Guimarães Jazz, 23 de Outubro de 2019

Guimarães Jazz

Pára tudo, que não é fácil…

texto Gonçalo Falcão

O cartaz do Guimarães Jazz chega este ano com algumas novidades: desde logo o facto de termos 10 dias seguidos de jazz, alguns com dois concertos. A jazz pt coloca o programa na mesa de operações e disseca as propostas do seu director artístico, Ivo Martins, numa tentativa de ajudar o leitor a organizar a sua agenda. Não vai ser fácil, tamanha é a oferta…

Como vem sendo de regra, o grande auditório do Centro Cultural Vila Flor vai inaugurar no próximo dia 7 de Novembro o festival de jazz de Guimarães. A estreia faz-se em alta com o “Kindred Spirits” de Charles Lloyd (foto acima), um dos grandes músicos da geração de 1960 ainda vivos. Podemos usar, sem medo de exagero, a frase usada pela organização do festival, «um saxofonista superlativo e um compositor sofisticado», porque é verdadeira. A sua carreira tem discos descomunais: os primeiros do seu quarteto com Keith Jarrett, Cecil McBee e Jack DeJohnette são obras-primas (como curiosidade diga-se que Jarrett tocou em Portugal nesse período e foi ao então bar de Luís Villas-Boas, o Louisiana – o piano onde tocou ainda está na casa, hoje habitação familiar em Cascais.). “Dreamweaver”, “In Europe”, ambos de 1966, “Forest Flower” de 1968, “Soundtrack” de 1969 (que abre com o tema “Sobrero Sam”!), e “In the Soviet Union” de 1970 são obrigatórios em qualquer casa de família, todos sublimes. Depois de ter passado por um período de relativa submersão, regressou nos anos 90 e recomeçou na ECM a segunda parte da sua carreira, igualmente extraordinária, com Billy Higgins, Brad Mehldau, Geri Allen e Jason Moran, entre outros.

Lloyd já veio várias vezes a Portugal e até já esteve no Guimarães Jazz (2010), mas os seus concertos são sempre um momento especial e este promete uma abertura em grande. “Kindred Spirits” é o nome do novo projeto com o pianista Gerald Clayton, o baterista Eric Harland, o guitarrista Marvin Sewell e o contrabaixista Harish Raghavan. A ouvir.

Sexta-feira, 8 de Novembro

 

Quem viu o filme “Birdman” não deixou de reparar na banda-sonora, uma das melhores músicas para filme produzidas por Hollywood (atenção também à música do novo “Joker”). Um longo solo de bateria contribui decisivamente para a criação do ambiente tenso, acelerado e claustrofóbico em que Michael Keaton se movimenta durante toda a longa-metragem. Mesmo sem fitas, os ouvintes mais atentos já tinham topado o baterista mexicano ao lado de Pat Metheny, de quem tem sido recorrentemente o suporte da sua secção rítmica. Com uma carreira de quase três décadas na elite do jazz internacional, Antonio Sánchez é simultaneamente um baterista e um compositor admirável.

Ao público vimarenense, Antonio Sánchez apresentará o seu projeto “Migration”, um quinteto que explora as ligações do jazz com o rock, a música electrónica e a “spoken word. O título do disco indica uma relação forte com a questão das migrações e também com o modo como as músicas que acompanham os homens viajam para outros territórios, amam, casam e geram outras músicas. Para além da bateria o destaque antecipado vai para os teclados de John Escreet e para a voz e a electrónica de Thana Alexa.

Sábado, 9 de Novembro

Foto de Maxim François

Como tem sido hábito no Guimarães Jazz, os fins-de-semana servem dose dupla. À tarde, no pequeno auditório, antecipa-se um bom concerto de jazz francês com o Trio Oliva (Stéphan Oliva no piano, Sébastien Boisseau no contrabaixo e Tom Rainey na bateria). Oliva partilha um lugar cimeiro na improvisação gaulesa e faz parte de um grupo pequeno de músicos que procuram formas e sons diferentes (ex: Bruno Chevillon, Marc Ducret, Michel Portal, Louis Sclavis). A França é uma grande desilusão no jazz europeu, em grande parte por alguns laivos de xenofobia musical, que faz com que se prefira sempre o produto francês ao estrangeiro, e há ainda a pesadíssima herança do manouche, que não sai do mesmo lugar desde a década de 1990, quando os irmãos Ferré o levaram até à perfeição técnica e que continua a ser consumido às pazadas sem gerar novidades. Tudo isto gera um caldeirão atávico que patrocinou o aparecimento de centenas de “copycats” de músicos americanos e manouches, abrindo pouco espaço para os músicos que procuram caminhos originais. Há-os (a genial Eve Risser, por exemplo), mas precisamos da candeia de Diógenes para os encontrar. O trio clássico de piano, contrabaixo e bateria liderado pelo compositor Stéphan Oliva é um destes casos em que vale a pena apostar. Admirador confesso de Lennie Tristano, esperamos um concerto elegante e sofisticado no limite da perfeição.

