23.ª edição do Angrajazz - Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo, 30 de Setembro de 2022

23.ª edição do Angrajazz - Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo

Muito jazz na ilha formosa

texto: António Branco

Aproxima-se a 23.ª edição do Angrajazz - Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo, cujo palco é a magnífica ilha Terceira, nos Açores, e que se constitui como o mais reputado evento jazzístico do arquipélago. Lá vão estar Guillermo Klein y Los Guachos, Joe Dyson Quintet, Samara Joy, Belmondo Quintet, Pedro Moreira Sax Ensemble e a Orquestra Angrajazz, num cartaz que justifica uma viagem até ao meio do Atlântico.

Temos normalmente a tendência (sobretudo os continentais) de olhar de terra para o mar. Pois apontemos o olhar no sentido inverso e logo nos deslumbraremos. Talvez tenha sido exatamente isso que impressionou Luís de Camões, quando, no regresso do Oriente, e segundo alguns autores, vislumbrou uma paisagem que o terá inspirado a escrever o célebre episódio da “Ilha dos Amores”, contado nos Cantos IX e X de “Os Lusíadas” (extirpado pelo Estado Novo, não o esqueçamos):

«Três fermosos outeiros se mostravam / Erguidos com soberba graciosa / Que de gramíneo esmalte se adornavam / Na fermosa Ilha, alegre e deleitosa.»

A ilha, cuja posição geoestratégica faz inveja (outra palavra cara ao poeta), tornou-se, a partir do século XV, uma espécie de “estação de serviço” no meio do Atlântico para os navios provenientes do Oriente e das Américas, que aproveitavam os ventos favoráveis e as corrente do Golfo do México para os embalarem na etapa final da viagem até à Península Ibérica.

É neste cenário que desde 1999 se acha o Angrajazz - Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo, organizado pela Associação Cultural Angrajazz, um dos mais respeitados e sólidos festivais de jazz nacionais. A 23.ª edição acontece entre 6 e 8 de outubro no Centro Cultural e de Congressos daquela cidade (cujo centro histórico é Património Mundial da Humanidade), no local onde antigamente existiu uma praça de touros, entretanto reabilitada como centro cultural.

O programa que se anuncia – como sempre com concertos duplos, (o primeiro começa às 21h30 e o segundo às 23h30) – é diversificado e com os pés bem fincados na tradição do género, contando com a presença de nomes importantes dos panoramas nacional e internacional, como Pedro Moreira, Guillermo Klein, o quinteto do baterista Joe Dyson, a cantora Samara Joy, o quinteto liderado pelos irmãos Belmondo e a orquestra residente.

Detalhemos.

A abrir o festival (dia 6, 21h30), o habitual concerto da Orquestra Angrajazz, big band criada em 2002 que se assume como o projeto de formação da Associação Cultural Angrajazz, com direção musical de Pedro Moreira e Claus Nymark. A formação tem vindo a trabalhar regularmente e a assumir-se como a principal entidade formadora de músicos de jazz nos Açores. Ao longo da sua existência, a Orquestra já teve ensejo de trabalhar e de se apresentar ao vivo com nomes centrais do jazz nacional, como Zé Eduardo, Mário Laginha, Mário Barreiros, Carlos Azevedo, Paula Oliveira, Hugo Alves, Afonso Pais, Luís Cunha, Paulo Gaspar e Ricardo Toscano, entre outros. Para além de inúmeros concertos na ilha de origem, a big band já tocou noutras ilhas açorianas, como São Jorge, Graciosa, Faial e São Miguel, mas também do Funchal e em Lisboa. A formação já editou dois discos – “Orquestra Angrajazz com Paula Oliveira” (2006) e “Angrajazz” (2018). Em 2016, interpretou na íntegra, pela primeira vez em Portugal, “The Far East Suite”, de Duke Ellington, tendo como convidados o clarinetista Paulo Gaspar e o saxofonista Ricardo Toscano. Este ano, a Orquestra apresentará um programa dedicado ao hard-bop, evolução do bebop (acomodando elementos de blues, gospel e rhythm’n’blues) que teve o seu apogeu entre meados das décadas de 50 e 60 do século XX. Escutar-se-ão arranjos de peças de Charles Mingus, Benny Golson, Sonny Rollins e Lee Morgan.

