Jazz em Agosto, 3 de Julho de 2018

Jazz em Agosto

John Zorn: resumo e perspectiva

texto Gonçalo Falcão

É a segunda vez que o festival da Gulbenkian homenageia John Zorn nos últimos cinco anos: em 2013, a pretexto do seu 60º aniversário, uma parte da programação foi-lhe entregue. Este ano temos uma edição totalmente zorniana, que chega ao detalhe de atribuir a imagem gráfica à “designer” Heung-Heung Chin, responsável pelas capas mais recentes da sua editora (boa notícia, dado que a imagem do festival tem sido de uma pobreza de ideias confrangedora). 22 concertos e seis filmes depois, as férias impor-se-ão por receita médica. Ficam aqui as nossas recomendações.

A história do jazz pode ser contada através dos nomes de alguns músicos. Em cada geração, em cada período, há sempre um nome que se antecipa e abre uma porta que ninguém tinha reparado existir. Precisamos de tempo e distanciamento para poder perceber a posição de John Zorn nessa galáxia de inovadores, mas hoje podemos afirmar com segurança que é um dos nomes mais significativos, senão o mais importante, do jazz dos anos 90 do século passado. Foi quem mais contribuiu para inovar o jazz, introduzindo ideias inovadoras como a compressão do tempo, o “zapping” e a introdução de processos internos de condução da improvisação (baseados em jogos).

Menos interessantes (mas mais presentes), temos a inserção declarada das melodias klezmer na composição jazzística, a recolocação dos blues, do hardcore (punk) e da música popular e de cinema no jazz. Zorn foi ainda o centro aglutinador da música nova-iorquina da década de 1990, que nessa altura voltou a assumir um papel central no mapa do jazz mundial. É também importante referir que ele foi um precursor no controlo dos meios de edição e distribuição (à semelhança do que já tinha feito Frank Zappa) no jazz: percebeu rapidamente que o formato CD iria permitir que os músicos editassem e controlassem o seu próprio negócio de venda de discos e criou a Tzadik, a sua editora.

Dito assim parece uma obra atlante. Contudo, a Tzadik foi desaparecendo enquanto editora de referência, em parte pela edição excessiva – mais de 15 discos por ano só de John Zorn, muitos dos quais dizendo a mesma coisa de formas diferentes. Nas listas dos melhores discos do ano de diversas publicações internacionais serão raríssimos os discos da “label” nos últimos anos. Se no início a marca conseguia atrair uma série de nomes interessantes e emergentes, as edições de 2016 e 2017 mostram que hoje há menos entusiasmo pela novidade. A maçada de ouvir 42 edições de Masada ou 32 de “Book of Angels” fica para os fãs completistas (que os deve haver). Ironicamente, os discos mais significativos de John Zorn parecem ter ficado com a Avant e com a Elektra/Nonesuch: “Cobra”, “Naked City”, “Big Gundown”, “Spillane”, “Song X”, “News For Lulu”, “Yankees”.

Nunca o Jazz em Agosto tinha sido dedicado a um só músico, mas a ideia parece interessante. no sentido de acelerar a vontade de internacionalização do evento que até agora não deu resultados visíveis (excepção feita às críticas em publicações internacionais por jornalistas que viajam a expensas do próprio festival). Zorn é uma estrela internacional e atrai facilmente as atenções. 

Zorn em palco

Com Thurston Moore 

Masada

Para quem quer mesmo ver o saxofonista ao vivo, fica desde já o aviso: Zorn tem esgotado sempre os concertos na Gulbenkian e por isso é correr para os papelinhos que garantem os dias 27, 28 e 29 de Julho. No primeiro dia tocará com Thurston Moore em guitarra eléctrica e Milford Graves na bateria. Conhecemos a gravação com o guitarrista, mas em trio com Graves na bateria será uma novidade. Antecipa-se energia, intensidade e rock para meninos (longe da brutalidade dos Painkiller). Dia 28 será uma noite incrível, com dois quartetos extraordinários: o primeiro com Mary Halvorson (ver em baixo), o segundo com Zorn a liderar os Masada (com a formação inicial que veio até Lisboa e Matosinhos: Dave Douglas no trompete, Greg Cohen no contrabaixo e Joey Baron na bateria). Os Masada foram o primeiro grupo com que Zorn explorou a ideia de introduzir as escalas da música tradicional klezmer no jazz. Com esta dose dupla vamos sair do Auditório ao Ar Livre com vontade de ocupar um território. No dia 29, às 21:30, no Grande Auditório, o mesmo Zorn tocará orgão de tubos acompanhado por Ikue Mori no computador portátil.

