Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, 12 de Outubro de 2020

Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra

Associação de Amizade Portugal-França

texto Rui Eduardo Paes

É em contexto pandémico que chega mais uma edição, a 18ª, do festival de jazz de Coimbra. Com outra particularidade: uma boa parte do programa é dedicada à colaboração de músicos nacionais com os do Tricollectif – associação que reúne alguns dos mais cativantes nomes do actual jazz criativo de França –, elevando a outro patamar parcerias que já existiam com os irmãos Théo e Valentin Ceccaldi ou com Roberto Negro. Mas haverá mais do que o Tricoimbra, como nas linhas que se seguem ficam desde já a saber…

A primeira semana do festival Jazz ao Centro é apresentada como uma Luso-French Extravaganza. Designa-se por TriCoimbra um programa de oito concertos em que, na sua maior parte (excluem-se os casos de Montevago, Lent e Luís Vicente a solo), encontramos formações constituídas por músicos franceses do Tricollectif com músicos nacionais. Se em 2019 o convite foi endereçado ao colectivo holandês DOEK, nesta 18ª edição estará representado aquele que, em França, tem mobilizado alguns dos mais aclamados valores de uma nova geração de artistas, designadamente Guillaume Aknine, Quentin Biardeau, Adrien Chennebault, Théo e Valentin Ceccaldi, Gabriel Lemaire, Roberto Negro e Florien Satche. Portugal estará representado por Luís Vicente, Marcelo dos Reis, Luís Lopes, Mariana Dionísio, João Camões e Alvaro Rosso.

Na segunda parte do festival mantêm-se os cruzamentos europeus, com os franceses veteranos Benoît Delbecq e Bruno Chevillon a acompanharem Mário Costa no trio Oxy Patina, o belga Soet Kempeneer a juntar-se a João e Norberto Lobo nos Simorgh e o alemão Burnt Friedmann a tocar com João Pais Filipe, bem como se repete uma presença exclusivamente portuguesa, se bem que com um nome exótico como Quang Ny Lis, o novo trio da cantora Rita Maria. Como habitualmente, as actuações estão distribuídas por vários espaços de Coimbra, a saber Teatro Académico de Gil Vicente, Convento de São Francisco, Museu Nacional Machado de Castro, Colégio da Graça, Oficina Municipal do Teatro e, como não podia deixar de ser, Salão Brazil, casa-mãe da estrutura organizadora, o Jazz ao Centro Clube.

23 Outubro, Colégio da Graça (18h30): Luís Lopes / Alvaro Rosso / Adrien Chennebault

 Adrien Chennebault

Luís Lopes

Por esta altura já sabemos que, para o guitarrista Luís Lopes e o contrabaixista Alvaro Rosso, a colaboração com outros improvisadores é um factor vital para a renovação das suas próprias perspectivas. No encontro entre músicos nacionais e músicos franceses proporcionado pelo Jazz ao Centro encontramo-los com o baterista Adrien Chennebault. À partida, nada parece haver em comum entre os três: Lopes deambula entre o jazz eléctrico, o rock e o noise, Rosso tem-se notabilizado com uma abordagem camerística da livre-improvisação e Chennebault caracteriza-se pela sua referenciação em diversas tradições populares. Quando se improvisa, no entanto, as diferenças são o segredo das empatias musicais conseguidas, e é isso, precisamente, o que este trio procura. 

23 Outubro, Convento de São Francisco (21h30): Roberto Negro / Théo Ceccaldi “Montevago”

 Roberto Negro

Théo Ceccaldi por Sylvain Gripoix

As duas figuras que imediatamente identificamos com o Tricollectif, Roberto Negro e Théo Ceccaldi, juntaram-se para um projecto de características muito particulares: tocar música de dança com um dos mais típicos formatos da música de câmara, o duo de piano e violino, e uma abordagem contemporânea do jazz. Gavotas, minuetes, jigas, quadrilhas, mazurcas, tarantelas e habaneras sucedem-se com grande efeito no álbum de apresentação da dupla, “Dance de Salon”, mas é em concerto que realmente ganham vida. A maneira como Negro e Ceccaldi o fazem é que dita os resultados, numa permanente exploração dos timbres que passa pelo uso e abuso das mais escondidas propriedades de ambos os instrumentos. Partimos para o baile apenas com uma certeza: nunca ouvimos nada como “Montevago”.

