MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, 2 de Maio de 2019

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

Festa brava a Oeste

texto Rui Eduardo Paes

No ano em que comemora uma década de existência, o “congresso dos improvisadores” surge com uma edição especial que envolve cerca de 100 participantes dos mais variados países e uma série de nomes sonantes, que vão de Axel Dörner (foto acima), Biliana Voutchkova e Yedo Gibson aos “nossos” Carlos “Zíngaro”, Nuno Rebelo, Sei Miguel e Joana Guerra. No Oeste, a última semana de Maio e os dois primeiros dias de Junho vão ser de festa.

E eis que o mais idiossincrático dos festivais portugueses, o MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, chega à sua 10ª edição, este ano com um programa especial que ocupa toda uma semana, de 27 de Maio, segunda-feira, a 2 de Junho, domingo. O cartaz tem múltiplas secções, entre “workshops”, concertos sorteados, apresentações de grupos já existentes ou formados propositadamente para o efeito, ensembles de grande número, uma instalação sonora permanente e as míticas “jam-sessions” até ao raiar do dia, ocupando diferentes espaços daquela vila do concelho de Peniche – designadamente, a Conde Távora Taverna, o Vespa Clube do Oeste, as igrejas de S. José e S. Leonardo, o Armazém G.D.A., o C.I.A.B. e a Fonte Gótica.

A base será a de sempre: o auditório da Sociedade Filarmónica local. Presentes estarão figuras de relevo nos circuitos nacional e internacional da improvisação, como Axel Dörner, Biliana Voutchkova, Carlos “Zíngaro”, Sei Miguel, Stephen Shiell, Hannah White, Nuno Rebelo, Joana Guerra, Marco Scarassatti, Paulo Curado, Helena Espvall, Miguel Mira, Noel Taylor, Hernâni Faustino, os irmãos Yedo e Marcio Gibson, Francisco Andrade, Maria do Mar, Carlo Mascolo, Mestre André, Adriano Orrù, Silvia Corda, Ricardo Jacinto e Bernardo Álvares, entre um total de 100 participantes. Uma parte substancial deles de países como Grécia, Turquia, Brasil, Itália, Alemanha, França, Espanha, Reino Unido e Dinamarca, para só referir alguns.

O momento vai ser, muito naturalmente, de avaliação do impacto que tem tido, durante este tempo, aquele que a jazz.pt designou como “o congresso dos improvisadores”. Diz Paulo Chagas, em representação da entidade organizadora, a Zpoluras – Associação Cultural: «Têm acontecido por aqui coisas muito bonitas. Há um bom número de músicos de várias origens geográficas que vêm quase todos os anos, mas também são cada vez mais aqueles que se inscrevem na “open call” pela primeira vez. É para mim evidente que o MIA tem ajudado muitos artistas mais jovens a encontrarem a sua linguagem e a sua verdade. Acho que uma das principais características do encontro é o seu factor democrático: são todos tratados por igual, independentemente do nível de experiência que possuem ou da tendência estética que perseguem. Todos têm possibilidade de tocar com todos, pois não fomentamos privilégios nem vedetismos. O impacto que isto tem tido nos músicos é enorme. Um deles disse-me que aprendera mais num fim-de-semana de MIA do que em vários anos no conservatório. É isso que explica haver quem viaje milhares de quilómetros a expensas próprias, como aconteceu com o japonês Maresuke Okamoto, para vir à Atouguia e afirmar à chegada que se sente em casa.»

Um atractivo que o MIA tem para os participantes está nos contactos que nele se estabelecem, e o certo é que, ao longo destes 10 anos, novas formações e novos projectos nasceram dos grupos surgidos em sorteio no festival, com uma série de discos a documentarem esse facto. Exemplos são os álbuns “Rumor” de Marco Scarassatti, Eduardo Chagas, Gloria Damijan e Abdul Moimême, “The Sounding Door” de Guy-Frank Pellerin, Matthias Boss e Marcello Magliocchi ou “Liames” do Lisbon String Trio de Ernesto Rodrigues, Miguel Mira e Alvaro Rosso com Karoline Leblanc, bem como as parcerias desenvolvidas por João Pedro Viegas com o já mencionado Magliocchi e com Adriano Orrù e Silvia Corda ou de Miguel Mira com Carlo Mascolo. Os trios de Maria do Mar com Orrù e com Luiz Rocha e de Paulo Chagas com Samuel Hallkvist e Stephan Sieben foi no MIA que nasceram, assim como aconteceu com o exclusivamente português Free Pantone Trio, envolvendo Manuel Guimarães, Rui Sousa e João Valinho.

