Guimarães Jazz, 22 de Setembro de 2020

Guimarães Jazz

Uma conjuntura feita oportunidade

texto Gonçalo Falcão

O festival de Guimarães vai ser diferente este ano pelos motivos que vocês sabem, com um programa recheado de nomes portugueses ou de músicos de outras paragens que escolheram Portugal como país de residência. Ainda assim, as características que lhe são habituais permanecem por inteiro. Acontecerá em Novembro próximo com um recheio que muito promete.

Despedimo-nos da 28º edição do Guimarães Jazz convencidos de que, 12 meses depois, nos encontraríamos como habitualmente1. O Guimarães Jazz é uma longa história que se repete aniversariamente num espírito de celebração. A partir de Março passado, o abalo do mundo fez-nos pensar que, este ano, talvez não nos revíssemos pela 29ª vez. Mas felizmente não é assim. Os programadores e organizadores portugueses têm sentido melhor do que ninguém a urgência de não fazer o mais fácil: parar. Os músicos foram provavelmente das classes mais afectadas pela pandemia: económica, criativa e socialmente privados de tocar com outros músicos e com o público, sem os rendimentos dos concertos, passados a prejudiciários pelo Ministério da Cultura, atravessam um período áspero. Assim, pela música e pelos músicos, ainda bem que não vai ser um ano bissexto no Guimarães Jazz e vamos ter música no excelente auditório do Centro Cultural Vila Flor.

A característica mais marcante da edição deste ano é a grande presença de músicos portugueses. Não que Guimarães não tenha sempre estimado os músicos nacionais: sempre os programou e tem vários e notáveis projectos em curso, com a parceria com a Porta-Jazz (antes com a TOAP), com a ESMAE e com a orquestra da cidade. A portugalidade em Guimarães é um assunto sério, não fosse o berço da nação. Mas este ano, por força das incertezas com viagens, somando-se o problema de trazer músicos americanos (onde o Covid prospera à conta de um presidente em guerra cívica), e pela necessidade de apoiar a classe musical portuguesa, temos uma programação esmagadoramente pátria.

Há contingências reveladoras: a programação mostra que o País tem hoje um nível elevadíssimo de músicos de jazz, o que não só assegura a qualidade das duas semanas de música como contribui para atrair outros músicos da primeira divisão do jazz mundial para residir cá (ex: Andy Sheppard, David Murray, Paal Nilssen-Love, Peter Evans, Julian Arguëlles, Fred Lonberg-Holm). Faz-se de uma limitação uma oportunidade e o Guimarães Jazz deste ano será uma, para que o público se actualize em relação a inúmeros e diferentes projectos nacionais. Será como que um “showcase” do que de mais interessante se toca em Portugal (a única exceção será a Radiohead Jazz Symphony, sexteto holandês dirigido por Reinout Douma que atuará com a Orquestra de Guimarães), tal como já foi o Jazz 2020 da Gulbenkian. 

Primeira semana: 12 a 15 de Novembro

Peter Evans

Hugo Raro por Andreea Bikfalvi

O festival abre com o novo grupo português – apropriadamente intitulado Costa Oeste - de um experiente saxofonista britânico. Andy Sheppard, que grava regularmente para a ECM e se apaixonou pela Ericeira, fará as honras inaugurais. A ligação ao baterista Mário Costa já vem ensaiada desde o Gnration, em Braga, e Sheppard alarga agora para quarteto, adicionando o brilhante contrabaixista e compositor Hugo Carvalhais (os seus três discos são excepcionais; ansiamos por novidades) e pelo som suave do guitarrista Mário Delgado.

No segundo dia estreia-se no palco vimaranense o genial trompetista Peter Evans, que se instalou no Chiado. Evans é o grande trompetista da actualidade, com uma cultura musical vastíssima e uma carreira notável no jazz, mas também na música sinfónica. Teremos um duplo concerto que se iniciará com um duo entre o seu trompete e a bateria de Gabriel Ferrandini, no qual a liberdade e a improvisação predominarão, e prosseguirá com um trio de singular instrumentação, o Book of Void, com trompete, acordeão e contrabaixo, ao lado de outro enorme virtuoso, o acordeonista João Barradas, e do excelente Demian Cabaud. Repito para que não fiquem dúvidas: Evans é, para mim, o grande trompetista da actualidade e perdê-lo a tocar ao vivo é pouco avisado.

O terceiro dia faz subir ao palco um octeto liderado pelo saxofonista leiriense César Cardoso em que ouvimos vários nomes habituais do circuito de Lisboa: uma secção de sopros alargada com a adição do sax de José Soares, do trompete de Luís Cunha e do trombone de Massimo Morganti, mais o vibrafone de Jeffery Davis, o piano de Óscar Graça e a secção rítmica de Cabaud e Marcos Cavaleiro.

