Festa do Jazz, 8 de Março de 2018

Festa do Jazz

Jazz nacional muda-se para o Bairro Alto

texto Rui Eduardo Paes

Agora desvinculado do Teatro Municipal S. Luiz, o festival que vem promovendo o que de melhor se faz em Portugal no que respeita ao jazz vai ocupar neste mês de Março vários espaços do Bairro Alto. O programa de concertos cobre as várias tendências do género, indo da poesia do projecto Brightbird de João Paulo Esteves da Silva (foto acima de Vitorino Coragem) até The Rite of Trio, com passagem, entre outros, por Maria João Ogre, João Barradas, Beatriz Nunes, André Fernandes Centauri e Rodrigo Amado.

Na sua 16ª edição, a Festa do Jazz deixa o S. Luiz (porque a direcção deste teatro assim o entendeu, descontinuando o festival da sua programação) para ocupar vários espaços do Bairro Alto, com concertos e “showcases” a realizarem-se no Museu de História Natural e Ciência e no Conservatório Nacional, neste também tendo lugar o habitual concurso de escolas e as “jam sessions”. Em termos de actuações ao vivo, o início faz-se na noite de sexta-feira 23 de Março para terminarem já na entrada da madrugada do domingo dia 25 para segunda, mantendo o espírito inclusivo que tem marcado a programação de Carlos Martins, com várias tendências do jazz nacional a fazerem-se representar.

São três as formações agendadas para a primeira sessão performativa, todas elas no museu. Primeiro apresenta-se o João Barradas Trio, com o jovem acordeonista a fazer-se acompanhar por dois outros músicos da nova geração, o contrabaixista André Rosinha e o baterista João Pereira. A música parte da tradição do jazz, em particular a deixada pelo bebop e pelo hard bop, mas com as características próprias da escrita de Barradas, muito actual e derivando de motivos retirados à música popular da Europa Central e ao novo tango de Piazzolla. Se o mesmo utilizar igualmente o acordeão MIDI, como nos seus Home, será possível ouvi-lo também com a sonoridade própria do Fender Rhodes, ampliando assim o espectro tímbrico ao dispor e a própria linguagem musical.

Segue-se o The Rite of Trio dos portuenses André Bastos Silva, Filipe Louro e Pedro Melo Alves com a sua imaginativa combinação de jazz e rock, em vésperas da gravação do disco que irá suceder a “Getting All the Evil of the Piston Collar!”. Adoptando o modelo de “power trio” com guitarra, contrabaixo e bateria, tanto serão de esperar momentos de distorção guitarrística como outros em que impere o mais característico “swing”. O serão termina com o PLINT, ou mais exactamente Pablo Lapidusas International Trio, formado pelo pianista argentino residente em Portugal (depois de muitos anos a viver no Brasil) que lhe dá nome com o baixo do cubano Leo Espinosa e com a bateria do português Marcelo Araújo. A rítmica de base latino-americana serve uma música com imprevisíveis mudanças de tempo ou mesmo com métricas simultâneas, capaz tanto de agitar os corpos como de desafiar as consciências.

No final da tarde de sábado, dia 24, a desfilada de concertos começa igualmente no Museu de História Natural com o Eduardo Cardinho Quarteto, juntando-se ao líder vibrafonista o acordeão de João Barradas, o contrabaixo de André Rosinha e a bateria de Bruno Pedroso. O repertório consistirá em composições escritas propositadamente para estes músicos e que será gravada em Julho com um quarteto de cordas adicional e o convidado Ben Van Gelder. O jazz em prática virá em continuação do que temos ouvido de Cardinho, seja nos seus próprios projectos como naqueles em que é “sideman” com responsabilidades solísticas: vivo, contemporâneo e muito afirmativo. Depois sobe ao palco um trio inédito que junta Rodrigo Amado (saxofone tenor), Hernâni Faustino (contrabaixo) e o canadiano Harris Eisenstadt (bateria), redux do quinteto que faz tempo a eles acrescentou Taylor Ho Bynum e Manuel Mota. Espera-se algo na fronteira do hard bop com o free jazz, em formato integralmente improvisado e com as marcas do gosto pessoal de Eisenstadt pelas músicas de África e de Cuba.

