Funchal Jazz, 30 de Junho de 2022

Funchal Jazz

O jazz de hoje no Funchal

texto: António Branco

Entre 4 e 10 de julho está de regresso o Funchal Jazz e, como é norma, com um cartaz que inclui nomes de proa do jazz nacional e internacional. A cantora Cécile McLorin Salvant, o quarteto do saxofonista Immanuel Wilkins, o vibrafonista Joel Ross, com o seu grupo Good Vibes, e a Orquestra de Jazz do Funchal com o convidado Mário Laginha são os destaques da edição deste ano do festival madeirense.

É já na próxima segunda-feira, 4 de julho, que arranca mais uma edição do Funchal Jazz e com um programa de alto nível. A cantora Cécile McLorin Salvant, o quarteto do saxofonista Immanuel Wilkins – que apresentará o soberbo “The 7th Hand”, o vibrafonista Joel Ross, com o seu grupo Good Vibes, e a Orquestra de Jazz do Funchal acompanhada pelo pianista e compositor Mário Laginha são os nomes de proa.

A decorrer até 10 de julho, o festival é promovido pela autarquia do Funchal e tem a direção artística competente e rigorosa de Paulo Barbosa, antigo colaborador da jazz.pt. Os concertos repartem-se  por dois palcos: o do Jardim Municipal (de 4 a 7) – com atenção particular ao trabalho de músicos da região, nela residentes ou não – e o do deslumbrante Parque de Santa Catarina (dias 8 e 9), onde têm lugar os concertos principais.

Esmiucemos.

Os concertos no Parque de Santa Catarina começam na sexta-feira, dia 8 de julho, às 20h, com a Orquestra de Jazz do Funchal (OJF), a que se junta como convidado muito especial o pianista e compositor Mário Laginha (de recordar a longa entrevista que concedeu à jazz.pt aqui). Fundada, em 2019, e dirigida pelos irmãos Francisco e Alexandre Andrade – respetivamente saxofonista e trompetista – a big band funchalense desenvolve um projeto único na cena jazzística da Madeira, trabalhando clássicos do formato, com músicos de jazz, amadores e músicos clássicos locais. Laginha alia uma fortíssima personalidade musical a um permanente espírito de partilha com outros criadores. No jazz ou na música erudita, é um dos pianistas portugueses mais versáteis, com um longo e diversificado percurso que fala por si, para o qual confluem várias influências, do jazz às sonoridades brasileiras, passando pelos sons de África, da Índia, pela pop e o rock, sem esquecer as bases clássicas. Já este ano editou “Jangada” com o seu trio, com Bernardo Moreira e Alexandre Frazão. É com especial curiosidade que aguardamos conhecer o repertório que apresentará com a OJF.

A noite prossegue com a notável cantora, compositora e artista visual norte-americana Cécile McLorin Salvant. Nascida e criada em Miami, Florida, filha de mãe francesa e pai haitiano, começou a estudar piano clássico aos cinco anos de idade e a cantar num coro aos oito. A célebre Jessye Norman descreveu Salvant como “uma voz única sustentada por uma inteligência e musicalidade plenas, que ilumina cada nota que canta”. Influenciada por Sarah Vaughan, Billie Holiday, Bessie Smith e Betty Carter, tem vindo a desenvolver uma abordagem única que combina ecos de vaudeville, blues, das tradições folk de várias latitudes, teatro, jazz e música barroca. Merecedor de menção especial é o seu trabalho de curadoria, reabilitando repertório virtualmente esquecido, canções com narrativas fortes, dinâmicas poderosas, cambiantes inesperadas e, não raras vezes, uma boa dose de humor. Após ter sido galardoada com o prémio Thelonious Monk, em 2010, recebeu prémios para melhor álbum de jazz vocal para três registos seus consecutivos, “For One To Love” (2015), “Dreams and Daggers” (2017)  e “The Window” (2018), e nomeada em 2014 pelo álbum “WomanChild” – todos editados pela Mack Avenue. Na obra “Ogresse”, fábula musical na forma de cantata que cruza géneros (folk, barroco, jazz, country), escreveu a história, as letras e a música, contando com os arranjos de Darcy James Argue para uma orquestra de treze multi-instrumentistas. Em 2020, Salvant recebeu a Bolsa MacArthur e o prémio Doris Duke. Em março deste ano lançou “Ghost Song”, que certamente trará na bagagem nesta sua aparição no Funchal, na qual será acompanhada por Sullivan Fortner (piano), Marvin Sewell (guitarra), Paul Sikivie (contrabaixo) e Keita Ogawa (percussão).