23 Outubro, Salão Brazil (22h45): Lent

Lent é rock – aquele rock que, desde o chamado “prog” da década de 1970, está tintado de jazz – desacelerado até ao extremo. Tudo se passa em progressão lenta, com as notas ou acordes a fazerem-se ouvir com tempo e parecendo mesmo querer adiar tudo o que vem a seguir. É como se houvesse o propósito de eternizar o momento, com cada decisão estruturante ou performativa e cada gesto criador de som a ganharem o impacto das coisas definitivas. Numa época regulada pela velocidade e pelo imediatismo, era algo assim que faltava: uma música que decompõe a lógica com que os minutos se sucedem para nos transmitir a sensação de que estar aqui e agora é um absoluto.

24 Outubro, Museu Nacional Machado de Castro (18h30): Luís Vicente “Maré”

 Luís Vicente

Só os grandes improvisadores se atrevem ao formato solo e Luís Vicente deu já bastas provas de que é um deles, dentro e fora de portas. Nesta actuação reproduz o alinhamento do álbum “Maré”, recentemente editado, com as suas explorações trompetísticas a reporem o pensamento de Fernando Pessoa sobre símbolo e analogia. Se o poeta acreditava que «tudo o que vemos é outra coisa», Vicente vem mostrar-nos que também tudo o que ouvimos outra coisa será. No caso, não propriamente um solo, mas um trio entre o improvisador, a matéria da improvisação e o espaço em que a dita improvisação acontece, tendo-nos para mais a nós, ouvintes, como directos interlocutores.

24 Outubro, Convento de São Francisco (21h30): Chamber 4

Regresso ao palco do quarteto luso-francês cujo álbum “City of Light” veio acrescentar algumas novas nuances à corrente da improvisação de câmara. Com uma música detalhística, contemplativa e intimista, o grupo formado por Luís Vicente, Théo Ceccaldi, Marcelo dos Reis e Valentin Ceccaldi (numa rara associação instrumental de trompete, violino, guitarra clássica e violoncelo) destacou-se por incluir nas suas tramas todos os tipos de materiais. Do atonalismo à melodia e de um trabalho textural e abstracto à inclusão de padrões rítmicos, tudo cabe na paleta de recursos deste projecto que chega mesmo a adoptar a intensidade e o típico “drive” do jazz. 

24 Outubro, Salão Brazil (22h45): R. Negro / M. Dionísio / G. Lemaire / Q. Biardeau / J. Camões / A. Rosso / A. Chennebault

 Quentin Biardeau

João Camões

De todas as formações “ad-hoc” que constituem o Tricoimbra, este é o mais numeroso. Um septeto em que João Camões (violetista membro dos projectos Open Field, earnear e Nuova Camerata que ouvimos igualmente ao lado de figuras como Jean-Marc Foussat e Jean-Luc Cappozzo), Mariana Dionísio (voz no Omniae Ensemble e nos in igma de Pedro Melo Alves, bem como nos Montanhas Azuis de Norberto Lobo) e Alvaro Rosso (contrabaixo nos PUI4, trio com Abdul Moimême e Albert Cirera) contracenam com dois membros do quarteto de saxofones Machaut, Gabriel Lemaire e Quentin Biardeau, mais o pianista Roberto Negro e o baterista Adrien Chennebault. Não se sabe o que vai acontecer, mas muito promete. 

25 Outubro, Mosteiro de Santa Clara-a-Nova (16h00): João Camões / Guillaume Aknine / Mariana Dionísio

Guillaume Aknine chamou a atenção do público português quando nos visitou com o Théo Ceccaldi Trio e a convidada Joelle Léandre na edição de 2014 do Jazz ao Centro. Está agora de volta e desta vez com a sua guitarra eléctrica. Vamos ouvi-lo com o violetista João Camões e a cantora Mariana Dionísio, num trio em estreia absoluta que poderá ter nesta ocasião a sua única manifestação pública, mas em que decerto ouviremos os motivos que levaram a ter sido ele (Aknine) o guitarrista escolhido por Ceccaldi para a homenagem a Django Reinhardt prestada no recente álbum “Django”. Na bagagem, o músico gaulês trará também, por certo, a experiência que vem tendo com os Toons, grupo que toca contos musicais sem palavras inspirados na prosa dos irmãos Grimm.

