Jazz ao Centro, 19 de Setembro de 2019

Jazz ao Centro

Coimbra em festa

texto Rui Eduardo Paes

Steve Coleman (foto acima), Fred Frith, Joe McPhee, Michael Moore, Wilbert De Joode, Carlos “Zíngaro”, Rodrigo Amado, Susana Santos Silva e Gabriel Ferrandini são as cartas fortes da 17ª edição dos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra. Em Outubro vamos ouvi-los, e a muitas outras propostas, em vários espaços da Cidade Universitária…

Este ano com um total de 16 concertos, o Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra propõe-se mais uma vez (a 17ª) cumprir, entre os próximos dias 18 e 27 de Outubro, a missão a que desde o início de propõe, «divulgar simultaneamente a riqueza da tradição e os muitos caminhos do futuro, abrindo portas à experimentação e à contaminação entre diferentes abordagens musicais». Para tal apresenta um programa que tem como cabeças-de-cartaz Steve Coleman com os seus Five Elements, Fred Frith em trio, o celebrado quarteto de Rodrigo Amado com Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano, a nata do jazz criativo que se pratica na Holanda, com Michael Moore e Wilbert De Joode na dianteira da comitiva escolhida pelo colectivo DOEK, e ainda, entre as várias participações portuguesas, as do consagrado Carlos “Zíngaro”, de Gabriel Ferrandini e das jovens integrantes do projecto Lantana.

A abertura faz-se, a 18 de Outubro, no Convento de S. Francisco, com o galego Alberto Conde a apresentar a homenagem a Bernardo Sassetti que este ano editou em disco com Carlos Barretto e Alexandre Frazão. O repertório inclui versões de temas do próprio Sassetti e outros inspirados no malogrado pianista. Depois, na mesma noite, mas no Salão Brazil, toca a primeira de várias formações com músicos holandeses, neste caso incluindo alguns nomes em destaque no nosso país. O Luso-Dutch Large Ensemble terá os préstimos de Carlos “Zíngaro”, Helena Espvall, Marcelo dos Reis, Jasper Stadhouders, Marta Warelis, Hugo Antunes, Wilbert De Joode, Michael Moore, John Dikeman, Luís Vicente e Onno Govaert. O concerto incluirá a interpretação de composições, bem como improvisações estruturadas e até conduzidas por alguns dos seus protagonistas.

No dia seguinte, a sucessão de actuações começa a meio da tarde, com um solo do guitarrista Jasper Stadhouders nos corredores da Rádio Universidade de Coimbra. Como é habitual com este membro dos Made to Break de Ken Vandermark, alguma sonoridade do rock estará em causa. O festival muda-se depois para o Museu Nacional Machado de Castro, para se ouvir um quarteto inédito com “Zíngaro”, Warelis, Espvall e dos Reis, num “gig” que se prevê decorrer algures entre o camerismo improvisado e a formulação de um “folclore imaginário”. Nele se revelará, com certeza, a muito jovem pianista de origem polaca Marta Warelis, figura cada vez mais em foco na cena de Amesterdão. Ainda com o sol a raiar, a Casa das Artes Bissaya Barreto recebe o duo de Michael Moore e Hugo Antunes. O saxofonista e clarinetista nascido na Califórnia, mas fixado na Holanda desde a década de 1980, tem um longo currículo que o colocou ao lado de Han Bennink e Ernst Reijseger no Trio Clusone ou de Fred Hersh e Mark Helias, pelo meio dedicando-se também a reinterpretar as canções de Bob Dylan sob a fórmula Jewels & Binoculars. O contrabaixista de Lisboa notabilizou-se tanto no “mainstream” do jazz como na música livremente improvisada, em associações com nomes como Agustí Fernandez, Paul Lovens, Giovanni Di Domenico e João Lobo.

À noite volta-se ao Convento de S. Francisco, onde se apresentam os Five Elements de Steve Coleman. São estes, para além do saxofonista líder, o trompetista Jonathan Finlayson, o “rapper” Kokayi (ouvimo-lo no Jazz em Agosto deste ano com Ambrose Akinmusire) e a secção rítmica de Anthony Tidd e Sean Rickman. Coleman é uma das personalidades maiores do jazz das últimas quatro décadas e também um dos seus grandes inovadores – desde o período do movimento M-Base, de que foi o principal mentor, vem colocando em prática um conceito que integra as diferentes vertentes musicais da diáspora afro-americana. E volta-se também, já perto da meia-noite, ao Salão Brazil, com o Twenty One Quartet de Dikeman, Vicente, De Joode e Govaert, já documentado em disco. O registo será de “fire music”, numa herança europeísta do legado vivo de Archie Shepp.