O dia 9 de julho começa no Parque de Santa Catarina, às 20h, com a apresentação do quarteto do saxofonista e compositor norte-americano Immanuel Wilkins, acompanhado pelo pianista Micah Thomas, o contrabaixista Rick Rosato e o baterista Kweku Sumbry. A música de Wilkins enche-se de inventividade e convicção, o que é plenamente atestado pelos seus dois registos em nome próprio, ambos definidores do “novo som” da Blue Note, “Omega”, considerado o melhor disco de jazz de 2020 para o The New York Times, e o soberbo “The 7th Hand”, recenseado na jazz.pt por João Morado aqui. Suíte de uma hora de duração, dividida em sete andamentos (que também funcionam como canções, diz Wilkins), “The 7th Hand” explora as relações entre presença e ausência; “Quis escrever uma peça preparatória para o meu quarteto se tornar vasos no final da peça, totalmente”, explicou a propósito o músico, de quem a Pitchfork diz compor épicos profundos de jazz. Immanuel Wilkins cresceu em Upper Darby, nos arredores de Filadélfia, Pensilvânia. Terminados os estudos secundários, muda-se para Nova Iorque em 2015 para estudar na prestigiada Juilliard School. Conta então com o apoio do trompetista e compositor Ambrose Akinmusire para se adentrar na cena local. Por essa altura conhece também outra figura decisiva para o seu progresso, o pianista e compositor Jason Moran, que o leva consigo em digressão (“In My Mind: Monk at Town Hall, 1959,” um conjunto de apresentações ao vivo de tributo a Thelonious Monk). Desde então Wilkins tem trabalhado com um leque diversificado de artistas como Wynton Marsalis, Gretchen Parlato, Gerald Clayton, Aaron Parks e... Joel Ross.

Sim, o vibrafonista Joel Ross, filho de pais polícias, criado no South Side de Chicago e baseado em Brooklyn, Nova Iorque, que se apresenta logo após com o seu grupo Good Vibes, a encerrar esta edição do Funchal Jazz. Inicialmente um protegido de Stefon Harris, rapidamente mostrou excecionais predicados técnicos e conceptuais. Já depois do já mencionado álbum inaugural, de 2019, Ross continuou a explorar com sucesso uma veia artística peculiar no sucessor “Who Are You?”, de 2020, com o qual trepou nas listas da revista DownBeat e da Associação dos Jornalistas de Jazz em 2020 e 2021.Tornou-se recentemente um dos artistas mais jovens a ganhar uma cobiçada encomenda de residência no The Jazz Gallery e um lugar na The Jazz Gallery All Stars, com a qual se apresentou ao vivo no Kennedy Center. Em 2020, recebeu uma encomenda da Jazz Coalition para “Praise in the Midst of The Storm”, uma suíte com Brandee Younger, Marquis Hill, Craig Weinrib, Dezron Douglas e o amigo e colaborador de longa data Immanuel Wilkins, com quem também se apresentou em dueto em três noites no Village Vanguard. O seu álbum mais recente, “The Parable Of The Poet”, em octeto, ressoa alto, tanto em termos musicais como sociais. Os Good Vibes completam-se com o saxofonista alto Godwin Louis – uma ótima surpresa para os ouvidos do autor destas linhas – a contrabaixista Kanoa Mendenhall e o baterista Jeremy Dutton. Joel Ross tocará vibrafone e piano. Promete.

Mas o programa do Funchal Jazz 2022 começa já no próximo dia 4, segunda-feira, num autocarro de turismo Yellow Bus, onde atuarão em movimento o sexteto Funchal Jass Rhythm Kings (início às 16h). Nesse dia, às 18h, começa a programação no Jardim Municipal com o quinteto de Jorge Borges, nome histórico do jazz na Madeira – membro fundador do grupo Oficina (1979-2003), G-BAP ou Dixie 8 Fun, presente nos primeiros tempos do Madeira Jazz Collective; pianista, promotor e pedagogo, figura essencial do Conservatório - Escola Profissional das Artes da Madeira - Eng. Luiz Peter Clode (CEPAM) – que irá na ocasião apresentar disco novo. Acompanham-no Alexandre Andrade  no trompete, Francisco Andrade nos saxofones tenor e soprano, Ricardo Dias  no contrabaixo e Jorge Maggiore na bateria. Segue-se a aguardada apresentação do projeto Almmond 3, trio do notável guitarrista madeirense Bruno Santos, músico com um vasto e riquíssimo percurso, em diferentes contextos, aqui acompanhado por Hugo Lobo no órgão Hammond B3 e Nemanja Delic na bateria, apostando numa configuração instrumental que frutificou ao longo da história do jazz.

