazz enxertado em rock. Este sexteto dispensa o baixo e aposta forte no ritmo, com duas baterias (Torstein Lofthus e Ole Mofjell), dois teclados (Marte Eberson e Erlend Slettevoll), guitarra e trompete (Susana Santos Silva). A ligação da guitarra elétrica com o trompete – sabemo-lo desde que a ouvimos em Billy Bragg – é perfeita, mas muito pouco explorada. Outra das características da música da Mollestad é que procura sempre ter um fio conceptual para os seus trabalhos (mais uma lógica tão própria do rock, que traz para o jazz). Em “Ekhidna” desenvolve temáticas ligadas à maternidade e à convivência equilibrada do homem com a natureza). A guitarra de Mollestad começa onde os Led Zeppelin acabaram; riffs fantásticos que cheiram a rock, mas rapidamente nos mostram uma face menos previsível, mais estimulante. “A Stone’s Throw” ou mesmo “Ekhidna” são diamantes. O trompete dobra a guitarra mas também se solta e parte em solos fabulosos. Susana Santos Silva é atualmente o nosso músico mais internacional, com uma carreira extraordinária e de quem os guitarristas parecem gostar particularmente (ex. Fred Frith). As baterias constroem um mundo rápido enquanto os teclados são diferentes coisas: de uma secção de metais a Hammonds piromaníacos. Esteve programada para 2021 mas devido aos enredos burocráticos da pandemia (que os países do norte da Europa foram pródigos), não pôde vir. Para quem já a viu ao vivo (Portalegre Jazz Fest 2019, por exemplo) sabe que será deslumbrante.

 

João Lencastre | foto: Teresa Q

Segunda-feira, 31 de julho, 21h30
João Lencastre’s “Safe In Your Own World”
Anfiteatro Ao Ar Livre

O ano passado João Lencastre veio ao Jazz em Agosto em octeto para um excelente concerto. Este ano regressa com o quarteto “Safe In your Own World”. Ao contrário do que se passou na edição anterior, o grupo não virá couraçado em pautas, mas aberto à composição em tempo real: bateria, contrabaixo, piano e guitarra. O disco deste projeto já foi ouvido pela jazz.pt. Virá acompanhado pelo pianista Leo Genovese (membro dos Communion desde o início), o contrabaixista norte-americano Drew Gress, e o guitarrista Pedro Branco, amigo de longa data e membro de muitos projetos do baterista. É interessante notar que este projeto é a primeira experiência de Lencastre em quarteto e é principalmente um processe de descoberta a quatro.

 

The Attic | foto: Nuno Martins

Terça-feira, 1 de agosto, 21h30
The Attic
Anfiteatro Ao Ar Livre

Muda o mês mas mantém-se o sentido musical exploratório e a presença dos músicos portugueses no festival da Fundação Calouste Gulbenkian. E bem, dado que o país tem conseguido apresentar propostas e músicos tão interessantes como muitos dos visitantes, ano após ano. O  trio The Attic é uma mistura entre um saxofonista de Lisboa, Rodrigo Amado, um contrabaixista português radicado na Holanda, Gonçalo Almeida, e o jovem baterista holandês Onno Govaert. O trio editou o ano passado e nós ouvimo-lo. O saxofone forte e afirmativo de Rodrigo Amado, que se desdobra em inúmeros projetos, também com reconhecimento internacional (Alexander von Schlippenbach, Joe McPhee, Kent Kessler, Chris Corsano, Jeb Bishop) como um saxofonista que se sente bem a liderar e é capaz de puxar pela música e pelo grupo, durante um concerto inteiro. Também podemos encontrar Gonçalo Almeida em variadíssimos projetos, liderados por si ou como sideman, desde os históricos holandeses/belgas Spinifex a Albatre, The Selva, Ritual Habitual ou Lama. Onno Govaert the tocado regularmente com músicos portugueses (Hugo Costa, Luís Vicente e Marcelo dos Reis, por exemplo) e é também um espírito irrequieto e hiperativo na bateria. O grupo começou em 2017 e leva já três discos. O último, editado o ano passado, mostra um grupo a reconfigurar este formato clássico do jazz (saxofone, baixo e bateria) ao dar ao baixo um papel fundamental, que cria bases sólidas, com um som subaquático, sobre as quais Amado sola com a elegância e fluidez de quem patina sozinho num ringue. A bateria não está muito preocupada em definir tempos, criando em vez disso outros universos sonoros, não necessariamente rítmicos.