Fred Frith

Joe McPhee

Michael Moore

Wilbert De Joode (Sara Anke Morris)

Jasper Stadhouders

John Dikeman

 

Susana Santos Silva

Rodrigo Amado

Lantana

Maria Villanueva e Vânia Couto

Alberto Conde

Ka Baird

Porque é domingo, o dia 20 de Outubro terá apenas um concerto, com a prestação no Centro Norton de Matos da Orquestra de Jazz de Espinho, dirigida por Daniel Dias e Paulo Perfeito, com Mário Costa como convidado. O baterista do muito aclamado projecto Oxy Patina e do quinteto de Emile Parisien, com o qual, nestes últimos anos, conquistou o público e a crítica de França em concertos que tiveram como convidados Wynton Marsalis, Michel Portal e Joachim Kuhn, será o eixo de uma performance que ilustrará muito bem a relevância conquistada por esta “big band” nascida na Escola Profissional de Música de Espinho e que se vem dedicando a repertórios de autor e espectáculos multimédia e multidisciplinares.

Após uns dias de descanso, o Jazz ao Centro regressa a 25 de Outubro com uma mostra no Salão Brazil do resultado da residência artística que, no Verão passado, Maria Villanueva e Vânia Couto fizeram numa das aldeias do xisto, a Barroca, no contexto do XJazz, e que será brevemente publicado em CD. Com base nos cancioneiros tradicionais galego e minhoto, mas num formato em que o jazz está muito presente, as duas cantoras e guitarristas serão acompanhadas pelo vibrafone de Lucas de Centi, o baixo de Yoshida Carvalho e a percussão de Sandra Peréz. Uma corrida até ao Coola Boola Colab permitirá assistir logo depois à prestação das Lantana em variante de quinteto (Joana Guerra não poderá estar presente), com Maria do Mar, Helena Espvall, Maria Radich, Carla Santana e Anna Piosik a explorarem uma improvisação que tem tanto de paisagística quanto de imersiva. O grupo foi constituído na sequência de uma outra residência nas aldeias do xisto, há dois anos, em que do Mar, Radich e Guerra, entre outras, desenvolveram um intensivo trabalho com Joelle Léandre.

O serão desse mesmo dia arranca no Teatro Académico Gil Vicente com Fred Frith, acompanhado por Jason Hoopes no baixo eléctrico e Jordan Glenn na bateria, os mesmos que surgem no álbum “Closer to the Ground”. O guitarrista é outro dos ilustres desta edição dos Encontros de Coimbra, com um percurso que remonta aos anos 1970 com o grupo de rock Henry Cow e que passou pela sua participação nos Naked City de John Zorn. A música do trio assenta no som e na construção de texturas, optando por uma simplicidade de métodos que os resultados, sempre surpreendentes, contradizem. Uma nova mudança de cenário, para o Salão Brazil, fechará a noite com a apresentação ao vivo de outro trio, o de Susana Santos Silva no trompete com o saxofonista brasileiro Yedo Gibson e o baterista luso-catalão Vasco Trilla. O grupo esteve em gravações na Cidade Universitária, para um disco que terá como título “Fish Wool”.

As movimentações de dia 26 começam com Ka Baird em solo de voz, flauta e electrónica na Casa das Artes Bissaya Barreto, numa proposta de filiação dificilmente catalogável que tem a particularidade de recorrer a processamentos em tempo real. Ao mesmo tempo, decorre na Casa da Mutualidade uma sessão de poesia, com o nome declAMAR Poesia, dita por Vanda Ecm, Olga Coval, Catarina Matos, Lurdes Telmo e Rui Amado, com temática jazzística e o acompanhamento musical do violetista João Camões. Depois do jantar, Gabriel Ferrandini leva o seu “Volúpias” ao Salão Brazil, secundado pelo saxofonista Pedro Sousa e pelo contrabaixista Hernâni Faustino. Ouviremos pequenas peças em que está marcada a devoção do baterista do Red Trio e do Motion Trio de Rodrigo Amado pela história do jazz.

O fecho do Jazz ao Centro de 2019 ocorre no domingo 27, no Centro de Artes Visuais, com outro momento especial, o do retorno aos nossos palcos, um ano depois da publicação de “A History of Nothing”, do quarteto de Rodrigo Amado com o histórico Joe McPhee (que ouviremos em saxofone soprano e trompete de bolso), o contrabaixista Kent Kessler e o baterista Chris Corsano. O que quer dizer que o festival termina com fogo-de-artifício e ambiente de festa. De referir ainda que estes Encontros serão antecedidos, a 10 de Outubro, por um concerto no Convento de São Francisco do vencedor do primeiro concurso Cena Jovem Jazz.pt, Miguel Rodrigues, com réplicas a 14 de Novembro e 12 de Dezembro…