A noite espera-nos com uma dupla de pianos. O pianista norte-americano de descendência indiana Vijay Iyer é um exemplo prototípico das novas gerações. Com formação em violino clássico, autodidata no jazz e estudos em matemática e física, é um exemplo das estrelas em afirmação, com interesses diversos e multifacetados, 10 projectos musicais a correr em simultâneo, uma capacidade de processamento intelectual muito acima da média e uma técnica apuradíssima. Eclético e cerebral, Iyer apresentar-se-á em duo com Craig Taborn, outro dos visionários da sua geração. Tal como Iyer, Taborn é sobretudo um autodidata no jazz, com formação universitária feita na área das ciências sociais e humanas. Ouvimo-lo diversas vezes ao lado de líderes brilhantes como Tim Berne, Steve Coleman, Evan Parker, Michael Formanek ou Chris Potter.

A junção destas duas estrelas – Vijay Iyer e Craig Taborn – garante um jazz sério e consistente, que podemos ouvir no “Transitory Poems” acabado de lançar pela ECM. Iyer mais rítmico e Taborn mais centrado na melodia complementam-se numa música simultaneamente canónica e disruptiva. 

Domingo, 10 de Novembro

 

À volta do festival e dos concertos da noite orbita uma série de ideias surpreendentes que fazem como que o evento se prolongue em diversas memórias construtivas. Uma delas é a vertente pedagógica, uma das dimensões subterrâneas, mas muito importantes, do festival, reservada para as matinés. A ESMAE tem sido desde há muitos anos o parceiro de eleição para a didáctica e este projeto é mais um dos resultados. A Big Band e o Ensemble de Cordas da ESMAE vão ser ensaiados e dirigidos por Geof Bradfield e apresentarão o resultado desta acção na tarde de Domingo. Bradfield é um membro activo da cena jazzística de Chicago e também professor na Universidade de Illinois. A entrada para este concerto é gratuita, até ao limite da lotação da sala.

Outro dos projectos originais desenvolvidos pelo Guimarães Jazz é o das residências artísticas, pretendendo estas colocar o jazz em contacto com outras formas criativas – com destaque para o teatro e a literatura. Em 2019, a proposta de residência foi feita, como habitualmente nos últimos anos, à associação Porta-Jazz, numa tentativa de contribuir para o desenvolvimento do jazz no Norte do País. A apresentação na Black Box do Centro das Artes irá revelar a colaboração entre três músicos – o guitarrista Miguel Moreira, o baterista Mário Costa e o saxofonista e clarinetista suíço Lucien Dubuis – e o bailarino Valter Fernandes. Este projeto de natureza multidisciplinar promove como habitualmente a intersecção entre diferentes linguagens artísticas – neste caso o jazz e a dança - e será, como habitualmente, gravado e editado pela Carimbo, a editora da Porta-Jazz. O trabalho de Valter Fernandes é influenciado pela dança urbana, o que quer dizer que incluirá alguns “moves” da breakdance.

Segunda-feira, 11 de Novembro

 

Pára tudo, o caso é grave. Se os primeiros dias vinham fartos, a segunda-feira vai enviar-nos o cérebro para exéquias. É que, sem dar descanso ao público, o dia não só não descansará como atira-se a um concerto imperdível. Tanto quanto me consigo lembrar, será a primeira vez que a holandesa ICP Orchestra, fundada em 1967 pelo recentemente falecido pianista Misha Mengelberg e pelo sublime Han Bennink, vem a Portugal. A ICP é uma instituição histórica do jazz europeu, distinguindo-se desde a sua fundação por uma abordagem livre e iconoclasta aos cânones do jazz. Assenta sobre a liberdade da improvisação, com regras flexíveis dentro do sistema de uma orquestra, que é suposto ser gerida com pulso militar. Questionou por isso a própria essência do funcionamento de uma “big band”, e designadamente o seu espírito de acção conjunta, a liderança, o ensaio e o desempenho. Questionou a música para orquestra, o papel do humor, os arranjos, o uníssono, o cumprimento de regras, a disciplina, e ao longo dos seus mais de 50 anos de actividade foi criando um universo musical próprio e único.