«Por tudo isto se pode dizer que há um antes e um depois da existência do MIA na música improvisada portuguesa e este não tem passado despercebido no estrangeiro: o conceito que estabelecemos está a ser reproduzido por outros festivais por essa Europa fora, decorrendo da iniciativa de improvisadores que tivemos entre nós», admite Chagas.

Neste contexto, o que vai ser o MIA de 2019? Serão quatro os dias de formação em regime de residência artística, embora se possa frequentar os “workshops” avulsamente. Os formadores serão Biliana Voutchkova (“Relation to Sound”), Axel Dörner (“Composition in Real Time”), Carlos “Zíngaro” (“O Eterno Idioma do Improviso”) e a dupla de Hanna White e Stephen Shiell, estes últimos em torno das metodologias “deep listening” de Pauline Oliveros. Estará patente uma instalação sonora criada por Nuno Rebelo, “Cosa Mia”, e será apresentado o novo livro de Juan Calvi, “De Gustibus sí Disputandum”.

Biliana Voutchkova

Marco Scarassatti

Nuno Rebelo

Carlos "Zíngaro"

 

Carlo Mascolo

Silvia Corda

Sei Miguel com Pedro Castello Lopes - foto de Vera Marmelo

Joana Guerra

Marcio Gibson

Paulo Chagas

Acrescenta Chagas: «Voltaremos a apostar num concerto para bebés, desta vez sob a orientação de Elisabetta Lanfredini, e recriaremos a versão dos PREC com o declamador Paulo Ramos que apresentámos na primeira edição do encontro. Como habitualmente, haverá uma série de grupos sorteados e ensembles, tal como as “jams” pelas noites dentro. Para os agrupamentos fixos temos três tipos de origem. Uma das partes surgiu através de convites que fizemos às associações nossas parceiras em França, Itália e Dinamarca, que trazem respectivamente Punk Puppets Ritual, Kerlox Dynamic 4tet e The Way Out. Outra resultou da carta branca que demos a alguns habituais colaboradores nossos e que se materializou nos Sereias do Porto, nos Uivo Zebra & Horns e nos Salomé. Alguns músicos propuseram-nos novos projectos: os Unknown Shores de Adriano Orrù, as Lantana de Maria do Mar e o quarteto de Pedro Castello Lopes com Sei Miguel, Fala Mariam e João Madeira. Teremos ainda os grupos criados pelos formadores dos “workshops”, como o duo de Dörner e Voutchkova (além dos concertos a solo que ambos farão também), o StringChamberPot de “Zíngaro” e os Blanc Sceol de White e Shiell.»

Paulo Chagas tem mais a anunciar: «Entendemos que a 10° edição merecia ser assinalada com a publicação de um livro de memórias. Chama-se “MIAMORIAL” e, tal como escrevi na sua introdução, fizemo-lo sem quaisquer pretensiosismos, mas certos do inegável valor deste registo documental e com uma enorme satisfação pelo cumprimento da tarefa. Para tal, desafiámos diversos músicos e outros colaboradores para escreverem o seu testemunho sobre o modo como têm vivenciado o nosso encontro, dando-lhes total liberdade quanto ao conteúdo, ao tamanho e à forma de apresentação dos textos. O resultado encontra-se nas páginas que se seguem ao meu próprio relato, nas quais tentei fazer uma espécie de cronologia do festival. As fotografias, componente indispensável do documento, são, na sua quase totalidade, da autoria de José Félix da Costa, figura presente desde a primeira hora do MIA. A parte gráfica conta ainda com as belíssimas ilustrações de Rita Frazão e com os carismáticos cartazes da minha filha Daniela Chagas.»