No segundo concerto da noite (23h30) apresenta-se o quinteto liderado pelo baterista Joe Dyson, músico na vanguarda do “Drum Legacy” de Nova Orleães. Ao longo do seu percurso já tocou com músicos tão díspares como Donald Harrison, Pat Metheny, Nicholas Payton, Dr. Lonnie Smith, Ellis Marsalis, Jon Batiste, Leo Nocentelli, Sullivan Fortner e a Dirty Dozen Brass Band, entre muitos outros. Arquitetou uma nova abordagem à bateria com o seu kit pan-africano, vertida no álbum “Stretch Music” de Christian Scott aTunde Adjuah. Embora o seu nome conste da ficha técnica de mais de três dezenas de álbuns, só em 2021 lançou o seu registo de estreia, o notável “Look Within”, em edição de autor. Nascido em Nova Orleães no seio de uma família religiosa e musical, o pequeno Joe começou a desenvolver o seu talento muito precocemente. Na igreja experimentou uma aprendizagem intuitiva, bebendo na vasta cultura da cidade. Depois de percebido o seu potencial de evolução foi encaminhado para o Louis “Satchmo” Armstrong Summer Jazz Camp, tendo sido seguido pelo clarinetista Alvin Batiste e pelo seu principal mentor, o saxofonista Donald Harrison. Formou-se no New Orleans Center for Creative Arts (NOCCA) e ganhou uma bolsa de estudos para frequentar o prestigiado Berklee College of Music. A música do quinteto de Joe Dyson é de uma espiritualidade consequente, profunda e melódica. O baterista chama o seu processo criativo de “retro future”: «Quando chegamos a este espaço musical, podemos ouvir como alguns dos antigos e familiares sons do passado são explorados e trazem uma nova luz em tempo real.» Acompanharão Dyson o trompetista Stephen Lands, o saxofonista tenor Stephen Gladney, o pianista Oscar Rossignoli e o contrabaixista Barry Stephenson.

O segundo dia do evento (dia 7, 21h30) inicia-se com o Pedro Moreira Sax Ensemble, formação que nos deu um dos mais excelsos álbuns nacionais de 2021, “Two Maybe More” (recenseado na jazz-pt aqui). A música funda-se num processo de reequacionamento e expansão da música original que o saxofonista e compositor escreveu para o espetáculo de dança de Sofia Dias, Vítor Roriz e Marco Martins (uma encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian) que subiu ao palco do Teatro Maria Matos em 2014, contando então com a interpretação do Coro Gulbenkian e de um pequeno ensemble de câmara. Para por em prática esta visão, Moreira reuniu uma formação de arquitetura inusitada – o Sax Ensemble –, que inclui oito saxofonistas (nesta aparição em Angra, e para além do próprio, Mateja Dolsak no tenor, Daniel Sousa e Ricardo Toscano no alto, Francisco Andrade (em substituição do anunciado Júnior Maceió) e João Capinha no barítono, Bernardo Tinoco e Tomás Marques no soprano), e uma secção rítmica constituída por Mário Franco (contrabaixo) e Luís Candeias (bateria). Prosseguindo uma abordagem “ellingtoniana” (seguida por outros músicos que admira, como Charles Mingus e Wayne Shorter, ou, mais recentemente, John Hollenbeck e Nils Wogram), Moreira desafia delimitações estéticas, tergiversando do jazz à música erudita contemporânea, e vincando, sobretudo, o seu lado de compositor e a ligação longeva com as práticas da improvisação, mais ou menos livre de condicionalismos. Explorando de forma exemplar as dicotomias composição versus improvisação, individual versus coletivo, narrativo versus abstrato, a música equilibra o rigor da escrita com a espontaneidade e a urgência da improvisação, forjando, nas palavras do compositor em entrevista à jazz.pt, «uma vista caleidoscópica de várias possibilidades e combinações do ponto de vista da forma e da expressão musical.»