Além das composições dos seus membros, a ICP explora também projetos de repertório, tendo já interpretado e gravado Monk e Ellington, por exemplo, sempre com um espírito subversivo. Sem Mengelberg, a ICP tem Han Bennink e o violoncelista Tristan Honsinger como condutores, muito embora esta orquestra seja democrática e todos os músicos partilhem a decisão sobre as direcções que a música toma e as formas que assumem. Agora com 10 elementos, a ICP é um dos principais representantes do jazz europeu e vai até Guimarães tocar: parece um sonho, mas é uma realidade que diz muito sobre aquilo que somos hoje enquanto país. Parabéns a todos. 

Terça-feira, 12 de Novembro

 

Como já se percebeu, «the torture never stops», como cantava Frank Zappa. Partidários deste SM musical, queremos mais deste tipo de torturas. Ao longo da sua existência, o Guimarães Jazz provou estar atento às transformações ocorridas na música durante as últimas três décadas, tendo apresentado múltiplos projectos musicais sustentados numa ideia de intersecção da linguagem clássica do jazz com outras músicas. Em 2019, o festival reincide abrindo-se mais uma vez a expressões musicais pouco conservatoriais: a Sonoscopia é um colectivo de músicos e construtores musicais sediado no Porto e com uma atividade diversificada na criação e na divulgação da música experimental. Ikizukuri é o nome da proposta desenhada pela Sonoscopia e pelo Guimarães Jazz para esta edição: um trio de saxofone, baixo eléctrico e bateria, com uma sonoridade rockeira.

São eles Julius Gabriel (compositor e improvisador alemão que vive no Porto) no saxofone tenor e na electrónica, Gonçalo Almeida, contrabaixista e baixista alfacinha a viver na Holanda que conhecemos da banda de metal-jazz Albatre e dos The Selva e Gustavo Costa, portuense, baterista e compositor com formação académica e participante em inúmeros projetos nas áreas do rock marginal, da música experimental e membro fundador da Sonoscopia. 

Quarta-feira, 13 de Novembro

 

A primeira vez que Joe Lovano aterrou na Portela foi há 23 anos e desde então já nos visitou algumas vezes e a Guimarães também. Não deixa de ser um visitante VIP em cada regresso e é um dos grandes nomes do jazz. Vamos ouvi-lo em trio, acolitado por Marilyn Crispell no piano. É como se os dias de Novembro andassem em festas umas atrás das outras. Dorme-se em Dezembro.

O tenor entrou para a história nos anos 1990 com o excepcional “From The Soul”, que o guindou ao topo do panteão dos saxofonistas de jazz. Tem um som limpo e musculado que não usa os clichés do instrumento. Apareceu em várias gravações da ECM nas últimas quatro décadas, incluindo álbuns estimáveis com Paul Motian, Steve Kuhn e John Abercrombie. “Tapestry” é o seu primeiro como líder na editora alemã, apresentando um novo grupo superlativo e música lírica. «Marilyn tem um som, um toque e um vocabulário tão bonitos», disse Lovano sobre a sua pianista. O baterista Carmen Castaldi, colaborador de longa data de Lovano, também responde ao ambiente do trio com sensibilidade, detalhando as melodias. É o elemento surpresa: amigo desde a adolescência de Lovano, tem um percurso discreto, colaborando recorrentemente com o seu amigo de Cleveland, nomeadamente com a Lovano’s Street Band. Mais um músico/grupo acabado de editar pela ECM (que domina as escolhas da programação) e uma pequena mudança no percurso de Lovano, que agora propõe temas mais planantes, dentro daquilo que é a linha editorial da casa alemã.

Quinta-feira, 14 de Novembro

 

Neste dia ouviremos mais um dos projectos originais de Guimarães, juntando compositores que habitualmente trabalham para grandes formações com a Orquestra Sinfónica de Guimarães. A primeira experiência foi com Marco Barroso e o alargamento dos seus LUME para a dimensão orquestral, depois foi o projecto “Lovers” de Nels Cline e o ano passado o mesmo fez a compositora brasileira Léa Freire. Concordamos que a experiência tem sido positiva para os dois lados – para os músicos de jazz e para a orquestra –, com a integração de bons solistas no colectivo orquestral, o qual tem mostrado ser capaz de cumprir as diferentes escritas com muita qualidade. Este ano o desafio foi lançado a Lina Nyberg, a vocalista e compositora sueca cujo último disco, “Terrestrial” de 2017, foi precisamente escrito e gravado para a NorrlandsOperan Symphony Orchestra e para o seu quinteto. Em Guimarães a fórmula repete-se, mas com a orquestra local e o seu quinteto.