 

Zoh Amba | foto: Scott Rossi

Quarta-feira, 2 de agosto, 21h30
Zoh Amba
Anfiteatro Ao Ar Livre

Zoh Amba é uma saxofonista americana (Tennessee) com um som muito particular, lento, sofrido, violento. Uma mistura entre avant-garde, noise e gospel. Estudou com David Murray o que se ouve perfeitamente na sua forma de tocar. 2022 foi o seu ano de lançamento e fê-lo com enorme sofreguidão: quatro discos: “O Life, O Light (Vol. 1)”, com William Parker e Francisco Mela; “O, Sun” (produzido John Zorn e lançado na Tzadik), com uma secção rítmica fabulosa - Joey Baron e Thomas Morgan  - e Micah Thomas (rising star, da mesma geração) no piano. “Causa Y Efecto (Vol. 1)”, em duo com o pianista Francisco Mela; e “Bhakti”, que mantém Micah Thomas no banco do piano, Tyshawn Sorey na bateria e Matt Hollenberg na guitarra. À Gulbenkian virá em trio mas num formato clássico com Luke Stewart no contrabaixo e Chris Corsano na bateria. Entre o caos e a calmaria poderemos ouvir uma (na verdade duas, com Luke Stewart, já que Corsano já é um baterista com créditos firmados) das vozes em ascensão no jazz da América e tirar as nossas conclusões.

 

“Ghosted”

Quinta-feira, 3 de agosto, 21h30
Ghosted
Anfiteatro Ao Ar Livre

Foi no final de 2018 que Oren Ambarchi, Johan Berthling e Andreas Werliin se juntaram no estúdio Rymden, em Estocolmo. A ideia era fazerem música, o que aconteceu. E à música feita chamaram Ghosted. Ghosted existe na intenção de um momento partilhado a tocar, num tempo dedicado a esse acontecimento, que gera um fluxo de pequenos detalhes. Os fantasmas são as singularidades e a flexibilidade rítmica dentro de uma estrutura mínima cujos contornos são apenas esboçados e por isso difíceis de circunscrever. O baterista Andreas Werliin e o contrabaixista Johan Berthling são a secção rítmica dos Fire! E nós sabemos bem como é que eles funcionem. São como quem escreve a palavra “paz” com ponto de exclamação. Baixo obsessivo, imóvel, primário. Bateria intensa. Só que em vez de Mats Gustafsson a foguear temos Oren Ambarchi na guitarra elétrica e eletrónicas a desvanecer. A dar melodias. A fazer a música dançar. A música dos Ghosted não dispara, não arranca. Fica sempre no mesmo local, agorafóbica, em roda de si mesma. A evoluir com imensa beleza num espaço apertado. Ghosted são variações sobre um tema: lançado pelo contrabaixo, desenvolvido pela guitarra, observado de perto pelas sequências percussivas. São repetições longas que se desenvolvem continuamente com mudanças subtis. Em Ghosted destaca-se o diálogo pormenorizado entre os músicos, bem como a sábia curadoria de uma pequena sala branca. A música do trio é como um relógio parado: está certo duas vezes por dia.

 

Myra Melford’s “fire and water” | foto: Don Dixon

Sexta-feira, 4 de agosto, 21h30
Myra Melford’s “Fire and Water”
Anfiteatro Ao Ar Livre

