Seixal Jazz, 6 de Outubro de 2021

Seixal Jazz

25 anos a acontecer

texto António Branco

O festival de jazz do Seixal perfaz este mês de Outubro um quarto de século de existência, o que o junta aos mais longevos do país. E traz consigo uma série de propostas, nacionais e internacionais, difíceis de recusar, pelo que uma ida à margem sul do Tejo é de agendar entre os dias 14 e 23 (foto acima: Ted Nash).

Devendo o seu nome, provavelmente, à abundância de seixos existentes na zona e que eram utilizados como lastro nas embarcações, o Seixal evoluiu ao longo dos tempos, sempre com uma ligação íntima ao rio Tejo. Às portas de Lisboa, o concelho viu o seu perfil relativamente rural transformar-se, com a instalação de um conjunto de unidades fabris, num concelho industrial, sobretudo a partir do início da década de 1960. A explosão demográfica e o crescimento económico trouxeram o progresso social, educativo e cultural a uma cidade que, a partir de meados da década derradeira do século XX, passou a incluir o jazz no coração da sua oferta cultural.

Parafraseando a popular canção, vinte e cinco anos é muito tempo. O Festival Internacional SeixalJ azz, organizado pela Câmara Municipal do Seixal, completa em 2021 um quarto de século de existência e o facto é motivo de celebração. Tendo passado por diversas fases ao longo da sua existência, o festival da urbe ribeirinha é hoje um dos mais longevos e sedimentados festivais de jazz em Portugal. Entre os dias 14 e 23 de outubro, o certame regressa ao Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal com um cartaz diversificado em termos de propostas, nacionais e internacionais, que incluem o Billy Hart Quartet, Diogo Alexandre Bock Ensemble, L.U.M.E. – Lisbon Underground Music Ensemble, João Lencastre’s Communion 3, Seamus Blake & Joe Sanders “Infinity”, Melissa Aldana Quartet e um trio constituído por Ted Nash, Steve Cardenas e Ben Allison.

Vamos por partes. O festival arranca a 14 de outubro, às 22 horas (horário de todos os concertos), com o quarteto liderado pelo veterano baterista e pedagogo Billy Hart, originário de Washington DC, que no seu vastíssimo currículo exibe colaborações com muitos dos principais nomes do género, uma dúzia de álbuns em nome próprio e a participação em mais de seis, sim, seis centenas de gravações, de Shirley Horn a Jimmy Smith, passando por Miles Davis e Herbie Hancock. O versátil baterista virá acolitado por três músicos – de altíssimo quilate e com carreiras há muito amplamente reconhecidas à frente das suas próprias formações: o pianista Ethan Iverson, o saxofonista Mark Turner e o contrabaixista Ben Street. Na bagagem, o quarteto, formado em 2003, trará certamente material dos seus aclamados álbuns para a ECM, o superlativo “One Is the Other” (2014) e “All Our Reasons” (2011), quem sabe se com espreitadelas ao passado (e ao futuro). Uma proposta sólida mas sempre com cartas na manga, pronta a surpreender.

No dia seguinte, sexta-feira, será a vez de subir ao palco o Diogo Alexandre Bock Ensemble, formação de características especiais liderada por uma das figuras de proa da nova geração do jazz nacional, o baterista e compositor Diogo Alexandre, músico que foi já galardoado com os prémios Revelação 2020 (Prémio RTP/Sons da Lusofonia), Jovens Músicos 2019 (RTP/Antena 2/Fundação Calouste Gulbenkian) e Melhor Instrumentista 2017 e 2015 (Festa do Jazz). Reunindo músicos de várias gerações – Tomás Marques (saxofone alto), João Mortágua (saxofone soprano), Paulo Bernardino (clarinete baixo), André Fernandes (guitarra), Xan Campos (piano) e Demian Cabaud (contrabaixo) – o Bock Ensemble equilibra de forma notável o rigor das composições com a urgência interpretativa das improvisações. Aos demais músicos, Alexandre concede considerável margem de manobra para trilharem os seus próprios caminhos no cômputo da formação. O Seixal escutará uma música espaçosa e desafiante, em que o gosto pela precisão e, simultaneamente, pelo risco, são centrais, e onde tudo é (mesmo) possível.

Uma das grandes expetativas desta edição do Seixal Jazz é o regresso, a 16 de outubro, sábado, do L.U.M.E. – Lisbon Underground Music Ensemble, big band multidimensional criada e dirigida por Marco Barroso. Juntando dezena e meia de instrumentistas de jazz e de música erudita, de entre os quais o flautista Manuel Luís Cochofel, o saxofonista tenor Gonçalo Prazeres, o trombonista Eduardo Lála, o baixista Miguel Amado e o baterista Vicky Marques, a formação parte de um modelo clássico da orquestra para o interpelar criativamente e sem rodeios ou receios, cruzando múltiplas referências e polinizando-o com elementos de diferentes quadrantes musicais. No evento seixalense, o coletivo apresentará “Las Californias”, com selo da Clean Feed, o seu terceiro registo de originais, que dá continuidade aos desbravadores “L.U.M.E.” (JACC Records, 2010) e “Xabregas 10” (Clean Feed, 2016). O novo disco não se limita a prolongar uma abordagem previamente delineada – se a mesma existisse –, antes expandindo horizontes estéticos e mergulhando o ouvinte numa espécie de turbilhão sonoro que deixa os sentidos em permanente estado de alerta. A formação continua a sulcar mares improváveis, propulsionada por uma omnipresente tensão constante entre o material composto e as improvisações. Para quem entende o jazz como um género vivo e espelho da contemporaneidade, este será certamente um concerto a não perder.

