Festa do Jazz, 7 de Setembro de 2020

Festa do Jazz

Jazz em direto, sem público

texto António Branco

É já no próximo fim de semana (12 e 13 de Setembro) que se realiza a Festa do Jazz, com concertos e muito mais a terem lugar pela primeira vez no Centro Cultural de Belém. Mas atenção, sem público presencial: numa solução inédita devido à corrente epidemia, o festival será transmitido pela RTP Palco. Carlos Martins, o programador, conta como e porquê, aqui em baixo...

Na edição em que atinge a maioridade, a Festa do Jazz realiza-se em modo inaudito, cortesia da pandemia de covid-19, que parece estar para lavar e durar. Esta situação – de evolução incerta – obrigou os organizadores (com a Associação Sons da Lusofonia (ASL), dirigida pelo incansável Carlos Martins, à cabeça) a adequarem-se às hodiernas circunstâncias sem descurar a qualidade e a diversidade estética da programação nem o papel mais vasto que a Festa desempenha no contexto do jazz nacional. Após 15 edições realizadas no São Luiz Teatro Municipal (entre 2003 e 2017), uma em vários espaços do Bairro Alto e do Príncipe Real (2018) e outra no Capitólio, Parque Mayer, em 2019, a Festa do Jazz continua a ser uma montra indispensável do que de melhor se faz em Portugal nesta área.

«A Festa do Jazz sempre apoiou e estimulou a comunidade dos músicos portugueses de jazz. Não é, pois, uma posição recentemente adquirida, por causa da pandemia, esta contínua luta pela afirmação do jazz português dentro e fora de portas. Precisamente por concentrar e expor as diversas realidades das práticas de jazz em Portugal, a Festa do Jazz encontra-se numa posição privilegiada em que pode contribuir como montra desses recursos e talento ao exterior e ajudar a fazer a ponte com o mercado internacional», salienta Carlos Martins.

A Festa do Jazz, evento de características únicas, e a Sons da Lusofonia têm ajudado no estabelecimento de redes colaborativas, formais e informais, no sentido de dar visibilidade à riqueza da produção portuguesa na área da música improvisada. Para o diretor da Festa do Jazz, «o futuro do jazz português em muito passa pela capacidade de operacionalizar essas redes e desenhar estratégias comuns de penetração num mercado global, também ele em constante mutação e com contínuos desafios».

No atual contexto, o apoio aos agentes que operam neste domínio de atividade é ainda mais pulmonar, dadas as dificuldades com que músicos, técnicos, produtores e demais envolvidos se deparam. «A realização da Festa do Jazz 2020 é, simultaneamente, uma plataforma de apoio aos músicos portugueses de jazz e uma proposta de inclusão social dos artistas que se viram bloqueados na sua relação com a criação – não houve qualquer apoio à composição que pode ser feita em isolamento – e com os seus públicos», assevera o responsável.

Neste sentido, a Festa do Jazz/ASL associou-se ao Fundo de Solidariedade com a Cultura lançado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, GDA, Audiogest e GEDIPE, através da recolha de donativos no sítio da ASL na internet, donativos esses que revertem a 100% para o fundo. Mas não é apenas um apoio financeiro circunstancial aos músicos de jazz e técnicos associados que a Festa do Jazz trás neste momento tão excecional da nossa vida coletiva, mas também «um apoio essencial para o futuro destes músicos e da comunidade com a qual se produz alguma da melhor música feita em Portugal», reforça Carlos Martins.

Agendada para o próximo fim de semana (12 e 13 de setembro), a 18.ª edição da Festa do Jazz realiza-se, pela primeira vez, no Centro Cultural de Belém, ali à beira Tejo, e não terá público a assistir presencialmente. Esta edição da Festa conta com uma parceria inédita com a RTP Palco, que através das suas plataformas na internet – e gratuitamente – transmitirá os concertos e disponibilizará todos os conteúdos.

