Guimarães Jazz, 19 de Outubro de 2021

Guimarães Jazz

Jazz numa roda dentro de uma roda

texto Gonçalo Falcão

O festival de Guimarães cumpre este ano 30 de vida, novamente com as salas em lotação máxima. E fá-lo do modo a que nos habituou: renovando-se. Vem carregado de boas ideias e com propostas irrecusáveis, sempre representando uma cidade que muito evoluiu em três décadas. Roda que roda.

O Guimarães Jazz começou por ser um festival diferente do que é hoje. E isto é – desde logo – algo que deve ser assinalado, porque nada há de melhor do que a renovação. Portugal está cheio de festivais imóveis. Ficam ali, parados, antecipáveis. O Guimarães Jazz mudou, foi experimentando, testando e crescendo. E foi ficando um festival diferente, em diálogo com a música, com a região, com o público e com as circunstâncias. Guimarães mudou tal como Portugal mudou. Há 30 anos só ir até Guimarães era uma aventura; hoje, ir, estar, viver a cidade durante uns dias é fácil e é um privilégio.

E este festival não são só concertos em noites consecutivas: há música espalhada pela cidade, “jam sessions”, ligações com a orquestra local, residências artísticas transcriativas, edição de discos e de textos, copos, comida e amizades. O Guimarães Jazz é um mundo que contraria o movimento retrógrado de alguma humanidade, “turns like a wheel inside a wheel”. O jazz ajudou a construir a identidade da cidade e colaborou na afirmação de uma forma de estar e ser vimaranense que toca quem a conhece. E o jazz é ajudado por esta visão que não discrimina e apresenta da melhor forma, nas melhores condições, a música.

O ano de 2021 marca, de certo modo um regresso. Depois da criogenização chega uma edição de comemoração de um número redondo, que também é o regresso a uma vida que nos fez ter saudades de pessoas que nem sequer conhecemos. Regressam a Guimarães alguns dos músicos mais interessantes da América, como Vijay Iyer, Marc Ducret, Chris Lightcap, Tony Malaby, Chris Cheek, Gerry Hemingway e Miguel Zenón. Quanto aos concertos colaborativos iremos ouvir a habitual prestação da Big Band da ESMAE, que este ano será ensaiada por Ryan Cohan, e da Orquestra de Guimarães, que agigantará o trio do saxofonista Niels Klein. Vamos ao detalhe...

Quinta-feira, 11 de Novembro

A abertura caberá ao pianista Vijay Iyer, que vira acolitado pela baixista malaia Linda May Han Oh e pelo baterista Tyshawn Sorey, que esteve em Guimarães em 2008 com Steve Coleman (é sabido que quem é escolhido por Coleman para lhe garantir a batida é certamente uma máquina). Este trio é a formação que gravou para a ECM o mais recente disco e mostra Iyer numa trajectória diferente, mais abstracta e, quanto a nós, interessante. Han Ho já tocou com Pat Metheny, Kenny Barron, Joe Lovano e Dave Douglas; é importante nesta equação, pois é muito interventiva melodicamente, construindo linhas paralelas às do piano que abrem a música. Nada aqui é explicadinho: a não perder!

Sexta-feira, dia 12 de Novembro

O saxofonista americano Miguel Zénon começou por ser “sideman” de Charlie Haden («one of the greatest things that ever happened to me», disse numa entrevista). Num concerto do contrabaixista viu subir ao palco Ornette Coleman, com quem Haden alinhou no histórico quarteto que em 1959 fundou o free jazz e gravou o “The Shape of Jazz to Come”. Este encontro com a história viva levou o saxofonista a gravar “Law Years: The Music of Ornette Coleman”, editado este ano. O quarteto que virá a Guimarães é diferente do que gravou a música de Coleman e por isso a música que vamos ouvir será uma surpresa, mas muito dificilmente não será entusiasmante, tendo em conta o grupo que viajará até ao Centro Cultural Vila Flor: o pianista venezuelano Luis Perdomo, o contrabaixista austríaco Hans Glawischnig e o baterista norte-americano Henry Cole, um quarteto que irá ajustar os seus muito distintos pê-agás musicais.

