Jazz ao Centro, 10 de Outubro de 2018

Jazz ao Centro

Coimbra vai receber três mulheres do jazz

texto Rui Eduardo Paes

A 16ª edição do festival de Coimbra acontecerá, mais uma vez, em vários espaços da cidade e juntando muito diferentes tendências do jazz, com incidência tanto para o internacional como para o nacional. O programa tem três mulheres em destaque: Carla Bley (foto acima), Sylvie Courvoisier e Mary Halvorson. Novidade absoluta é a estreia de um novo projecto: o Cena Jovem Jazz.pt.

Já foi um dos (muitos) festivais de Primavera e Verão e hoje é um dos (poucos) que marcam a “rentrée” do jazz ao vivo em cada ano, tendo mudado de Junho para Outubro. Depois de realizadas 15 edições, o Jazz ao Centro volta a apresentar uma programação que junta a tradição e as correntes mais exploratórias deste género musical e distribui-se por vários espaços da cidade de Coimbra. De 17 a 27, decorrendo durante dois fins-de-semana, os também conhecidos como Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra têm como destaques Carla Bley (com Steve Swallow e Andy Sheppard), a dupla de Sylvie Courvoisier e Mary Halvorson e o trio LAN de Mário Laginha, Julian Arguelles e Helge Norbakken. E vêm com uma novidade: o arranque do projecto Cena Jovem Jazz.pt, promovido para dar resposta às necessidades dos músicos e compositores nacionais com menos de 25 anos de idade, dando-lhes oportunidades de criação, edição discográfica, promoção e circulação nacional – é o que acontecerá com a residência artística e o concerto final do Fragoso Quinteto.

O início faz-se, no final da tarde de 17 de Outubro, com o duo feminino formado por Sylvie Courvoisier e Mary Halvorson, estreado em 2017 pelo álbum “Crop Circles”. O concerto terá lugar no Museu Nacional Machado de Castro, o ideal para uma música de carácter intimista que congrega os particulares conceitos de uma pianista (Courvoisier) que vem impondo o seu nome ao lado de Mark Feldman, à frente de um trio em que encontramos Drew Gress e Kenny Wollesen ou em associação com Ikue Mori e Susie Ibarra, e de uma guitarrista (Halvorson) que começou por ser intérprete de Anthony Braxton e John Zorn e hoje é uma figura de topo, com uma abordagem única ao seu instrumento.

No cenário do Salão Brazil, segue-se na noite seguinte a cooperativa de improvisação constituída por três dos protagonistas da cena a que a revista Wire chamou de “new Lisbon jazz avant-garde”, designadamente Pedro Sousa (saxofone tenor), Rodrigo Pinheiro (piano) e Gabriel Ferrandini (bateria). O grupo esteve em residência no Barreiro o ano passado, a convite dos organizadores do Out.Fest, e volta e meia apresenta-se em concerto, tendo ganho uma identidade musical muito própria que a distingue de outros investimentos destes músicos, designadamente o Red Trio, integrado pelos dois últimos, a já longa parceria de Sousa com Ferrandini ou os Eitr do primeiro.

A 19, também no incontornável Salão Brazil, apresentam-se os Centauri de André Fernandes, com os saxofonistas João Mortágua e José Pedro Coelho, o contrabaixista Francisco Brito e o baterista João Pereira a juntarem-se ao guitarrista líder para tocarem as suas composições. O repertório terá como base aquilo que se ouve em “Draco”, um jazz actual que ora integra a energia do rock, ora é contemplativo. Por coordenadas semelhantes se rege o grupo que sobe ao palco, no mesmo local, no dia 20, mas este é de uma geração anterior e tem uma rodagem de duas décadas: Lokomotiv, a saber Carlos Barretto (contrabaixo), Mário Delgado (guitarra) e José Salgueiro (bateria). Também eles têm disco novo, o muito celebrado “Gnosis”, e este será a base do que se ouvir.

Courvoisier / Halvorson por C. Mardok

Fragoso Quinteto por Maria Bicker

André Fernandes Centauri por Tiago Machado

João Mortágua por João Duarte

Paisiel por Nicolas Rabot

Corda Bamba por João Duarte

Depois de uns dias de folga, o festival volta a agitar a Cidade Universitária a 25 de Outubro, e mais uma vez no Salão Brazil. O Fragoso Quinteto mostrará porque foi escolhido para abrir a Cena Jovem Jazz.pt, iniciativa desenvolvida a partir desta mesma revista “online” com vista a contrariar a falta de oportunidades com que os jovens músicos de jazz portugueses se deparam quando saem dos cursos profissionais e das escolas superiores. O dito quinteto é comandado por João Fragoso, jovem contrabaixista de Coimbra que muito promete, e com ele estarão outros valores em revelação, como o trompetista João Almeida, o guitarrista João Carreiro e o baterista Miguel Fernandes, mais um veterano, o catalão Albert Cirera, nos saxofones tenor e soprano. A partir de dia 22 a formação gravará um disco que será publicado pela JACC Records, a editora mantida pela entidade que organiza os Encontros, o Jazz ao Centro Clube.