Billy Hart

Diogo Alexandre

Marco Barroso

João Lencastre

Seamus Blake

Melissa Aldana

Ben Allison

O festival faz uma pequena pausa para regressar a 20 de outubro, quarta-feira, com uma encarnação em formato trio do Communion, o projeto mais emblemático do baterista e compositor lisboeta João Lencastre, a que desta feita se juntam dois norte americanos de peso: o pianista Leo Genovese (que orbita o grupo desde a sua génese) e, pela primeira vez, numa ocasião histórica, o polifacetado contrabaixista Drew Gress. Numa altura em que Lencastre edita uma versão do projeto alargada para octeto (“Unlimited Dreams”, na Clean Feed, é imperdível, creiam-me os leitores da jazz.pt), o trio revisitará composições suas incluídas nos igualmente notáveis “Movements in Freedom” (2017) e “Song(s) of Hope” (2019) – ambos registados pelo pianista Jacob Sacks e pelo contrabaixista Eivind Opsvik – com o interesse adicional de escutarmos o que farão Genovese e, sobretudo, Gress com a matéria-prima. Outro momento que se aguarda com bastante interesse, dados os pergaminhos como improvisadores das personagens desta história.

No serão de dia 21, será a vez do saxofonista Seamus Blake e do contrabaixista Joe Sanders, oriundo de Milwaukee, apresentarem ao vivo o quarteto Infinity, que se completa na ocasião com o saxofonista Logan Richardson e o baterista Greg Hutchinson. Blake tem consolidado a sua posição no panorama internacional como uma voz de relevo no contexto de um certo “mainstream”, sem prescindir da liberdade de trazer a linguagem do género para outros territórios. Com uma abordagem saxofonística elegante e madura, ostenta uma carreira já com mais de um quarto de século, em projetos por si liderados ou como requisitado “sideman”. Sanders deixou o seu Winsconsin natal para viver na Califórnia e depois em Nova Iorque, residindo atualmente em Paris. Tocou com gente grada como Terence Blanchard, Roy Hargrove, Herbie Hancock, Charles Lloyd, Wayne Shorter, Geri Allen, Christian Scott e Ambrose Akinmusire, apenas para citar alguns. Em setembro de 2017, lançou o seu segundo álbum na condição de líder, “Humanity” (com Blake no papel de tenorista), como resposta à violência constante que afeta o nosso quotidiano, lembrando-nos da necessidade de tratarmos @ [email protected] com amor e respeito. Uma mensagem que faz todo o sentido nesta era de ódio e intolerância galopantes. Espera-se um jazz seguro e competente, na melhor aceção de ambos os adjetivos.

A noite de sexta-feira, 22 de outubro, será preenchida pelo quarteto liderado pela chilena Melissa Aldana, nome que fará soar poucas campainhas do lado de cá do Atlântico. A saxofonista apresentará o seu registo inaugural em quarteto, “Visions”, editado em 2019 e inspirado pela vida e obra da mexicana Frida Kahlo, retomando uma paixão pela pintura que a acompanha desde a infância. Partindo da rica herança latina, tem forjado um caminho que veicula o seu próprio discurso enquanto criadora. Depois de se dar a conhecer em clubes de jazz de Santiago do Chile, chamou a atenção de Danilo Pérez, que a convidou para tocar no Festival de Jazz do Panamá. Em 2009, terminados os estudos no Berklee College of Music, em Boston (onde foi aluna de Joe Lovano, George Garzone, Frank Tiberi, Greg Osby, Hal Crook, Bill Pierce e Ralph Peterson), mudou-se de armas e bagagens para Nova Iorque, para estudar com George Coleman. Gravou o seu álbum de estreia, “Free Fall” (2010), para a Inner Circle Music de Osby. Aos 24 anos, foi a primeira mulher e a primeira música sul-americana a vencer o Concurso Internacional de Saxofone de Jazz Thelonious Monk. No Seixal escutá-la-emos acompanhada por Mike Moreno na guitarra, Pablo Menares no contrabaixo e Kush Abadey na bateria.

Para o encerramento, a 23 de outubro, sábado, fica reservado outro dos momentos mais aguardados do festival, o que juntará três músicos de intocável estatura: o saxofonista e clarinetista Ted Nash, o guitarrista Steve Cardenas e o contrabaixista Ben Allison. O trio busca inspiração na configuração instrumental gizada e operacionalizada, nas décadas de 1950 e 1960, pelo incontornável (mas sempre subvalorizado) Jimmy Giuffre, caracterizada pela ausência de bateria. Com arranjos e composições da autoria dos três músicos, a formação deu à luz um par de álbuns, “Quiet Revolution” (Sonic Camera, 2018) e “Somewhere Else – West Side Story Songs” (Plastic Sax, 2019). Para o início do próximo ano, antevê-se a edição de um terceiro tomo, que será, ao que se sabe, dedicado à música de Carla Bley. Não será de espantar que a aparição seixalense nos traga alguma surpresa a este respeito...

Paralelamente aos concertos funcionará, das 21 horas à meia-noite, o “Espaço Jazz”, área reservada à venda de materiais de promoção do festival, bem como de CDs das formações que atuam nesta edição. Todas as noites estará também disponível um número limitado e numerado de fotografias dos concertos, em zona própria no “foyer” do Auditório. Os bilhetes para os concertos estão à venda na rede Ticketline e nas bilheteiras do Fórum Cultural do Seixal. O bilhete único custa 12 euros (a assinatura para os sete dias custa 70 euros) e o bilhete duplo 24 euros (assinatura 140 euros). A utilização do Auditório Municipal durante o Seixal Jazz observará as normas emanadas da Direção-Geral da Saúde. Entre 14 e 23 de outubro todos os caminhos jazzísticos vão dar ao Seixal.

 

Para saber mais

https://www.cm-seixal.pt/seixaljazz/2021/seixaljazz-2021