Tem sido uma tradição (como habitualmente2) o primeiro fim-de-semana jazzístico começar numa tardiné em que os alunos da ESMAE apresentam o resultado de uma semana de trabalho com os músicos internacionais contratados para assegurarem as “jam sessions”, o “workshop” e um concerto no Guimarães Jazz. Este ano ficam por fazer as oficinas e as“jams” dadas as limitações das viagens e também as cívicas que separam as conviviais. Mesmo assim, a ESMAE irá a Guimarães mostrar o que toca, num concerto concebido e dirigido pelos professores. Têm sido sempre concertos muito agradáveis para fins de tarde invernosos.

À noite, como habitualmente3, virá o projecto Guimarães Jazz / Porta-Jazz, como habitualmente4 na Black Box, como habitualmente5 com uma proposta de intersecções de artes. Este ano, o músico seleccionado foi Hugo Raro, que montou um quarteto sem contrabaixo de piano, guitarra portuguesa, clarinete e bateria. O artista plástico JAS desenhará a  cenografia em tempo real para este concerto. Para além do seu grupo, Raro toca com Baba Mongol, Coreto e Torto.

Segunda semana: 18 a 21 de Novembro

@c

Pedro Melo Alves

Para quem é obrigado a escolher uma das semanas do festival a dúvida é amarga. O Projeto Sonoscopia / Guimarães Jazz propõe um quarteto. Ao duo portuense @c - Miguel Carvalhais e Pedro Tudela, fortemente computadorizados - junta-se a percussão de Gustavo Costa e a vídeo-arte de Rodrigo Carvalho. Os @c são uma instituição da música electrónica em Portugal, a teclar desde 2000. Para quem gosta do género fica a garantia de que vai encontrar vozes originais e um sentido de experimentação incomum. A adição de Gustavo Costa é importante, pois o percussionista é também compositor, fundador e colaborador de vários projetos seminais da cena experimental do Porto dos anos 2000, além de um dos co-fundadores do colectivo Sonoscopia. Rodrigo Carvalho é “designer” e artista intermédia, também do Porto e fundador do Openfield Creativelab.

Como é sabido e habitual6, o Guimarães Jazz gosta de orquestras. Este é também um dos elementos do seu DNA e uma opção repetida desde as primeiras edições. Este ano a primeira proposta é a Radiohead Jazz Symphony, que tocará com a Orquestra de Guimarães. Nas últimas quatro edições do festival temos ouvido a jovem orquestra da terra e sempre com prazer. Desta vez virá sob a direção do pianista e arranjador Reinout Douma que, com outros músicos holandeses, reinterpretarão jazzísticamente a música dos Radiohead. É jazz para quem gosta de rock.

No penúltimo dia do festival toca Julian Argüelles, outro dos ingleses que querem continuar a sentirem-se europeus e que optou por sair da ilha de Sua Majestade e vir para Tomar. É um “habitué” do festival e acabou de lançar um disco com Mário Laginha e o norueguês Helge Andreas. No festival virá em septeto, com dois saxofones (+ João Mortágua), o trompete de João Almeida, André Fernandes na guitarra, Eduardo Cardinho no vibrafone, António Quintino no contrabaixo e João Pereira na bateria. O grupo tocará a música de Argüelles, naquela que será a estreia deste ensemble.

Como habitualmente7, o festival fechará com uma “big band” (ou “large ensemble”, como agora se diz), o Pedro Melo Alves' Omniae. O formato “big band”, que marcou o jazz desde os anos 1920 até ao meio do século passado, esteve sempre presente no Guimarães Jazz e conseguiu fazer deslocar, ano após ano, músicos, instrumentos e todo o entorno que um grupo grande obriga. Em 2017, Pedro Melo Alves figurou entre os discos do ano da Jazz.pt e ganhou o Prémio de Composição Bernardo Sassetti, em reconhecimento da escrita para o Omniae Ensemble: este toca improvisação jazz em articulação com música contemporânea, numa mistura pedromelialviana. A composição deixa de estar apenas ao serviço da improvisação e passa a ter uma dimensão própria. Alargado o ensemble do septeto original para os 23 músicos que virão a Guimarães, será uma oportunidade para ouvir a evolução deste projecto aberto, em que um mundo inteiro é filtrado por Melo Alves.

Limitado, contingentado, o Guimarães Jazz segue o seu caminho, apoiando a proximidade social entre músicos e público e mantendo uma identidade que sempre valorizou e dinamizou o jazz português. Somem-se o eclectismo e a abertura e temos o habitual Guimarães Jazz em movimento, num tempo e numa situação imobilizadores. Vai valer a pena trocar viagens até ao berço. Como diz Ivo Martins, o programador: «Prevaleceu a ideia de que a linha de força mais importante do Guimarães Jazz é a aceitação dos desafios do tempo, inventando soluções que lhe permitam alargar horizontes e que essa será, no contexto altamente insólito em que actualmente vivemos, a melhor forma de honrar o património de resistência e de luta pela liberdade inscrito na memória genética do jazz».

 

[1], 2, 3, 4, 5, 6 e 7 Não havendo qualquer intenção poética, o texto está recheado de “como habitualmente”, só para sentirmos a normalidade reconfortante das coisas que se repetem.