Sábado, 13 de Novembro

Como habitualmente, o fim-de-semana presenteia-nos com dois concertos. O da tarde, às 16 horas, cabe aos suíços do Who Trio (na verdade dois suíços - Michael Wintsch [piano] e Bänz Oester [contrabaixo] e o famosíssimo baterista norte-americano Gerry Hemingway). Editaram recentemente “Strell” na portuguesa Clean Feed, que previsivelmente estará no centro do concerto de Guimarães. Neste disco fantástico (crítica em https://jazz.pt/ponto-escuta/2020/08/26/who-trio-strell-music-billy-strayhorn-duke-ellington-clean-feed/), a dimensão orquestral de Duke Ellington é reduzida a um trio. Quase como tocar o “Das Rheingold” de Wagner em flauta, tarefa hercúlea mas, neste caso, com um resultado brilhante. Há um jazz antes de Ellington/Strayhorn e um depois deles e aquela música define os anos 30 e 40 do século passado e os Who desinventam aquelas canções à procura de uma essência, de um anjo ellingtoniano, trazendo releituras extraordinárias que vamos querer ver brilhar ao vivo.

À noite, regressaremos para ouvir o Chris Lightcap’s SuperBigmouth. A Bigmouth conhecemos. Ouvimo-la desde 2003 em discos fabulosos. Em 2021 a curiosidade aumenta com esta versão “super” em que o quinteto é aditivado para octeto. A música que sempre foi solar fica agora ainda mais divertida, com excelentes “grooves” e melodias que são confrontadas por contramelodias com uma dinâmica de “big band” próxima do jazz-rock. Vai ser certamente alegre, forte e com canções mortais que obrigam o pé a bater. O ideal para um dia de Sol invernil de São Martinho.

Domingo,14 de Novembro

Crédito: Ivo Rainha

A primeira semana fecha com outra dose dupla no domingo: concerto à tarde e concerto à noite. O primeiro com a “big band” da ESMAE, dirigida como já se disse por Ryan Cohan. Cumpre-se assim a vontade pedagógica do festival, uma das suas vertentes menos visíveis, mas mais interessantes. O maestro de Chicago tem procurado esticar o jazz a outras músicas, não só à tradição da música clássica europeia como também a outras geografias não ocidentais: a tentativa de misturar a música árabe com a judaica é talvez a faceta mais curiosa, com a música a resolver o que os políticos não conseguem. O pianista notabilizou-se ao ter trabalhado com Ramsey Lewis, Freddie Hubbard e Curtis Fuller, entre outros, e é bolseiro da Fundação Guggenheim. O seu último disco, “Originations”, mostra bem o prazer da escrita para grupos grandes de músicos (neste caso para decateto) e por isso a experiência com os ESMAEnses será certamente simpática de ouvir.

À noite, como tem sido hábito, assistiremos a outra das boas ideias deste evento: um concerto pluriartístico que resulta de uma parceria entre o Guimarães Jazz e a associação portuense Porta-Jazz, que é convidada a propor um projeto que cruze o jazz com outros processos criativos (teatro, música, performance, vídeo, etc.); aquilo a que assistiremos é desenvolvido “in loco”, através de uma residência artística, e é por isso sempre uma estreia e (potencialmente) uma última sessão. É – garantidamente – uma oportunidade única e especial que tem sido sempre imprevisível. A residência e a apresentação ocorre na Black Box do Centro Cultural José de Guimarães e este ano essa responsabilidade coube a Inês Malheiro (que liderará um quinteto) e à artista plástica Carolina Fangueiro. Nesta performance/concerto procurar-se-á - nas palavras das criadoras - «a ligação do espaço sonoro com o espaço cénico».

Quarta-feira, 17 de Novembro

Intervalado para descanso, o pessoal do jazz regressa na quarta-feira seguinte em grande com uma orquestra. É – mais uma – das boas ideias deste evento, propondo uma junção entre um compositor de jazz e a orquestra de Guimarães que, sob a direcção do maestro Vítor Matos, tem mostrado ser mais do que capaz de enfrentar estas provocações. Para início de conversa importa elogiar a disponibilidade da orquestra e a sua vontade de não se limitar a mundos musicais restritos. Este anoa formação vimaranense terá de lidar com o trio alemão do saxofonista Niels Klein, cujas peças irá expandir para serem tocadas por dezenas de músicos. Mais uma vez veremos como é que se resolve esta difícil equação; nos tempos que correm só esta curiosidade de um concerto único já vale ouro. Navegaremos nas fronteiras do jazz e no cruzamento com outros géneros musicais que, em anos anteriores, têm sabido entusiasmar. 