“Gaete St (For the Live of Fire and Water)” é uma série de desenhos de Cy Twombly feitos precisamente em Gaeta, uma vila costeira italiana. Inspiraram “For the Love of Fire and Water”  - o disco. Começa por impressionar pela qualidade do quinteto exclusivamente feminino: a pianista Myra Melford com a guitarrista Mary Halvorson, a saxofonista Ingrid Laubrock, a violoncelista Tomeka Reid e a percussionista Susie Ibarra. Um allstar game. Em diferentes contextos, já todas tocaram com a pianista mas, até à gravação do disco, nunca tinham tocado todas juntas. Quando o encontro se deu, numa noite no The Stone, em Nova Iorque (durante uma semana em que Melford assumiu a curadoria) o grupo funcionou e é esse funcionamento que iremos ouvir em Lisboa. A música parece assentar frequentemente em processos melódicos e contra-melódicos reativos que em grande medida surgem das linguagens próprias de cada uma. Laubrock é o elemento mais solitário enquanto as restantes conseguem ser solistas mas também texturais e melódicas. Nas dez faixas que fazem o disco há uma infinidade de ideias e uma execução muito original. Mais uma proposta muito recente de uma música consagrada e que continua a querer desbravar novos mundos. Aquilo que sentimos é que se abre um novo capítulo na carreira da pianista com uma forma de compor e improvisar muito própria que, de algum modo, usa as vozes originais de cada um dos músicos que a acompanham.

 

Marta Warelis

Sábado, 5 de agosto, 18h30
Marta Warelis
Auditório 2

Marta Warelis é uma pianista com uma carreira discreta mas sólida no circuito musical. Veio da Polónia para se incorporar na cena da improvisação total holandesa e editou o ano passado um disco a solo, que entrou nas nossas listas dos melhores do ano pela mão de Rui Tentúgal. A música delicada tocada no piano (preparado) evolui lentamente definindo estruturas muito simples, fáceis de compreender. Em “Grain Of Sand”, o seu disco a solo, Warelis começa por ir pelo caminho descoberto por Morton Feldman ou Giacinto Scelsi em que as notas são tão importantes como o silêncio entre elas. Depois cruza-os com Cage e o piano preparado. Como quem descola um Boeing 747 no meio de um imenso nevoeiro, a pianista entra com cuidado nas peças, à descoberta do imprevisto. O piano, a enorme máquina do virtuosismo, fica leve; Warelis dirige-o com ideias vindas dos compositores contemporâneos que usaram o silêncio, mas também da primeira geração de improvisadores europeus (Tilbury, Cardew ou Misha Mengelberg), explorando pequenos motivos para construir pontos de ligação com o ouvinte. Para que possamos perceber uma ideia. Com ela, o piano move-se lentamente, raramente indo para locais muito intensos.  Uma tardiné que poderá proporcionar momentos de beleza contemplativa.

 


Mary Halvorson’s “Amaryllis” | foto: Ernest Stuart

Sábado, 5 de agosto, 21h30
Mary Halvorson’s “Amaryllis”
Anfiteatro Ao Ar Livre

O ano passado a guitarrista Mary Halvorson lançou dois discos primos: “Amaryllis” e “Belladonna”. A crítica na jazz.pt deu conta do sentido inovador destas obras  e do sentido mais rítmico de Amaryllis enquanto Belladonna assentava sobre melodias. Ficaram em quarto lugar entre os melhores discos do ano na escolha dos críticos da jazz.pt. É por isso com redobrado entusiasmo que vamos poder ouvir ao vivo aquilo que até agora só tínhamos acesso em disco. Um sexteto com uma tonalidade brilhante-metálica onde, sobre o baixo e a bateria de Nick Dunston e Tomas Fujiwara surge um trombone, um trompete, um vibrafone e, claro, a guitarra de Halvorson (Adam O’Farrill, Jacob Garchik, Patricia Brennan e Mary Halvorson). Improvisações ondulantes dentro de tema afirmativos e retilíneos. Algures entre a música escrita contemporânea, o jazz e o rock progressivo, esta música criada em parte durante os confinamentos da pandemia, é tocada com rigor e precisão, mas está cheia de instabilidades e incertezas, para o que muito contribui a guitarra deslizante de Halvorson.

