VII Festival de Jazz da Marinha Grande, 2 de Novembro de 2021

VII Festival de Jazz da Marinha Grande

Soprando e não só…

texto António Branco

A cidade do vidro vai ter neste mês de Novembro a sétima edição do seu festival de jazz, como habitualmente com um programa que aposta na produção nacional e que tem como intenção divulgar o género na região e dar apoio a músicos que, na pandemia, «passaram por momentos menos bons» (foto acima: LAB, por Manuel Luís Cochofel).

Localizada no litoral centro de Portugal, a cidade da Marinha Grande desenvolveu-se numa região abastada em termos de recursos naturais, que constituíram a base das mais relevantes atividades económicas, permitindo o estabelecimento e o desenvolvimento de várias comunidades e povoações ao longo de séculos. O mar, o pinhal e os demais recursos geológicos fornecem as matérias-primas e o combustível para os diferentes tipos de indústrias – em especial a madeireira, de extração e transformação de produtos resinosos e, sobretudo, do vidro. «Quem não sopra, já soprou», frase tão ouvida há algumas décadas, espelha bem a íntima relação da população desta região à indústria vidreira, a qual desempenhou um papel central na cidade, não apenas em termos económicos, como também no plano social e cultural.

Organizado pela Câmara Municipal local, o Festival de Jazz da Marinha Grande chega em 2021 à sua sétima edição, tendo como palco a emblemática Casa da Cultura – Teatro Stephens, alvo de requalificação há alguns anos, inserida no Centro Tradicional da Marinha Grande, núcleo cujo valor reside, em grande parte, no património erguido pelos irmãos Stephens sob o desafio e o regime protetor do Marquês de Pombal. A direção artística do festival está a cargo do saxofonista, compositor e pedagogo César Cardoso, que avança os propósitos centrais de mais esta edição do festival: «Pretendemos que haja divulgação deste género musical e, com a diversidade de músicos programados, proporcionar ao público da região, e não só, oportunidades de ouvir bons espetáculos.»

Entre os dias 5 e 13 de novembro, o certame marinhense reitera a proposta de apresentar um cartaz inteiramente constituído por nomes relevantes do jazz nacional – portugueses ou a residir em Portugal, ou que integrem formações por estes lideradas: «A aposta sempre passou por músicos nacionais ou que vivam cá. Por vezes alguns músicos estrangeiros, mas que tocam com músicos nacionais ou projetos nacionais. Temos uma comunidade de jazz muito grande e altamente qualificada em Portugal e é importante dar oportunidades para eles poderem mostrar toda a sua qualidade», acrescenta César Cardoso. O diretor artístico refere ainda à jazz.pt os desafios colocados na organização do festival, tendo em consideração o momento que (ainda) vivemos: «As coisas estão melhores nesse sentido, já é permitido ter 100% da lotação das salas e isso ajuda a sentir que as coisas estão a voltar ao que eram antes da pandemia. Nestes quase dois anos de grande dificuldade para todos, este, como outros festivais, são importantes para dar apoio e oportunidades aos músicos que passaram por momentos menos bons.»

Mano a Mano, por David Cachopo

Paulo Bandeira Trio

Ricardo Formoso, por Isabel Gonzalez

As honras de abertura do evento, na sexta-feira, 5 de novembro (às 21h30, o horário de todos os concertos), cabem ao projeto LAB, liderado por dois nomes de sólida reputação no jazz nacional – o guitarrista Ricardo Pinheiro e o baixista Miguel Amado –, ambos com um percurso de quase duas décadas, muitos discos gravados e participações em inúmeros festivais. Os dois já cruzaram colaborações no passado, Amado em “Song Form” (2013), de Pinheiro, e este em “The Long Rest” (2016), do baixista. Partilharam também, com Bruno Pedroso, a liderança do projeto Triology, que em 2014 deu à luz o álbum homónimo. Em 2020 editam “LAB” (AsUR music), resultado de um projeto criado de raiz e com composições originais, para o qual convidaram dois relevantes músicos da nova geração de talentos do panorama luso: o saxofonista Tomás Marques e o baterista Diogo Alexandre, galardoados na edição de 2019 do Prémio Jovens Músicos da Antena 2 na categoria Jazz. Composições sóbrias de matriz diversificada e interações inesperadas serão o prato forte.

No dia seguinte será a vez de escutarmos o projeto do baterista Paulo Bandeira, que regressou ao seu formato inicial de trio, acompanhado pelo superlativo lirismo do piano de João Paulo Esteves da Silva e pelo contrabaixo aveludado de Bernardo Moreira. O projeto desenvolveu-se com o propósito de abraçar de modo mais claro a estética europeia do jazz, e em especial do jazz ibérico, com os seus ricos e diversificados universos melódicos, harmónicos e rítmicos, que encontramos em temas originais, tanto saídos da pena do líder como dos outros dois, assim como em temas de autoria alheia. Jazz seguro e competente, servido por figuras marcantes do jazz nacional.

Passar-se-ão alguns dias até chegarmos, a 12, ao concerto do celebrado duo Mano a Mano, formado pelos irmãos André e Bruno Santos, ambos guitarristas de créditos mais do que firmados e estilos distintos (não obstante uma base comum), mas que, talvez até por via dessa dissemelhança, complementares, nos registos acústico e elétrico e na utilização sóbria e eficaz de efeitos. Ao terceiro disco, editado em 2019, quando ainda não sabíamos o que nos esperava, a aposta centrou-se na componente autoral própria, ao contrário dos anteriores, em que o foco era maioritariamente virado para versões de canções que ambos partilharam ao longo dos seus percursos. Com momentos tecnicamente virtuosísticos, que nunca resvalam para o exibicionismo, destaca-se a elegância e o bom gosto dos arranjos especificamente talhados para o duelo. Muitas surpresas, a não perder.

O festival encerra a 13 de novembro com “Implosão”, o segundo projeto de música original liderado pelo trompetista e compositor galego Ricardo Formoso, que sucede ao igualmente notável “Origens”, de 2017, ambos com chancela da Carimbo Porta-Jazz, braço editorial da imparável Associação Porta-Jazz. Naquele que é um verdadeiro mosaico de distintas personalidades musicais e geografias, acompanham Formoso o canadiano Seamus Blake no saxofone tenor, o catalão Albert Bover ao piano, o argentino (há muito radicado entre nós) Demian Cabaud no contrabaixo e o português Marcos Cavaleiro na bateria. As composições encontram eco na solidez, na sofisticação e na versatilidade quer dos discursos individuais quer das interações que se estabelecem entre os cinco músicos, num contexto determinado pelos arranjos cuidados, as improvisações e a «descoberta do cosmos.» O apetite está aguçado para uma deslocação à Marinha Grande.

Os bilhetes para os concertos custam cinco euros e estão à venda de terça-feira a domingo, das 10h às 13h e das 14h às 18h.