Festival Até Jazz, 22 de Fevereiro de 2022

Festival Até Jazz

Até Jazz na Aula Magna

texto: António Branco

A Aula Magna será palco para um novo festival de jazz em Lisboa, o Até Jazz, que se realiza entre os dias 6 e 8 de maio, com um cartaz em doses duplas que mescla propostas nacionais e internacionais. Lá estarão o trio de Diogo Vida, o quinteto de Isabel Rato, o projeto LAB, de Ricardo Pinheiro e Miguel Amado, quartetos liderados por Mike Stern e Bill Evans e por Dave Weckl e Tom Kennedy e a banda do histórico Billy Cobham (na foto).

Projetada pelo arquiteto Pardal Monteiro na década de 1940, a atual configuração e lotação da Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, inaugurada no final de 1961, deve-se a António Pardal Monteiro. Com características únicas, foi apresentada pela propaganda do regime de então como a maior sala do país. Com uma disposição em anfiteatro, a sala foi desenhada para que os espetadores pudessem assistir de frente ao desfile do cortejo académico, que, descendo do Salão Nobre pela escadaria, faz entrada pela porta dourada. A arquitetura de interiores, em que se inclui mobiliário e a conceção do teto em gesso, considerando aspetos de acústica e iluminação, esteve a cargo de Daciano da Costa – foi esta, aliás, a primeira obra do seu ateliê em nome próprio. (Recordo-me bem de ter ficado deslumbrado na primeira vez que lá entrei, no início da década de 1990, para assistir a um recital do já debilitado Carlos Paredes.)

Cumprindo as suas funções primordiais, adaptada e conservada, para além de outras, será palco da primeira edição do festival Até Jazz, que decorre de 6 a 8 de maio. Esmiucemos o programa anunciado.

O festival arranca a 6 de maio (sexta-feira), às 20h30 horas, com o trio liderado pelo pianista Diogo Vida e que se completa com o baixista Yuri Daniel e o baterista Vicky Marques. O trio regressará ao terceiro disco do pianista na condição de líder (segundo no formato de trio), “El Duende”, editado em 2018, enraizado no jazz contemporâneo, mas com referências a outros quadrantes estéticos, do flamenco (onde o “duende” representa a magia que reside em tudo o que tem a capacidade de nos emocionar), ao rock, passando pelo piano clássico e pelas eletrónicas. À maneira ellingtoniana, Vida preparou este repertório tendo em mente as personalidades dos músicos com os quais partilha o palco, num sempre delicado equilíbrio entre zonas de conforto e saltos em frente para todos e cada um. Músico de sólidos recursos e que não vira costas a desafios, mostra-se particularmente à vontade nos tempos médios, assentes em melodias amplas, onde explana o seu pianismo fluente e elegante. Yuri Daniel é um experiente baixista com longo percurso ao lado de nomes cimeiros do jazz nacional e internacional, integrando há alguns anos o Jan Garbarek Group (ter sido escolhido para o lugar outrora ocupado pelo grande Eberhard Weber é sintomático). O baterista Vicky Marques é um músico sólido e versátil que espraia a sua atividade por diversos contextos (não esquecer que é ele o dínamo do L.U.M.E - Lisbon Underground Music Ensemble).

No segundo concerto da noite, um quarteto liderado pelo guitarrista Mike Stern e pelo saxofonista Bill Evans. Stern é um veterano da guitarra rock que namora o jazz (ou da guitarra jazz que namora o rock?). Há quatro décadas que toca com diversos nomes grados do jazz, tendo já sido galardoado por diversas vezes pela indústria musical. Com apenas 23 anos juntou-se aos Blood, Sweat & Tears, trabalhou com Billy Cobham e em 1981 tornou-se guitarrista de Miles Davis, uma colaboração que durou vários anos. A lista de nomes com quem tocou é extensa e inclui figuras como Chick Corea, Jaco Pastorius, Michael Brecker e os Steps Ahead. A solo, lançou 18 álbuns desde 1985, sendo o mais recente “Eleven”, de 2019, sequela do anterior “Trip”, de 2017, gravado depois de um acidente em que ficou gravemente ferido. Bill Evans é um saxofonista e produtor que saltou para a ribalta internacional aos 21 anos, na década de 1980, também com Miles Davis, com quem gravou meia dúzia de álbuns. O prestígio que granjeou levou-o a encetar colaborações com gente tão díspar como John McLaughlin, Herbie Hancock e Mick Jagger. O seu pecúlio discográfico em nome próprio ronda os 30 títulos e as suas estantes estão também cheias de prémios. Tem explorado uma variedade de cenários musicais além do jazz, aventurando-se nos terrenos do hip-hop, reggae e world music. Um dos seus títulos mais interessantes é “Soulgrass”, no qual fundiu o jazz com as raízes da música americana. Stern e Evans far-se-ão acompanhar por uma sólida dupla rítmica constituída pelo baixista Gary Grainger e pelo baterista Dennis Chambers. Os ingredientes serão sobretudo jazz e rock, faltando saber as proporções da mistura.