Zorn em pauta

 Mary Halvorson

Kris Davis

John Medeski (Medeski Trio, Simulacrum)

Craig Taborn

Trey Spruance (Secret Chiefs 3)

Presente enquanto compositor, a sua música far-se-á ouvir logo no dia 28, antes do concerto dos Masada, pelo quarteto de Mary Halvorson (com Miles Okazaki, Drew Gress e Tomas Fujiwara). Tocará “Book of Angels” (composições em escalas típicas da música tradicional judaica, Vol. 32...). Começará então uma mini-maratona de “Bagatelles” (pequenas peças): dia 30, a primeira parte, pelo Nova Quartet (John Medeski, Kenny Wollesen, Trevor Dunn e Joey Baron) e pelos Asmodeus (Marc Ribot, Trevor Dunn e Kenny Grohowski). O baixista Trevor Dunn é um dos mais fiéis colaboradores do saxofonista (como Mori) e é a charneira entre estes dois grupos que instrumentam estas composições e que são também uma oportunidade de ouvir dois bateristas de excepção: Joey Baron e Kenny Grohowski.

No dia 1 vem a segunda parte, pelo Kris Davis Quartet e pelo John Medeski Trio. A pianista que lidera o primeiro grupo é uma das vozes mais interessantes do instrumento na actualidade e o quarteto integra a guitarra de Mary Halvorson, Drew Gress no contrabaixo e Kenny Wollesen na bateria. O trio de John Medeski tem como armas o órgão Hammond, a guitarra eléctrica e a bateria. A 4, a terceira parte das “Bagatelles” estará entregue a Craig Taborn e ao Brian Marsella Trio. Neste dia os pianos dominam, começando com Taborn a solo (logo por isso vale o concerto, mesmo que o encontremos espartilhado pelo colete judaico), seguindo-se o pianista Brian Marsella num trio clássico de contrabaixo e bateria. Tocar-se-á ainda no concerto da tarde (ver em baixo), “Bagatelles and Apparitions”.

O palco principal do festival recebe no dia 31 de Julho o grupo Simulacrum (Medeski, Grohowski e Matt Hollenberg), com órgão, guitarra e bateria a queimarem neurónios. É de levar creme Nivea. Dia 2 de Agosto teremos os Highsmith, que do duo do disco passam a trio ao vivo: Mori no portátil, Taborn no piano e Jim Black na bateria). No dia 3 tocam os Insurrection, um projecto novo montado por Zorn, com duas guitarras eléctricas, baixo e bateria (Hollenberg, Dunn, Grohowski e Julian Lage). Antecipa-se muita mistura de referências e “zapping”. Finalmente, no dia 5, os Secret Chiefs 3 (um septeto com Trey Spruance, Matt Lebofsky, Eyvind Kang, Jason Schimmel, Shanir Blumenkranz, Kenny Grohowski  e Ches Smith) tocam Masada. Liderado pelo guitarrista (ex-Mr. Bungle), o grupo promete mais uma noite de música feita de colagens, do surf rock ao death metal, do Médio Oriente à música para cinema. Para encerrar o festival em festa. 

Tardinés escutantes

Robert Dick

Dither

O auditório 2 tem sido palco de muitos dos mais interessantes concertos do festival. Remetido falsamente para um papel menor, é um risco que quase sempre vale a pena. Este ano recebe seis concertos, como habitualmente às 18h30. Dia 30 tocam os portugueses The Rite of Trio; ouvimo-los já ao vivo no festival de Portalegre e são um dos grupos mais interessantes do jazz português actual. André Silva, Filipe Louro e Pedro Melo Alves tocam uma música que comprime e articula várias referências sem preocupações de categorização musical, em que cada elemento vale por si e pelo todo. Saem fora do alinhamento zorniano, mas incorporam algumas das suas ideias, como por exemplo a aglomeração de músicas.