Ao longo dos anos, o Angrajazz tem dado natural protagonismo a cantoras (Sheila Jordan, Dena DeRose, Karrin Allyson, Cécile McLorin Salvant, Jane Monheit, René Marie, entre várias outras). Desta feita (dia 7, 23h30) será a vez de Samara Joy, cantora de voz aveludada e que com apenas 21 anos de idade venceu em 2019 o Concurso Internacional de Jazz Vocal Sarah Vaughan e em 2021 editou o seu disco de estreia, homónimo. Joy ainda reside no mesmo local onde veio ao mundo, em Castle Hill, no bairro do Bronx, Nova Iorque. Os avós paternos, líderes do coro gospel The Savettes, de Filadélfia, inspiraram-na desde muito cedo e o seu pai tocou com o cantor gospel Andrae Crouch. «Embora eu não tenha crescido a cantar na igreja, ouvia constantemente a minha família a cantar em conjunto uma música inspiradora, o que incutiu em mim uma grande estima pela minha cultura musical. Durante o ensino secundário, entrei para o coro da minha igreja, cantando em três serviços religiosos por semana durante quase dois anos», disse a cantora em entrevista. O jazz chegou no tempo em que frequentou a Fordham High School for the Arts, cantando regularmente com a banda de jazz da instituição, acabando por arrecadar o prémio para melhor vocalista no concurso “Essentially Ellington”, promovido pelo Jazz at Lincoln Center. O salto definitivo deu-se ao escutar a versão de Sarah Vaughan de “Lover Man” e as gravações de Tadd Dameron com o trompetista Fats Navarro, que a levam a estudar no programa de jazz do Purchase College, da universidade estadual de Nova Iorque, com o guitarrista Pasquale Grasso e o baterista Kenny Washington – que, aliás, pontificam no seu disco, editado no versão do ano passado pela Whirlwind. Nele, a cantora exibe o seu à-vontade nos standards e do American Songbook. Acaba de lançar o seu segundo disco, “Linger Awhile” com selo da Verve/Universal. Virá a Angra acompanhada pelo pianista Vincent Bourgeyx (substituindo Ben Paterson), o contrabaixista Mathias Alamane e o baterista Malte Arndal.

O último dia do evento terceirense (dia 8, 21h30) começa com o quinteto liderado pelos irmãos Belmondo –, o saxofonista Lionel e o trompetista Stéphane – que celebram o seu reencontro artístico. A formação que virá aos Açores completa-se com Laurent Fickelson ao piano (que substitui Eric Legnini, em funções no disco), Sylvain Romano no contrabaixo e Marc Miralta (em substituição de Tony Rabeson) na bateria. Resumindo um quarto de século de aventuras musicais – que os levaram a entabular colaborações com músicos como Yusef Lateef e Milton Nascimento – os irmãos Belmondo, originários da região de Var, no sul do país, junto ao Mediterrâneo, são figuras centrais do jazz gaulês mais entroncado na tradição do género. Stéphane, discípulo de Chet Baker e Freddie Hubbard, é conhecido pelo vincado lirismo da sua abordagem ao instrumento; Lionel tem erguido uma forma de tocar que agrega diferentes elementos, combinando uma veia coltraneana com a tradição musical francesa, a espontaneidade vibrante do jazz com certo classicismo pós-impressionista. Desdobrando a sua atividade por diversos projetos, têm encontrado apoio nos membros do seu quinteto, independentemente do rumo estilístico que os mesmos sigam. O Belmondo Quintet foi fundado no final dos anos 1980; quer no palco quer em estúdio, o grupo marcou o jazz francês, pugnando por um jazz acústico, intenso e de cariz espiritual, bebendo nos conceitos desenvolvidos por Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans e Wayne Shorter. Uma década volvida desde o anterior registo em conjunto, “Brotherhood”, editado em 2021, é apenas o quinto álbum que o quinteto gravou na sua carreira; com ele na bagagem, venceram o Prémio Les Victoires du Jazz para o grupo do ano e o prémio para o melhor disco gravado por um músico francês, atribuído pela Académie du Jazz de France.