 

 


Camille Émaille | foto: Chloe Azzopardi

Domingo, 6 de agosto, 18h30
Camille Émaille
Auditório 2

Percutindo um fio ou um gongo, a percussionista Camille Émaille usa um enorme leque de possibilidades, numa lógica de equilíbrio. Entre o delicado e o grandioso desenrola uma história sonora com percussões. Veio dos Alpes franceses, na Provença, entre a Itália e a França e começou pela formação clássica em França e na Bélgica. Foi já no final do seu percurso formativo que conheceu no conservatório de Basileia Christian Dierstein e Fred Frith com quem quis aperfeiçoar a prática da improvisação. Foi depois para a América onde estudou com Roscoe Mitchell. Regressada à Europa formou o “colectivo #” para promover concertos “selvagens” em locais habitualmente fechados ao público mas com uma forte personalidade histórica e acústica. Hoje em dia integra uma série de grupos com pressupostos conceptuais diferentes e colabora com criadores de vídeo, de teatro, marionetas e dança (para além de manter uma prática na música notada com alguns ensembles de música contemporânea). Para ela, um solo de percussão não é verdadeiramente um solo. Porque os objetos emitem sons por si mesmos, tocando e fazendo tocar. É um diálogo entre um humano e um grupo de objetos que ganham vida própria ao fazerem som e é também sobre a relação orgânica com o som dos objetos, transformando o quotidiano em musical.

 

 

Gard Nilssen's Supersonic Orchestra | foto: Felix Zimmermann

Domingo, 6 de agosto, 21h30
Gard Nilssen’s Supersonic Orchestra
Anfiteatro Ao Ar Livre

O fecho fica por conta de uma orquestra. Dezasseis músicos em palco (e um sound designer a modelar), com muitas das estrelas do jazz nórdico: Per ”Texas” Johansson, Kjetil Møster, Mette Rasmussen, Ole Morten Vågan, Ingebrigt Håker Flaten e o baterista e líder, são alguns dos destaques. Apesar de serem 16 músicos, são só cinco instrumentos: conseguimos antecipar desde logo algum do som deste projeto e a razão do “Supersonic” (os nórdicos são rigorosos): isto é, uma armada Viking com três contrabaixos, três baterias, sete saxofones, dois trompetes e dois trombones. Um tutti e qualquer cidade se rende. A peça que tocam chama-se (traduzindo) »Se ouvires com atenção, a música é tua» e foi escrita especificamente para este grupo. Há secções líricas e há também espaço para grupos mais pequenos (ex. Roligheten, Eldh e Nilssen, ou seja, a Acoustic Unity). Os três bateristas -  Nilssen, Hulbækmo e Johansen - têm estilos muito diferentes o que faz com que se consigam completar muito bem e distinguir quando necessário. Muito coesa, a orquestra explora a capacidade melódica de Gard Nilssen, para entregar as melodias com toda a força deste coletivo que parece um sindicato em protesto: soam fortes, coesos e organizados. Depois abre espaços para os solistas e para as vozes muito particulares que integram o coletivo. Quando arrancam em grupo não só atingem a supersonidade, desafiando as leias da física, como conseguem ser simultaneamente muito swingantes e melódicos, apesar da instrumentação tão idêntica. Antecipamos uma noite de grande festa para poder gerar o efeito Doppler e levar-nos rapidamente até ao programa do 40.º aniversário.

 

Agenda

04 Outubro

Carlos Azevedo Quarteto

Teatro Municipal de Vila Real - Vila Real

04 Outubro

Luís Vicente, John Dikeman, William Parker e Hamid Drake

Centro Cultural de Belém - Lisboa

04 Outubro

Orquestra Angrajazz com Jeffery Davis

Centro Cultural e de Congressos - Angra do Heroísmo

04 Outubro

Renee Rosnes Quintet

Centro Cultural e de Congressos - Angra do Heroísmo

05 Outubro

Peter Gabriel Duo

Chalé João Lúcio - Olhão

05 Outubro

Desidério Lázaro Trio

SMUP - Parede

05 Outubro

Themandus

Cine-Teatro de Estarreja - Estarreja

06 Outubro

Thomas Rohrer, Sainkho Namtchylak e Andreas Trobollowitsch

Associação de Moradores da Bouça - Porto

06 Outubro

Lucifer Pool Party

SMUP - Parede

06 Outubro

Marta Rodrigues Quinteto

Casa Cheia - Lisboa

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