MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, 24 de Maio de 2021

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

O regresso (mais do que) possível

Rui Eduardo Paes

O “congresso dos improvisadores” do concelho de Peniche voltará em Junho próximo a acontecer, depois de a sua edição de 2020 ter sido cancelada devido à pandemia. E necessariamente que adaptado às circunstâncias, com menos participantes. É o regresso possível, mais ainda assim muito prometendo.

Com a edição presencial de 2020 cancelada devido ao encerramento dos espaços públicos obrigado pela contenção da Covid-19 e de uns poucos concertos apenas com transmissão “online”, eis que o MIA regressa este ano com aquela que será a sua 12ª edição. Adaptado às circunstâncias impostas pela pandemia, mas ainda com a maior parte das características que vêm definindo aquele que é considerado o “congresso dos improvisadores” – ainda que faltem os costumeiros concertos em sorteio e as lendárias “jams” até ao nascer do sol. Em vez dos habituais 70 ou 80 participantes entre convidados e músicos de vários países que respondiam à “open call” ano após ano repetida, teremos em 2021 apenas 34, com lotações máximas de público fixadas nas 50 pessoas. Representações de França, Itália e Dinamarca são esperadas, fruto da integração da Zpoluras, produtora do festival, na S.H.A.R.E., uma associação internacional entretanto criada de promoção da música improvisada. O evento decorre a 18, 19 e 20 de Junho a Oeste, na vila de Atouguia da Baleia (concelho de Peniche).

O arranque ofical do MIA - Encontro de Música Improvisada terá lugar, no entanto, antes de Junho, já a 29 de Maio, com um quinteto «da casa», «preparatório», formado por Paulo Chagas, Fernando Simões (os dois organizadores), Carlos Cañao, Luís Guerreiro e Paulo Duarte, que promete uma “Viagem Sonora” no auditório da Sociedade Filarmónica de Atouguia, base de operações desta iniciativa. A 18 de Junho serão duas as sessões: à tarde um “workshop” orientado por Nuno Rebelo naquele mesmo local e à noite um concerto de instrumentos graves na Igreja de S. José, com dois sopradores (João Pedro Viegas no clarinete baixo e François Mellan na tuba) e dois contrabaixistas (Alvaro Rosso e Miguel Falcão).

O sábado 19 inicia-se à tarde, na Filarmónica, com os 5T01 de Fernando Simões, ao trombonista atouguense juntando-se Maria Radich (voz), Maria do Mar (violino), Paulo Pimentel (piano) e Mário Rua (bateria). Segue-se uma formação do projecto S.H.A.R.E., com a cantora Elisabetta Lanfredini, o guitarrista Niels Mestre, o pianista Manuel Guimarães e o contrabaixista Jonathan Aardestrup. Mais adiante, será projectado o documentário de longa-metragem “Caos e Afinidade”, de Pedro Gonçalves, que inclui fragmentos de actuações em MIAs anteriores e depoimentos de figuras que no festival frequentemente se reúnem. Antes da pausa para jantar, uma ida à Fonte Gótica permitirá a audição do estreante Voltaic Trio, que terá disco quase a sair por essa altura, com Luís Guerreiro no trompete, Jorge Nuno na guitarra e João Valinho na bateria. À noite, de volta à Sociedade Filarmónica, vez para o trio de Rodrigo Amado (saxofone tenor), Hernâni Faustino (contrabaixo) e João Lencastre (bateria).

Nuno Rebelo

Maria Dybbroe

Elisabetta Lanfredini

Ricardo Jacinto

Carlo Mascolo

Joana Guerra por Nuno Carvalho

Rodrigo Amado

Os trabalhos de domingo, 20 de Junho, começam logo de manhã, com um concerto para crianças conduzido por Elisabetta Lanfredini e o violoncelista Uygur Vural. À tarde toca uma delegação do colectivo OSSO de Caldas da Rainha, com Ricardo Jacinto (violoncelo), Nuno Torres (saxofone alto) e Nuno Morão (bateria). Depois sobe ao palco a saxofonista Maria Dybbroe, num quarteto com Joana Guerra (violoncelo), Paulo Duarte (guitarra) e Vito Basile (baixo eléctrico). Antes do quarteto que fechará a tarde, com o trombonista Carlo Mascolo, Uygur Vural, Carla Santana (electrónica) e Carlos Cañao (gongo, taças tibetanas), haverá tempo ainda para uma contribuição do autor destas linhas em formato de palestra, sob o tema “A Utopia Segundo Derrida”. A despedida faz-se à noite com Paulo Chagas (flauta, saxofone alto), Nuno Rebelo (guitarra), Miguel Mira (violoncelo) e Felice Furioso (bateria) nos labores sonoros e Pedro Gonçalves nos visuais.

Refere a Zpoluras em comunicado a propósito: «A gestão da programação decorreu de um conceito muito simples, com a repescagem de artistas convidados para a edição de 2020, juntamente com artistas representativos de outras associações e grupos apadrinhados por músicos ligados à organização. Todos os grupos programados são de pequeno formato (um duo, três trios, cinco quartetos e um quinteto), admitindo-se ainda a hipótese de fazer um “ensemble” mais alargado se houver condições que o permitam.»

A normalidade possível nestes tempos terá com o MIA 2021 esta configuração, e tudo o que acontecer será gravado em vídeo e áudio, para posterior divulgação e memória deste tempo de resistência à adversidade.

 

P.S.: A S.H.A.R.E. está a preparar um banco de dados. Para o efeito, agradece o fornecimento de informações relativas às cenas da livre-improvisação de vários países por parte de músicos, técnicos, "designers", jornalistas, críticos, auditórios, associações, etc., neste "link": https://database.shareimpro.eu/en