O segundo dia do festival, 7 de maio (sábado), inicia-se às 20h30 com o quinteto liderado pela compositora, arranjadora, pianista e produtora lisboeta Isabel Rato, uma das raras mulheres não cantoras (embora também o seja) a liderar uma formação de jazz em Portugal, o que, desde logo, é motivo para um sublinhado a traço grosso. A seu lado estarão músicos com créditos já firmados no jazz nacional: o cantor João David Almeida, o saxofonista João Capinha, o contrabaixista João Custódio e o baterista Alexandre Alves. Licenciada em Piano Jazz pela Escola Superior de Música de Lisboa (é discípula de João Paulo Esteves da Silva e isso nota-se nas suas construções musicais), tornou-se um dos nomes femininos mais destacados da nova geração de compositores portugueses no domínio do jazz. O rol de colaborações é vasto, avultando as com João Barradas, Desidério Lázaro, João Hasselberg, Beatriz Nunes, Joel Silva, Jorge Moniz, João Lencastre, Pedro Madaleno, Nanã Sousa Dias, José Menezes, Bruno Pedroso, Luís Candeias, André Rosinha, entre outros. Do seu percurso destaca-se ainda o duo “Veia”, em parceria com a cantora Elisa Rodrigues, estreado em 2018. Isabel Rato lançou em 2016 o seu álbum de estreia em nome próprio, “Para Além da Curva da Estrada” (na saudosa Sintoma), a que se seguiu, três anos mais tarde, “Histórias do Céu e da Terra” (Nischo). No prelo está um aguardado terceiro disco, com lançamento previsto para a primavera deste ano. Esta será provavelmente uma ocasião privilegiada para escutarmos material novo, o que justifica atenção redobrada à prestação do quinteto.

Logo a seguir será a vez de um projeto em que serão baixista (Tom Kennedy) e baterista (Dave Weckl) a liderar, uma inversão da tipologia da liderança em relação ao quarteto de Mike Stern e Bill Evans. Ao longo de quase 40 anos, Dave Weckl construiu uma importante reputação como baterista, compositor e produtor. Começou a tocar com oito anos de idade, tendo entrado na cena de fusão após estudar na Universidade de Bridgeport. Em Nova Iorque granjeou reputação e começou a trabalhar com diversos artistas de renome durante mais de 30 anos, como George Benson, Diana Ross, Robert Plant ou Paul Simon. Mas será a sua indelével contribuição para os projetos Akoustic Band e Elektric Band de Chick Corea que mais marcou uma carreira rica. Weckl é igualmente uma referência na área da formação, através da sua escola virtual, livros e vídeos instrutivos, sendo seguido por jovens músicos ou experientes bateristas à escala global. Tom Kennedy começou pelo contrabaixo, mas trocou-o pelo baixo elétrico, seduzido com as possibilidades deste instrumento, criando um estilo próprio cheio de groove. Entre outros, tocou com o trompetista Freddie Hubbard, o guitarrista Al Di Meola e com a pianista brasileira Tania Maria, tendo ainda feito parte dos jazz-roqueiros Steps Ahead. Completam o quarteto o saxofonista Bob Franceschini, conhecido sobretudo pelo seu trabalho como músico de estúdio e por integrar o projeto Trypnotyx (com Victor Wooten no baixo e Dennis Chambers na bateria) e o pianista/teclista Stuart Mindeman, músico que tem tocado em estúdio e no palco com Kurt Elling, Antonio Sanchez, Mark Guiliana, Kendrick Scott e James Genus, entre muitos outros.