O amplo elenco de concertos inicia-se no sábado (dia 12, 18h00 - 18h40) com um quarteto liderado pelo jovem e valoroso saxofonista alto (e também compositor) Tomás Marques, formação constituída propositadamente para o Prémio Jovens Músicos, que se completa com o pianista Samuel Gapp, o contrabaixista Rodrigo Correia e o baterista Diogo Alexandre, todos alunos da Escola Superior de Música de Lisboa.

Segue-se (19h00 - 19h40) a atuação (designada “Encontro I”) de um quarteto formado por nomes que dispensam apresentações: Carlos Martins (saxofone tenor), João Paulo Esteves da Silva (piano), Carlos Bica (contrabaixo) e João Lobo (bateria). Três dos mais reconhecidos músicos de jazz nacionais das últimas quatro décadas e um baterista que também tem dado cartas dentro e fora de portas juntam-se para uma interação que suscita naturais expetativas.

Andy Sheppard

Susana Santos Silva

Gabriel Ferrandini

Ricardo Toscano

À noite (21h00 - 21h50), tem lugar um dos momentos mais aguardados de todo o evento: “Mali M´Buli Baaba”, uma homenagem a Bernardo Sassetti, no ano em que o malogrado músico completaria meio século de vida. Intitulado a partir de uma peça do pianista que integra o álbum do quarteto de Carlos Martins, “Passagem” (1996), o tributo junta a celebrada secção rítmica do trio de Sassetti (o contrabaixista Carlos Barretto e o baterista Alexandre Frazão) a dois dos mais interessantes valores da nova geração do jazz nacional, o saxofonista João Mortágua (“Land”, com o seu quarteto Mazam, é já um dos discos de 2020) e o pianista João Pedro Coelho. Ocasião que não será certamente apenas de nostalgia, mas de redescoberta e interpelação do legado de Bernardo Sassetti. A não perder.

A encerrar o primeiro dia da Festa (22h00 - 22h50), apresenta-se um quarteto sob o mote “Costa Oeste”, liderado pelo saxofonista britânico Andy Sheppard, colaborador ativo de luminárias como George Russell e Gil Evans, mas também de Carla Bley e Steve Swallow, com quem já este ano editou o excelente “Life Goes On” (ECM). O grupo integra o sempre inventivo Mário Delgado na guitarra e uma secção rítmica formada por dois nomes de ponta da cena portuense: Hugo Carvalhais (contrabaixo) e Mário Costa, um dos mais relevantes bateristas do atual jazz europeu. Também promete.

Os concertos da Festa do Jazz prosseguem no domingo (dia 13) com o excelente projeto “Volúpias” de Gabriel Ferrandini (18h00 - 18h40), para estes ouvidos o melhor disco nacional de 2019, resultado da residência artística “Volúpia das Cinzas”, realizada durante o ano de 2016 na Galeria ZDB. Ferrandini será acompanhado pelo saxofone tenor de Pedro Sousa e pelo contrabaixo de Hernâni Faustino (tal como na residência e no registo) e ainda, para acrescentar novas dimensões ao universo sonoro do baterista e percussionista, pelo piano de Rodrigo Pinheiro, seu comparsa no RED Trio e noutras formações. Música prenhe de subtilezas e que desafia sentidos e catalogações.

O notável acordeonista João Barradas apresenta-se a solo (19h00 - 19h40), trazendo na bagagem “Solo I – Live at Centro Cultural de Belém” (com chancela da Nischo), memória de um recital que teve lugar em novembro do ano passado, preenchido por música completamente improvisada, e onde explorou, de forma muito pessoal, as possibilidades das variantes acústica e eletrónica do seu instrumento.