Quinta-feira, 18 de Novembro

Crédito: Vera Marmelo

Chega em passo estugado o último fim-de-semana do festival e, em jeito de preparação, a quinta-feira é dia de aquecimento. A proposta é a de um concerto para fechar o dia de trabalho, no final da tarde (19h30) com um jazz diferente, feito de sons e de improvisação. Para isso repete-se também a colaboração com o colectivo portuense Sonoscopia: o trabalho d
este caracteriza-se pela exploração de mundos muito abstractos, onde a electrónica, os computadores e os sons acusmáticos imperam. Em Guimarães ouviremos Henrique Fernandes a tocar vários objectos amplificados e processados - cordofones e hidrofones - e Joana Sá em piano preparado. Estaremos novamente num território fronteiriço e não-convencional, à espera de surpresas entre os sons de um piano traficado e a amplificação de tarecos que passam a ser instrumentos musicais.

Sexta-feira, 19 de Novembro

Já a sentirmos o pesar das coisas boas que acabam, avançamos para outro dos grandes dias da programação com o Black Art Jazz Collective: “luckily the clue is in the title”. O colectivo nova-iorquino propõe-se sublinhar o contributo afro-americano para a construção do carácter e do espírito do jazz, a “grande música negra”. O jazz sempre foi alvo de “bullying”, mas desde que se tornou sinónimo de sofisticação e maturidade a coisa agravou-se. Desde perfumes, carros, redes de telemóvel, farmacêutica, iluminação e até uma linha de mobiliário da Moviflor, o jazz é usado para vender, depois de ser sistematicamente alvo de um branqueamento ideológico. É neste contexto que surge o Black Art Jazz Collective. Co-fundado pelo saxofonista Wayne Escoffery, pelo trompetista Jeremy Pelt e pelo baterista Jonathan Blake, evoca o paralelismo entre a narrativa musical e a política e relembra o lastro de resistência inscrito no património da música de raiz afro-americana. Contudo, não se pense que o grupo aposta na musealização do passado (que obviamente não recusa), mas sim num movimento de avanço, compondo música nova e procurando perceber como enquadrar estas questões no presente. Éno espírito das pautas originais escritas pelo Black Arts que iremos ouvir o espólio da cultura negra nas suas diferentes formas: blues, soul, funk, rap e hip-hop.

Sábado, 20 de Novembro

E chegamos ao último dia e com ele uma tradição, um dos seus elementos distintivos e uma vontade que vem desde o início. Apesar de termos vivido dois anos atípicos, a tradição não se perdeu e, por isso, em 2021 o festival voltará a encerrar com uma “big band” de jazz: a Frankfurt Radio Big Band, dirigida por Jim McNeely. As orquestras enfrentam sempre o mesmo dilema: por um lado precisam de músicos capazes de tocarem como num exército, tecnicamente muito dotados para poderem rapidamente ler e interpretar qualquer pauta. Por outro, necessitam de músicos capazes de largar a pauta e de voarem de forma interessante pelo mundo abstracto e sem rede da improvisação. Há ainda, para sermos verdadeiros, o trilema de como manter viva e financiada uma unidade musical tão complexa e custosa de movimentar.

A FRBB é uma orquestra plástica e ecléctica com uma grande facilidade de tocar diferentes músicas. Virá com a saxofonista Melissa Aldana no papel de solista. Originária de Santiago do Chile,é um nome representante do novo jazz de influência latina. Editou em 2010 o seu primeiro álbum na editora do saxofonista Greg Osby e, em 2013, tornou-se a primeira mulher sul-americana a ser galardoada com o Thelonious Monk Music Award. Fecho em festa, como sempre, para deixar saudades e vontade de voltar.

 

Para saber mais

https://www.guimaraesjazz.pt/