O derradeiro dia do festival é domingo (8 de maio), e, por este motivo, os concertos arrancam ligeiramente mais cedo. Às 20h, sobe ao palco o projeto LAB, liderado por dois nomes de créditos firmados no jazz luso (e não só) – o guitarrista Ricardo Pinheiro (entrevista aqui) e o baixista Miguel Amado –, ambos com um lastro de atividade de quase duas décadas, muitos discos gravados e participações em incontáveis festivais. Os dois músicos cruzaram-se no passado e isso cria um importante elo: Amado participou em “Song Form” (2013), de Pinheiro, e este retribui a colaboração em “The Long Rest” (2016), do baixista. Ambos partilharam com Bruno Pedroso, a liderança do projeto Triology, que em 2014 editou um recomendável álbum homónimo. Pela AsUR music (etiqueta criada por guitarrista e baixista), editaram “LAB” em 2020 (disco recenseado na jazz.pt aqui, resultado de um projeto criado de raiz e com composições originais, para o qual convidaram dois músicos da nova geração de talentos do panorama nacional em sustentada ascensão: o saxofonista Tomás Marques e o baterista Diogo Alexandre (muita atenção é devida a “Pipe Tree”, notável estreia em disco do seu grupo, recenseado por Gonçalo Falcão aqui), galardoados na edição de 2019 do Prémio Jovens Músicos da Antena 2 na categoria Jazz. O quarteto, relevante exemplo do processo de exploração de afinidades criativas entre músicos de diferentes territórios estilísticos e gerações a que estamos a assistir, apresentará a sua música de recorte sóbrio e elegante, havendo sempre espaço para a surpresa.

Para fechar o evento, porventura o concerto mais aguardado de todos: o regresso a Portugal do veterano baterista Billy Cobham e do seu grupo. Um breve olhar ao seu currículo e está tudo dito: em 1969, criou o grupo de jazz-rock Dreams, gravou vários discos com Miles Davis, de entre os quais o seminal “Bitches Brew”, gravado em 1969 e lançado no ano seguinte. Em 1971, fundou com John McLaughlin a Mahavishnu Orchestra, tendo gravado os álbuns essenciais da banda até 1973, ano em que iniciou um percurso de sucesso a solo. É logo desse ano o seu primeiro álbum em nome próprio, “Spectrum”, um dos marcos mais significativos do jazz-rock, a que se seguiu um tríptico importante, “Shabazz”, “Crosswinds” e “Total Eclipse”, todos de 1974, cujas sequelas perduram até hoje, plasmadas em formações de jazz, rock e funk. Cobham nasceu no Panamá em 1944 e cresceu em Brooklyn, Nova Iorque, onde estudou bateria e teoria musical. Ao longo da sua nutrida carreira, Cobham lançou dezenas de álbuns, entre registos em nome próprio ou em parceria com outros músicos. O poder e complexidade da sua abordagem – pelo menos em determinados períodos – permitiram que se tecessem comparações a mestres como Elvin Jones e Tony Williams, embora façamos figas para que evite certas manobras pirotécnicas que marcaram momentos da sua obra. O grupo que o acompanhará na Aula Magna completa-se com o guitarrista David Dunsmuir, o baixista Michael Mondesir, o pianista/teclista Steve Hamilton e a teclista Nikki Yeoh.

Os bilhetes e passes para os concertos do festival Até Jazz estão à venda na BOL em diferentes modalidades.

Mais informações no sítio do Festival Até Jazz na internet.

 

 

Agenda

01 Outubro

Jorge Moniz “Cinematheque”

Fórum Cultural do Seixal - Auditório Municipal do Seixal - Seixal

01 Outubro

Orquestra de Jazz de Espinho & Orquestra Clássica de Espinho “Kind of Blue”

Auditório de Espinho - Espinho

01 Outubro

Quarteto Cabaud / Marques

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Outubro

Desidério Lázaro Quarteto

Espaço Espelho d'Água - Lisboa

02 Outubro

Zé Eduardo Trio e Lighthousers

Cantaloupe Café - Olhão

03 Outubro

Ernesto Rodrigues, Daniel Levin, Maria da Rocha e João Madeira

Cossoul - Lisboa

04 Outubro

Luke Winslow-King

Auditório Carlos Paredes - Lisboa

04 Outubro

Stanley Jordan

Douro Jazz - Teatro Municipal de Vila Real - Vila Real

05 Outubro

Nicole Mitchell

Museu Nacional Machado de Castro - Coimbra

05 Outubro

Luke Winslow-King

Casa da Cultura - Setúbal

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