Mais uma vez, o Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia conta com os apoios da junta de freguesia da vila e da Sociedade Filarmónica, ambos «na medida das suas possibilidades», mas cientes da importância do evento. Falta que o município de Peniche tenha a mesma clarividência e cumpra o seu papel: «Infelizmente, neste aspecto estamos muito mal. A Câmara Municipal de Peniche ignora-nos normalmente ou então promete apoios que acaba por reduzir a níveis pouco mais do que insignificantes, pelo que já desistimos de lhes pedir. Temos tido igualmente o suporte de algumas empresas e associações que, de uma forma ou de outra, nos ajudam a superar dificuldades. E também da Antena 2, que desde há cinco anos tem feito uma óptima divulgação do MIA.»

O envolvimento da população, esse, é o normal quando se trata de música improvisada. «Se é verdade que em Viena, em Amesterdão e em Lisboa já estive em concertos que tinham apenas uma dezena de pessoas a assistir, alegra-me termos conseguido encher as igrejas aqui da região Oeste. Note-se que o encontro é muito exigente para o espectador, em termos de concentração e de atenção, tais são a diversidade musical, as constantes mudanças de palco e a duração do evento. Acaba por ser algo esgotante. Ainda assim, há pessoas que ficam atentas do primeiro ao último minuto. E o número de não-músicos na assistência tem vindo a crescer nos últimos anos.» 

Passados 10 anos, são muitas as expectativas quanto ao futuro, ainda que dentro do quadro de programação estabelecido. «No início não imaginávamos que isto pudesse crescer assim tanto, mas mantivemos o mesmo esqueleto, ainda que com as variáveis que foram introduzidas ano após ano. Chegámos a pensar em fazer alterações de fundo, mas por exigência dos músicos voltámos sempre a fidelizar a estrutura. Toda a gente gosta de entrar nos sorteios: a adrenalina que daí advém é inigualável», conta Paulo Chagas, ele próprio um dos intervenientes musicais no MIA, à semelhança do seu parceiro na Zpoluras, Fernando Simões. «Um dos próximos passos relativamente à nossa ligação com a Sociedade Filarmónica de Atouguia da Baleia será trazer os músicos da filarmónica para o festival. Essa ideia é-nos particularmente cara, pois foi nela que começámos ambos antes de continuarmos os nossos estudos. Continuaremos a fazer ramificações do MIA ao longo do ano, com a retoma do Música ao Ocaso e o prosseguimento do Outonal, bem como com os concertos no Covil, em Peniche, e com o ciclo de música de câmara contemporânea nas igrejas da região. É muita, a nossa vontade de irmos alimentando culturalmente a zona Oeste e mantermos acesa a chama da música criativa. Já é absolutamente normal a existência de concertos de free improv por aqui. As pessoas falam connosco sobre o que ouvem e perguntam-nos coisas. Esta música conquistou definitivamente o seu espaço e já ninguém olha para os seus intérpretes como se tivessem saído de um ovni.»

O programa de trabalhos está assim estabelecido:

27 de Maio – “Relation to Sound”, “workshop” de Biliana Voutchkova (14h30, Conde Távora Taverna); “Cosa Mia”, inauguração da instalação sonora de Nuno Rebelo (18h00, Vespa Clube do Oeste); Biliana Voutchkova - violino (22h00, Igreja de S. José)

28 de Maio – “Relation to Sound”, “workshop” de Biliana Voutchkova (14h30, Conde Távora Taverna); “De Gustibus sí Disputandum”, apresentação do livro de Juan Calvi (21h45, Conde Távora Taverna); “The Flow of the Music Making”, concerto com os participantes do “workshop” “Relation to Sound” (22h15, Conde Távora Taverna)

29 de Maio – “Composition in Real Time”, “workshop” de Axel Dörner (14h30, Conde Távora Taverna); Biliana Voutchkova - violino / Axel Dörner - trompete (22h00, Igreja de S. José)

30 de Maio – “Deep Listening”, “workshop” de Stephen Shiell e Hannah White (10h00, Conde Távora Taverna); “O Eterno Idioma do Improviso”, “workshop” de Carlos “Zíngaro” (14h30, Conde Távola Taverna); Blanc Sceol – Hannah White: voz; Stephen Shiell: electrónica (22h00, Conde Távora Taverna); “jam-session” (23h30, Armazém G.D.A.)