O final da tarde de dia 26 será de maratona no centro histórico de Coimbra. Primeiro, o Colégio do Espírito Santo revela os resultados de um “workshop” orientado por Cheila Pereira com o Clube Património da Escola Eugénio de Castro, o Satélite Jazz. Depois, no Colégio da Graça, João Mortágua desvenda o seu novo projecto a solo, Holi, aos seus saxofones juntando flautas, melódicas e processadores electrónicos. Prometida está uma viagem sónica que «parte da ideia holística de celebração das cores como veículo de descoberta do caminho para a libertação cósmica». Finalmente, no Colégio de São Pedro, estará o duo Paisiel, de João Pais Filipe (bateria, percussão) e Julius Gabriel (saxofones tenor e barítono), para uma prestação que irá mais além do jazz, mas tem igualmente as estrelas como inspiração, «enquanto música radiográfica que habita algures na zona intermédia entre a recepção e a emissão de sinal, como uma central telefónica do cosmos».

No mesmo dia, mas a começar o serão e no outro lado do Mondego, no Convento de S. Francisco, chega o Carla Bley Trio. Com esta banda, a histórica pianista e compositora tem confirmado ao longo dos últimos 20 anos que não é apenas uma criadora de universos orquestrais, tendo também boas ideias para uma música que se pretende diminuída nos seus recursos, despojada, límpida e introspectiva. O último título com este formato, “Andando el Tiempo”, de 2016, tem até uma tónica de mistério que só um trio sem bateria poderia congeminar. O entrosamento de Bley com o baixista Steve Swallow e o saxofonista – agora residente em Portugal – Andy Sheppard é enorme e explica muito do que conseguem fazer ao vivo. À noite também, mas no Salão Brazil, vez depois para o saxofonista Desidério Lázaro tocar o seu “Moving”, mas com uma formação diferente da do disco: em vez de João Firmino, Francisco Brito e Joel Silva teremos os igualmente competentes Ricardo Pinheiro nas guitarras, António Quintino no contrabaixo e no baixo eléctrico e Diogo Alexandre na bateria. Para quem ouviu o dito, soará algo diferente.

O fecho do Jazz ao Centro faz-se com duas outras aliciantes propostas. Numa segunda ida ao Convento de S. Francisco, iremos ao encontro dos LAN, trio transnacional que encantou os apreciadores do jazz com o recente “Setembro”. Nas mãos de Mário Laginha (piano), Julian Arguelles (saxofones soprano e tenor) e Helge Norbakken (bateria, percussão) cada construção a três é um gesto, como se a música fosse desde logo dança. Elegantes, inventivos e de uma desconcertante beleza, os temas que iremos ouvir não deixam ninguém indiferente. Depois, no Salão Brazil, actua o grupo Corda Bamba, no qual dois portugueses, Hugo Antunes (contrabaixo) e Luís Vicente (trompete), contracenam com três ilustres do circuito internacional, designadamente o pianista Alexander Hawkins, o saxofonista tenor John Dikeman e o baterista Mark Sanders. É uma versão ligeiramente diferente do quinteto que esteve em residência nos Encontros do ano passado, com Sanders a substituir Roger Turner, mas com o mesmo tipo de enfoque: a livre-improvisação. Na circunstância será lançado, pela JACC Records, o disco então gravado.

O 16º Jazz ao Centro terá mais a acontecer para além dos normais concertos… Para espevitar a curiosidade dos conimbricenses, nos dias 13, 15 e 16 de Outubro haverá o Próxima Paragem: Jazz, ou seja, uma série de miniconcertos nos autocarros de Coimbra. No Convento de S. Francisco, estreia-se a 26 e 27 um novo espectáculo didáctico, promovido pelo Serviço Educativo do Jazz ao Centro Clube: “Boca de Incêndio” conta com os préstimos de Yaw Tembe, Raquel Lima e Sebastião Bergmann. Na manhã de 27, Laginha, Arguelles e Norbakken farão uma “masterclass” no mesmo local.

 

Para saber mais

https://www.facebook.com/jazzaocentro/