Dia 1 de Agosto toca o flautista e compositor Robert Dick. Perdi o rasto a este músico nos anos 1990, quando lançou alguns discos muito bons. Tem uma grande técnica instrumental e boas ideias musicais. A 2 o nacional é novamente bom com os Slow is Possible, que vêm de dois concertos extraordinários no Seixal e em Portalegre. A música gravada em disco está a ficar cada vez melhor com a prática ao vivo e, tal como os portuenses do dia 30, incorporam processos zornianos na sua escrita. Dia 3, o quarteto de guitarras eléctricas Dither toca as “Game Pieces” de Zorn. O quarteto está focado na execução de peças para guitarras eléctricas, compondo por encomenda ou interpretando. Dia 4, o trio Trigger (guitarra, baixo e bateria) promete mais rockalhada com as “Bagatelles and Apparitions” de Zorn. Dia 5, dia do encerramento, os guitarristas Julian Lage e Gyan Riley (filho de Terry Riley, que também toca nos Dither) apresentarão composições de Zorn tocadas em duas guitarras acústicas.

Outros destaques

 Barbara Hannigan

Tanto quanto me consigo lembrar, o Grande Auditório da Gulbenkian ainda só tinha tocado jazz com Ornette Coleman e com o Julius Hemphill Sextet, mas este devido à chuva. Este ano acolhe três concertos no mesmo dia. A 29 de Julho, The Hermetic Organ (ver em cima); o filme “John Zorn (2016-2018)”, de Mathieu Amalric (com a presença do realizador e entrada gratuita) e “Jumalatteret”, às 19:30 (também com entrada gratuita), estreia europeia deste ciclo de canções para voz e piano inspirado no épico finlandês “Kalevala”, com música de Zorn, interpretado pelo soprano Barbara Hannigan e pelo pianista Stephen Gosling. 

Música para os olhos

 Ikue Mori

Tem sido prática desde o início do festival a apresentação de filmes, documentários e outros registos (incluindo “live radio”) que ajudam a contextualizar os músicos e a música tocada no jazz da Gulbenkian. Neste contexto serão exibidos filmes da editora Tzadik, como habitualmente na Sala Polivalente do ACARTE, às 17:00 e 18:30, com entrada gratuita: dia 31, às 18:30, filme-concerto com Ikue Mori (a compor em tempo real a banda-sonora para “Pomegranate Seeds”, que visita um dos contos de “Tanglewood Tales”, de Nathaniel Hawthorne); dia 2, às 17h:  “Bhima Swarga — The Journey of the Soul from Hell Heaven”, igualmente de Ikue Mori; dia 3, “John Zorn The Book of Heads - 35 Études for Solo Guitar Performed by James Moore”, de Stephen Taylor; dia 4, “Celestial Subway Lines / Salvaging The Noise”, de Ken Jacobs; e dia 5, “Between Science and Garbage”, de Pierre Hébert com música de Bob Ostertag. 

Bilhética e outros desgostos

Os bilhetes para os dois primeiros dias são a €20 (Zorn / Moore / Graves a 27 e Mary Halvorson Quartet + Masada a 28). A18 euros, compra-se a entrada para os três concertos de “Bagatelles”. Bastam 15 euros bastam para assistir aos concertos de John Zorn & Ikue Mori, Simulacrum, Highsmith, Insurrection e Secret Chiefs 3. Por módicos 5 euricos o amante de boa música entra no Auditório 2. Para quem não pode dispender estes valores (ou não foi lesto o suficiente para garantir o seu lugar), a Gulbenkian, como sempre, admite a entrada gratuita (mediante levantamento de bilhete a partir de uma hora antes do início de cada evento) para os concertos de Barbara Hannigan & Stephen Gosling (dia 29) e em todos os filmes (incluindo o filme-concerto de dia 31).

Tal como na Carris, há a modalidade de passes: Anfiteatro & Grande Auditório (10 concertos) a 135 euros; passe fim-de-semana 1 (27, 28 e 29) a 45 euros; passe fim-de-semana 2 (3, 4 e 5 de Agosto) a 40 euros; e finalmente, passe Auditório 2 (30 de julho, 1, 2, 3, 4 e 5 de Agosto às 18h30) a 15 euros.

 

Para saber mais

https://gulbenkian.pt/jazzemagosto/