Na terça-feira, 5 de julho, às 18h, a jornada inicia-se com o quarteto do guitarrista Décio Abreu, que se completa com o saxofonista Francisco Andrade, o contrabaixista Luís Filipe Gouveia e o baterista Caio Oliveira. Logo após, sobe ao palco instalado no Jardim Municipal o projeto da cantora madeirense Vânia Fernandes, “Vânia Sings Ella”, dedicado a revisitar o repertório de Ella Fitzgerald, uma das vozes mais relevantes da história do jazz. Consigo estarão Adler Pereira (piano), Vítor Anjo (guitarra), Ricardo Dias (contrabaixo) e Diogo Andrade (percussão).

A 6 de julho, o programa no Jardim Municipal começa como sempre às 18h, desta feita com o quarteto da também madeirense Sofia Almeida, jovem cantora que concluiu o Curso Profissional de Instrumentista de Jazz do CEPAM e que, não por mero acaso, foi admitida em três conceituadas instituições do ensino do jazz em todo o mundo: o Berklee College of Music, em Boston, a Universidade de Nova Iorque e o conservatório de Amesterdão. Com ela estarão em palco o pianista João Freches, o contrabaixista Luís Filipe Gouveia e o baterista Luís Caldeira. Depois, será a vez quinteto liderado pelo contrabaixista Ricardo Dias, de cuja formação avulta a presença do jovem mas já reputado Tomás Marques no saxofone alto, para além de Rafael Andrade (trompete), Mateus Saldanha (guitarra) e Francisco Gomes (bateria).

Na sexta-feira, 7 de julho, iniciam-se às 16h, no Jardim Municipal, as Provas de Aptidão Profissional (PAP) do Curso Profissional de Instrumentista de Jazz do CEPAM. Prestarão provas públicas os músicos Tomás Noronha, Matilde Agrela, Juliana Pacheco, Roberto Chulata, Carolina Ferreira e Daniel Correia. Quem sabe se voltaremos a falar deles num futuro não muito distante?

Noite dentro, terão lugar no Qasbah (Promenade do Lido) as sempre aguardadas e muito concorridas jam sessions. Estarão a cargo de uma formação constituída por músicos superlativos e que guindam as expetativas: o guitarrista Nuno Ferreira, o saxofonista João Mortágua, o contrabaixista Francisco Brito e o baterista Luís Candeias. Tudo se pode esperar com músicos deste quilate.

Do programa do Funchal Jazz 2022 fazem ainda parte três momentos de aprendizagem e troca de experiências, a realizar no Salão Nobre do Conservatório (Av. Luís de Camões, 1). No dia 8, Jorge Borges proferirá uma palestra intitulada “20 Anos de Curso de Jazz no CEPAM”; no dia seguinte o saxofonista, compositor e maestro Pedro Moreira dinamizará uma masterclasse dedicada a temática “O Ritmo na Improvisação”; Joel Ross e o seu quarteto animarão um workshop no domingo, dia 10. Todas estas iniciativastêm início agendado para as 14h30.

Durante os dias do festival (4 a 10 de julho) estará patente no Teatro Municipal Baltazar Dias a exposição “O Jazz na BD”, com curadoria de Leonel Santos.

A entrada nos concertos do Parque de Santa Catarina custa 10 euros por dia, sendo livre no Jardim Municipal. O acesso aos workshops é gratuito mediante inscrição obrigatória (até 3 de julho), através do preenchimento deste formulário.

Programação completa e informações adicionais sobre o Funchal Jazz 2022 em funchaljazz.com.

Agenda

16 Agosto

Marta Rodrigues Quinteto

Centro Cultural de Lagos - Lagos

16 Agosto

Ricardo Toscano e Bruno Santos

Tasca Bela - Lisboa

16 Agosto

Jam Session c/ João Pedro Coelho

Hot Clube de Portugal - Lisboa

17 Agosto

Long ago and far away

Hot Clube de Portugal - Lisboa

18 Agosto

Paulo Santo Quarteto

Hot Clube de Portugal - Lisboa

19 Agosto

Lacerda / Dionísio / Tristão Trio

Praça Central WOW - Vila Nova de Gaia

19 Agosto

Paulo Santo Quarteto

Hot Clube de Portugal - Lisboa

19 Agosto

Vasco Pimentel Trio

Escadas do Quebra-Costas - Coimbra

20 Agosto

Ladrões de Limões

Praça Central WOW - Vila Nova de Gaia

20 Agosto

Filipe Raposo e Orquestra Clássica do Sul

Cine-Teatro Louletano - Loulé

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