31 de Maio – Punk Puppets Ritual – Elena Waclawiczek: dança; Uygur Vural: violoncelo; Yoram Rosilio: contrabaixo (15h00, Sociedade Filarmónica); grupos sorteados (16h00, Sociedade Filarmónica); Lantana – Maria do Mar: violino; Joana Guerra: violoncelo; Helena Espvall: violoncelo; Maria Radich: voz; Anna Piosik: trompete; Carla Santana: electrónica (19h00, Sociedade Filarmónica); Unknown Shores – João Pedro Viegas: clarinetes baixo e soprano; Silvia Corda: piano; Adriano Orrù: contrabaixo; Marco Scarassatti: esculturas sonoras (21h30, Sociedade Filarmónica); Sereias – António Pedro Ribeiro: voz; Kenneth Stitt: voz; Sérgio Rocha: guitarra; Nils Meisel: sintetizadores; Tommy Hughes: baixo; João Pires: bateria; Fredera: percussão; Celestino Monteiro: fotos e filmes (22h15, Sociedade Filarmónica); Ensemble MIA (23h00, Sociedade Filarmónica); “jam-session” (24h00, Armazém G.D.A.)

1 de Junho – Elisabetta Lanfredini Ensemble: Concerto para Bebés – Elisabetta Lanfredini: voz, direcção; Maria do Mar: violino; Uygur Vural: violoncelo; Luís Guerreiro: trompete; Marco Scarassatti: esculturas sonoras; Erwin Toul: percussão (10h30, C.I.A.B.); Uivo Zebra & Horns – Jorge Nuno: guitarra; Hernâni Faustino: baixo; João Sousa: bateria; Pedro Arelo: saxofone barítono; Paulo Galão: saxofone tenor (15h00, Sociedade Filarmónica); grupos sorteados (16h00; Sociedade Filarmónica); StringChamberPot – Carlos “Zíngaro”: violino; David Alves: violino; Ulrich Mitzlaff: violoncelo; Alvaro Rosso: contrabaixo (19h00, Igreja de S. Leonardo); PREC – Paulo Ramos: voz; Paulo Chagas: oboé, flauta; Fernando Simões: trombone; Paulo Duarte: guitarra; Paulo Pimentel: piano; Miguel Falcão: contrabaixo; Pedro Santo: bateria (21h30, Sociedade Filarmónica); Axel Dörner – trompete, electrónica (22h15, Sociedade Filarmónica); Ensemble MIA (23h00, Sociedade Filarmónica); “jam-session” (24h00, Armazém G.D.A.)

2 de Junho – Kerlox Dynamic 4tet – Carlo Mascolo: trombone preparado; Angelo Manicone: saxofone tenor; Domenico Saccente: acordeão, piano; Felipe Furioso: bateria, rádio preparado (15h00, Sociedade Filarmónica); grupos sorteados (16h00, Sociedade Filarmónica); Salomé – Ricardo Jacinto: violoncelo, electrónica; André Calvário: baixo; Patrícia Guerra – bateria (19h00, Fonte Gótica); The Way Out – T.S. Hawk: saxofone alto; Mads Egetoft: saxofone tenor; Jonathan Aardestrup: baixo; Jens Lopes: bateria (21h30, Sociedade Filarmónica); Quarteto do Pedro – Pedro Castello Lopes: percussão; Sei Miguel: trompete de bolso; Fala Mariam: trombone alto; João Madeira: contrabaixo (22h15, Sociedade Filarmónica); Ensemble MIA (23h00, Sociedade Filarmónica); “jam-session” (24h00, Armazém G.D.A.)

 

Para saber mais

http://mia-festival.blogspot.com/