Lina Nyberg iniciou a sua carreira em 1993, num duo com o pianista Esbjörn Svensson (morto prematuramente) e desde então sedimentou uma carreira consistente como compositora e cantora no Norte da Europa. “Terrestrial”, escrita para orquestra e quinteto de jazz, é o terceiro e derradeiro capítulo de uma odisseia musical que se iniciou em 2014 com “Sirenades” (para quinteto), a que se sucedeu “Aerials”, para quarteto de cordas.

Sexta-feira, 15 de Novembro

 

Quem esteve atento ao concerto de Rudresh Mahanthappa no Guimarães Jazz do ano que passou não deixou de notar no seu baterista. “Flatbed Buggy” é o nome do disco que na altura tinha acabado de editar e que, de algum modo, o apresentou ao mundo. Rudy Royston é um veterano, com um longo rol de colaborações com músicos da primeira divisão (ex: Bill Frisell e Dave Douglas). Apesar de este não ter sido o seu primeiro álbum a solo (já tinha lançado alguns discos na Greenleaf Music de Dave Douglas), o trabalho editado em 2018 vinha com um conjunto notável de músicas memoráveis que conseguiam fazer a difícil ilusão de soar simultaneamente aylerescas e refinadas.

Há uma “vibe” americana, texana até, não muito diferente da abordagem de Frisell quando toca “americana”, mostrando um grande amor pelo melodismo em instrumentações cruas com órgão, clarinete, violoncelo (Hank Roberts!) e contrabaixo. Royston escreve canções bem pensadas e atraentes que oferecem encantos diferentes de cada vez que são ouvidas. Começam por soar simples (“Soul Train” e “boy… MAN”) e oferecem encantos mais complexos numa segunda audição. Este concerto permitirá que admiremos cada músico em conversa com os outros, incorporando a espontaneidade do “ao vivo”, visto que as peças têm flexibilidade suficiente para potenciar essas mudanças. 

Sábado, 16 de Novembro

 

Com o festival quase no fim é tempo de voltarmos aos concertos da tarde, que têm sido frequentemente um bom aquecimento. Também vem do Texas o saxofonista e compositor Geof Bradfield, que toca dentro da tradição jazzística do be bop, incorporando folk e blues, e que nos acompanhará neste primeiro dia de fim-de-semana. Vem em quinteto com trompete, guitarra, contrabaixo e bateria. Um concerto que se antecipa confortável, sábio e muito bem tocado.

O festival fechará com uma orquestra, mantendo a tradição criada nas primeiras edições de ter sempre um grande grupo orquestral no evento (o que este ano acontece em dose quadrupla). O Large Ensemble do saxofonista, compositor e arranjador canadiano Andrew Rathbun interpretará as suas “Atwood Suites”, inspiradas na poesia da escritora Margaret Atwood. O Canadá sempre foi uma terra fértil para o jazz e Rathbun é um dos nomes da nova geração, dedicando-se à escrita de suites e peças orquestrais de um jazz miscigenado com o legado clássico romântico.

Rathbun estudou no New England Conservatory e na Manhattan School of Music, tendo começado a frequentar o circuito jazzístico nova-iorquino no final dos anos 90 do século passado. Sabemos todos que os cruzamentos entre jazz e outras músicas são sempre experiências difíceis que podem dar resultados muito interessantes ou muito enfadonhos; raramente são neutrais. E é por isso que valerá a pena avaliar esta proposta que parte da literatura e se estrutura em três peças distintas, criando paisagens para o século XXI. 

Jam sessions

O festival de Guimarães tem uma tradição de concertos descontraídos e que propiciam o convívio entre músicos, visitantes, organizadores e todos os que orbitam em torno desta música e da conversa bem oleada por uns copos.  As “jam sessions” acontecerão no Café Concerto do CCVF e no Convívio Associação Cultural e serão lideradas pelo saxofonista e compositor Geof Bradfield, que virá acompanhado por quatro músicos de igual nível. Custam 3 euros ou são gratuitas para quem foi ao concerto da noite.

 

Para saber mais

https://www.ccvf.pt/ciclos/191107-or-guimaraes-jazz-2019/