25 Outubro, Salão Brazil (19h00): Luís Lopes / Quentin Biardeau / Marcelo dos Reis / Florian Satche 

O que esperar quando aos dois “enfants terribles” portugueses da guitarra, Luís Lopes e Marcelo dos Reis, se juntam um dos saxofonistas da banda de punk-jazz psicadélico Freaks, Quentin Biardeau, e o baterista dos desconcertantes e divertidos Toons, Florian Satche? Algo que, inevitavelmente, terá o rock como combustível, o excesso como condição e o humor como tempero. Com uma diferença substancial relativamente àquelas duas superbandas francesas: a música será totalmente improvisada, pelo que os ingredientes em causa serão espontâneos, crus, puros e absolutamente nada apologéticos. 

30 Outubro, Teatro Académico de Gil Vicente (21h30): Mário Costa “Oxy Patina”

 Mário Costa

Mário Costa começou por se fazer notado dentro e fora de portas com as suas associações a Hugo Carvalhais e ao saxofonista que este escolheu para o projecto Nebulosa, Émile Parisien. Pouco depois, este convidou o músico português a integrar os seus Sfumato com Michel Portal e Joachim Kuhn (com o convidado Wynton Marsalis numa histórica ocasião) e a Europa rendeu-se às suas capacidades, reconhecendo-o como um dos melhores bateristas da actualidade. O CD “Oxy Patina” confirmou tal estatuto e desde então tem andado na estrada com o pianista Benoit Delbecq e o contrabaixista Bruno Chevillon, a nata da nata da cena do Hexágono. 

30 Outubro, Salão Brazil (22h45): João Lobo / Norberto Lobo / Soet Kempeneer “Simorgh”

Os dois Lobos têm um novo projecto em comum, ainda que desta vez a escrita dos temas seja exclusivamente daquele que vive em Bruxelas, João Lobo: depois das aventuras Oba Loba e Mogul de Jade temos agora Simorgh, um trio completado pelo contrabaixista belga Soet Kempeneer. A música é mais acentuadamente “jazzy”, no que tal indica em termos de “groove” e até do mais clássico “swing”, mas o que nela há de rock, de folk e de pop corresponde aos parâmetros a que já estamos habituados. É proposta nova e diferente – com Norberto Lobo a carregar no pedal de distorção da sua guitarra eléctrica –, mas as bases que conquistaram o nosso entusiasmo continuam lá, inteirinhas. 

31 Outubro, Oficina Municipal do Teatro (21h30): Burnt Friedmann / João Pais Filipe

João Pais Filipe e Burnt Friedmann 

Concerto de reencontro de João Pais Filipe (Paisiel, HHY & The Macumbas) com Burnt Friedmann, o mesmo que teve um duo semelhante de electrónica e bateria com o lendário Jaki Liebzeit, fundador dos germânicos Can. Hipnótica, obsessiva e especialmente complexa, a música criada por esta parceria parece jogar com o património rítmico da humanidade, tudo aproveitando de todos os géneros e tendências musicais e tudo reflectindo as plurais experiências que os dois músicos tiveram nos seus respectivos percursos: um espectro que vai do jazz e da música livremente improvisada (Pais Filipe integra o colectivo Pedra Contida) ao techno, ao rock ou à canção pop mais sofisticada (Friedmann integrou os Nine Horses de David Sylvian). 

31 Outubro, Salão Brazil (22h45): Rita Maria / João Mortágua / Mané Fernandes “Quang Ny Lis”

 Rita Maria

À partida, poderia parecer que este trio é mais um de muitos a dedicar-se a um repertório de “standards” do jazz. Se isso é verdade, tem muito mais que se lhe diga, ou tal vulgaridade não mereceria um nome de estranhas ressonâncias como Quang Ny Lis. Nem, de resto, seria de esperar quando os músicos em causa são Rita Maria, João Mortágua e Mané Fernandes. Os tais “standards”, entre os quais podemos encontrar “I Fall in Love too Easily” e “I Get Along Without You Very Well”, são «revistos à luz da contemporaneidade» e isto já por si diz muito. Mas diga-se mais: se habitual é que a guitarra de Fernandes esteja ligada a uma panóplia de efeitos, também os saxofones de Mortágua levam com electrónica atrás.