João Barradas

The Rite of Trio

PLINT

Rodrigo Amado por Vera Marmelo

Beatriz Nunes por Vera Marmelo

Maria João Ogre Trio

André Fernandes

À noite, vez para o Beatriz Nunes Quarteto, com a cantora e os seus acompanhantes, Luís Barrigas no piano, Mário Franco no contrabaixo e Jorge Moniz na bateria, a interpretarem canções que marcaram a MPP, de autores como José Afonso ou Fausto, para além de temas de Mário Laginha e João Paulo Esteves da Silva, tal como consta no álbum “Canto Primeiro”, saído já este ano. Estaremos perante (mais) uma abordagem ao jazz muito particular, de uma vocalista que passou pelos Madredeus e colaborou com músicos tão diferentes quanto Afonso Pais, Tiago Sousa e os que integram os Rite of Trio e que se tem interessado pela ópera. Maria João virá logo a seguir, com os Ogre reduzidos a trio, ou seja, com apenas voz e os teclados eléctricos e electrónicos de João Farinha e André Nascimento. Entre paisagismos analógico-digitais e “groove”, a fórmula coloca a muito aplaudida cantora num contexto que ainda pouco se lhe conhece. Uma ida ao Conservatório já depois da meia-noite permitirá uma audição do Combo da Escola Artística do Conservatório de Coimbra, que no ano passado se destacou na prova escolar da Festa do Jazz.

O último dia do festival, 25, não podia começar melhor, ainda no museu e pela tardinha, do que com o grupo que assinou um dos discos-sensação de 2017, “Brightbird”, o JPES Trio, com o pianista João Paulo Esteves da Silva, o contrabaixista Mário Franco e o baterista suíço Samuel Rohrer. Dedicado a uma improvisação que não segue as premissas do free jazz nem da chamada “música livremente improvisada”, a proposta define-se pelo seu carácter introspectivo e poético, aventurando-se por situações que têm tanto de misterioso quanto de onírico, levando-nos numa autêntica viagem por uma floresta de sons. Fica o apetite desperto para a apresentação de uma banda de André Fernandes, Centauri, que aposta igualmente em atmosferas enigmáticas. O guitarrista terá como companhia dois saxofonistas, José Pedro Coelho (tenor e soprano) e João Mortágua (alto e soprano), e a secção rítmica de Francisco Brito (contrabaixo) e do repetente João Pereira (bateria). Pelo que já se pode ouvir na Net, é uma novidade que valerá a pena descobrir.

Depois do jantar, chega o Ricardo Pinto Quinteto, no rescaldo da edição de “A Sul”. Com Ricardo Toscano no saxofone alto, Óscar Marcelino da Graça no piano, de novo André Rosinha no contrabaixo e Luís Candeias na bateria, o trompetista e mentor deste outro grupo de trabalho convida-nos a mergulhar num jazz europeísta de carácter cinematográfico que não perde em assertividade e sincopação, pelo caminho incorporando ingredientes de outros géneros musicais. O Alexandre Coelho Quarteto toca, após a necessária mudança de “backline”, um misto das composições do seu baterista para os CDs “Saturday”, “Sunday” e “Idiossyncrasies”, em associação com o sax alto de Mortágua, o piano de Gonçalo Moreira e o contrabaixo de João Cação. No âmbito da Festa do Jazz, é um regresso ao bop, mas esticando este para caberem outros ingredientes. Um salto ao Conservatório Nacional fica sugerido para fecho, com outro combo académico premiado, o da Escola Superior de Música de Lisboa.

Neste programa, há mais a referir. A 25 de Março, pelas 18h00, decorre no Conservatório de Música uma “masterclass” com o saxofonista britânico Andy Sheppard. Neste mesmo dia e à hora do almoço, no Salon Coeur de Fern, formaliza-se o arranque da Rede do Jazz Português, estrutura com que se pretende juntar os vários agentes do jazz nacional. No dia 24, ao início da tarde e no mesmo local, debate-se o tema “Jazz e Género”, com intervenções de Beatriz Nunes (autora do estudo “O Impacto das Construções de Género no Ensino e na Produção de Jazz”) e do autor deste texto. A 24 também, durante a tarde, realiza-se o Encontro Nacional de Escolas de Música. Tudo isto será antecedido por uma acção formativa na Universidade Lusíada, a 21 de Março, com o nome “Ser Músico de Jazz em Portugal”, com as participações de Carlos Martins, do crítico (Público) Gonçalo Frota e do editor (Clean Feed) Pedro Costa. Prevista está ainda uma nova edição dos Prémios RTP / Festa do Jazz.