O “Encontro II” (pré-gravado, 20h00 - 20h20) será totalmente no feminino, reunindo um quarteto formado por Maria Fonseca (trompete), Inês Proença (piano), Sofia Queiróz (contrabaixo) e Beatriz Félix (bateria). Depois (20h20 - 21h00) será a vez de se apresentar uma dupla de rara configuração instrumental, formada pela harpista espanhola Angélica Salvi (há muito radicada na cidade do Porto e com diversas colaborações com músicos portugueses) e pela trompetista Susana Santos Silva (portuense e a residir atualmente em Estocolmo), dois nomes que recentemente se destacaram no elenco do Jazz 2020, na Fundação Calouste Gulbenkian. Ambas cultoras do “som” como matéria-prima para explorações, apresentam-se num dueto em que tudo é possível.

Outro dos momentos que se antecipam como mais interessantes em toda a Festa será a apresentação do novo trio de Ricardo Toscano, “The Sound of Desire”, em que o saxofonista – cuja atividade tem vindo, de forma crescente, a implodir cercas estéticas – se junta ao contrabaixista Demian Cabaud e ao baterista Marcos Cavaleiro (21h00 – 21h50). A fechar (22h00 – 22h50), a cantora Maria João e o contrabaixista Carlos Bica, cúmplices de longa data, sobem ao palco em quarteto, na companhia de André Santos (guitarra) e João Farinha (piano e teclados).

Paralelamente aos concertos principais, a Festa do Jazz incluirá o habitual Encontro Nacional de Escolas de Jazz, um dos seus pilares de sempre: quantos músicos se deram a conhecer e lançaram aqui as suas carreiras? Escutar-se-ão (em registo pré-gravado) formações provenientes de instituições de ensino superior (Universidade Lusíada de Lisboa, Universidade de Évora e Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto) e não-superior (Curso Profissional de Instrumentista de Jazz da Bemposta/Portimão, Jahas Rockschool Porto, Art´J – Escola Profissional de Artes Performativas da Jobra e JB Jazz Clube). As menções honrosas serão entregues no domingo (21h50 – 22h00).

Logo no arranque do evento (sábado, 17h00 - 17h40) é lançado o livro “Festa do Jazz”, volume que conta a história da Festa – a qual, em muitos pontos, se confunde com a própria história contemporânea do jazz em Portugal – e esquiça os perfis de alguns dos seus mais destacados intervenientes. O livro foi escrito na sua maior parte pelo guitarrista e investigador José Dias, os perfis são da autoria do jornalista Gonçalo Frota (Público) e conta com uma introdução de Carlos Martins. Na sessão de lançamento estarão presentes os dois últimos e ainda Duarte Azinheira (Imprensa Nacional – Casa da Moeda).

Também no sábado (20h20 - 21h00) terá lugar uma sessão de “coaching” subordinada ao tema “Jazz e o Mercado de Trabalho”, em que participam Pedro Costa (fundador da editora Clean Feed, invariavelmente reconhecida, nacional e internacionalmente, como uma das mais relevantes a documentar o jazz do nosso tempo), Gonçalo Frota e Carlos Martins. No mesmo dia (21h50 - 22h00), a anteceder o derradeiro concerto da jornada, serão atribuídos os Prémios RTP/Festa do Jazz.

Nota de particular relevo para o debate (domingo, 16h30 - 17h40) que terá como mote “Portugal, Jazz e o Racismo” e que contará com as participações de Mamadou Ba (dirigente do SOS Racismo) e das cantoras Maria João e Selma Uamusse. «A Festa do Jazz 2020 é feita de concertos, mas é também uma luta contra o racismo – pensemos nas minorias africanas à volta de Lisboa que não conseguem aceder às práticas do jazz, uma música com raízes africanas – e uma proposta para a participação das mulheres no jazz e na vida. Só de forma consistente (lembramos o envolvimento de sempre das Escolas de Jazz do país), a partir de práticas sustentadas, podemos ajudar a ultrapassar esta e outras crises com resiliência, amor e integração para a igualdade», sublinha a traço grosso o diretor da Festa do Jazz.

Motivos de sobra para acompanhar, ainda que remotamente, mas com renovado e solidário interesse, mais esta edição da Festa do Jazz e celebrar o jazz nacional.