Guardado para o final (dia 8, 23h30) está um dos momentos mais aguardados do festival: o concerto de Guillermo Klein y Los Guachos, formação all-stars em que ao pianista, compositor e arranjador argentino se juntam nomes grados do jazz do nosso tempo, como Miguel Zenón (saxofone alto), Bill McHenry (saxofone tenor), Chris Cheek (saxofone barítono), Diego Urcola (trompete), Wolfgang Muthspiel (guitarra) ou Jeff Ballard (bateria). A música faz parte da vida de Guillermo Klein desde a infância. O pai deu-lhe um piano quando ele completou 11 anos e, inspirado em Astor Piazzolla, desde logo começou a tentar compor. Já no Berklee College of Music, em Boston,  escutou um discurso do ex-reitor Gary Burton sobre a sua relação de trabalho com Piazzolla; se pensava enveredar pela música clássica, rapidamente viu-se rodeado por gente apaixonada por jazz. Atraído pelas conceções harmónicas de Wayne Shorter, criou uma rede de colegas e amigos – muitos deles idos da América do Sul para Berklee – que fundou a estrutura do que viria a ser a Big Van, formação que posteriormente evoluiria para Los Guachos (de efetivo ligeiramente mais reduzido). Após terminar os estudos em Berklee, mudou-se para Nova Iorque, instalando-se em Greenwich Village e associando-se ao clube Smalls, com o qual fez um contrato para atuações semanais da Big Van. Mais tarde, após reduzir a banda, esta continuou a desenvolver-se com o apoio de residências no Smalls e, mais tarde, no Jazz Standard. O pecúlio discográfico de Los Guachos começou a construir-se quando lançou “Los Guachos II” (1999) e três anos depois “Los Guachos III”. Klein regressou à Argentina em 2000 e aí gravou, acompanhado por músicos argentinos, “Una Nave” (2005); seguiram-se “Live in Barcelona” (2005), “Filtros” (2008), “Carrera” (2012), “Los Guachos V” (2016) ou o mais recente “Cristal” (2019), todos na Sunnyside. Destacam-se ainda outras gravações relevantes como “Solar Return Suite” (com o MIT Wind Ensemble), ”Domador de Huellas” (2010) – com música de “Cuchi” Leguizamón – “Bienestan” (2011), com Aaron Goldberg, e o disco de Miguel Zenón dedicado ao cancioneiro porto-riquenho, ”Alma Adentro” (2021). A residir atualmente entre Espanha e Argentina, tem tido relações próximas com Portugal, designadamente com a Associação Porta-Jazz, a Orquestra Jazz de Matosinhos e a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal.

Entre hoje (30 de setembro) e o dia 8 de outubro (sábado) acontece ainda a iniciativa Jazz na Rua, em vários locais da cidade, com uma programação diversificada que inclui concertos, jam sessions, ações de divulgação para alunos das escolas e ação de formação para músicos das filarmónicas. Aqui fica o programa:

30 de setembro (18h), Verde Maçã-Café: TB Jazz Ensemble

1 de outubro (18h), Hotel Caracol-Bar: TB Jazz Ensemble

2 de outubro (18h), Café Aliança (Praça Velha): Joana Pacheco Group

3 de outubro (18h), Quinta dos Açores - Loja do Gelado (Marina): Joana Pacheco Group

4 de outubro (18h), Casa do Sal: Toscano/Andrade Quarteto (jam session)

5 de outubro (18h), Loja Expert Rua Direita: Toscano/Andrade Quarteto

6 de outubro (11h-12h), Biblioteca Pública Luís da Silva Ribeiro: Toscano/Andrade Quarteto (ação de divulgação para alunos)

6 de outubro (18h), Biblioteca Pública Luís da Silva Ribeiro: Toscano/Andrade Quarteto

7 de outubro (11h-12h), Escola EBS e Ensino Artístico Tomás Borba: Toscano/Andrade Quarteto (ação de divulgação para alunos)

7 de outubro (18h), Pastelaria Central: Coelho/Fernandez/Cunha Trio

8 de outubro (14h30-17h30), Teatro Angrense: Toscano/Andrade Quarteto (ação de formação para músicos das filarmónicas)

8 de outubro (18h), Verde Maçã Café: Coelho/Fernandez/Cunha Trio

Mais informações e bilheteira online em angrajazz.com.

Agenda

26 Novembro

Tiago Sousa

Cossoul - Lisboa

26 Novembro

Lynn Cassiers, Manolo Cabras e João Lobo “Dancing With Don”

Porta-Jazz - Porto

26 Novembro

Clara Lai, Amidea Clotet, João Almeida e João Valinho

Penha sco - Lisboa

26 Novembro

Orquestra de Jazz de Espinho com João Barradas

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

26 Novembro

José Lencastre, Ziv Taubenfeld e Felice Furioso

SMUP - Parede

26 Novembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

26 Novembro

Mariana Dionísio, Clara Lacerda e Romeu Tristão

Adega do Museu Rural e do Vinho - Cartaxo

26 Novembro

Practically Married

Hot Clube de Portugal - Lisboa

27 Novembro

Jorge Moniz “Cinematheque”

Cine-Teatro Louletano - Loulé

27 Novembro

Lynn Cassiers / Manolo Cabras / João Lobo “Dancing With Don”

MAAT - Lisboa

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