Guimarães Jazz, 12 de Setembro de 2017

Guimarães Jazz

Um palco com 100 anos de discos

texto Gonçalo Falcão

E eis que se anuncia mais uma edição do festival de jazz da cidade-berço, este ano em comemoração dos 100 que conta já a edição discográfica. São estes – de Nels Cline à Secret Society de Darcy James Argue (foto acima por Ed Lefcowicz), passando pelos Mostly Other People Do The Killing e por Jan Garbarek – os concertos a que vamos assistir, como sempre no Centro Cultural Vila Flor…

«Ladies & Gentlemen, as you know we have something special down at Birdland this evening, a recording for Blue Note Records... How 'bout a big hand now...for Art Blakey!» A edição deste ano do Guimarães Jazz, um dos principais festivais do País, é dedicada ao disco de jazz. Sem ele, a música irrepetível, criada no momento, dificilmente se teria espalhado pelo mundo. É o disco que fixa esta música volátil e irrepetível e foi através dele que o festival começou por escolher os seus concertos e fazer com que hoje, 26 anos depois, continuemos a rumar a Guimarães anualmente.

Ainda bem que cidade berço está particularmente atenta às questões fundacionais. Antes do fonógrafo, para haver música era preciso haver músicos (com as excepções evidentes dos pianos mecânicos e outras invenções espúrias), mas a criação de Edison em 1877 assumiu-se como o meio fundamental para a circulação da música. Passou a ser possível ter música sem músicos e, depois da generalização da distribuição eléctrica, o registo melhorou drasticamente, permitindo viver a música com uma intensidade próxima do “ao vivo”. Para os amantes de jazz que não viviam na América, num período em que fazer viajar os músicos era um folguedo, o disco foi fundamental.

Segundo João Moreira dos Santos, o primeiro disco de jazz português (um dixieland mal compreendido e anacrónico do clarinetista Domingos Vilaça) foi lançado em 1957. Nesse ano já nós ouvíamos o “Call For All Demons” de Sun Ra e da sua Arkestra, o “St. Thomas” de Sonny Rollins e o “Jonaleh” do quinteto de Chico Hamilton, através dos discos que circulavam (com dificuldade, é certo).

Como o Guimarães Jazz chamou a atenção para a efeméride discográfica, vem a propósito referir que, desde 1900, alguns lojistas portugueses aventureiros começaram a vender a excentricidade das “machinas falantes” e os fregueses compraram-nas: as pioneiras Casa Santos Dinis, em Lisboa, e Centro Phonographico Portuguez de Ricardo Lemos, no Porto, rapidamente enfrentaram a concorrência, o que fez com que, em 1906, surgisse a primeira editora nacional – Discos Simplex. A crítica musical a discos em Portugal surgiu em 1928 no Notícias Ilustrado e Moreira dos Santos situa a primeira “jam session” pátria em 1948, ano em que foi fundado o Hot Clube em Lisboa. É pouco crível que assim tenha sido, porque não se fundaria um clube de jazz se não tivessem já ocorrido várias “jams” a confirmar a pertinência da inauguração de um espaço dedicado.

Do jazz podemos dizer que tem 200 000 anos, pois seguramente que as primeiras formas musicais usadas pelos Sapiens Sapiens foram improvisadas. Mas a primeira vez que o jazz foi fixado num suporte reprodutível foi em 1917. A Original Dixieland Jass Band gravou dois lados para a Victor Talking Machine Company: "Livery Stable Blues" e "Dixieland Jass Band One-Step", nos estúdios da Victor em Nova Iorque (vamos contornar as discussões historiográficas que afirmam que That Funny Jass Band From Dixieland" de Arthur Collins e Byron G. Harlan terá sido lançado antes do da ODJB pela Edison Blue Amberol, porque em ambos os casos concordamos no essencial: 1917 – 2017!

Amor e uma aula

 Nels Cline por Emon Hassan

Alongado em demasia o intróito, vamos dissecar o programa, que este ano propõe uma audição destes 100 anos de música: como habitualmente, o festival decorrerá em dois fins-de-semana em Novembro: de 8 a 12 e de 16 a 18. A melhor opção é a de ir aos dois fins-de semana, mas se a agenda ou a economia impuser constrangimentos, a sugestão da jazz.pt é que aposte no primeiro.

O concerto de abertura foi atribuído ao guitarrista americano Nels Cline (8 Novembro), que apresentará o seu muito celebrado projecto “Lovers”, acompanhado da Orquestra de Guimarães. Canções de amor, com uma orquestra extremamente classicista no som e nos arranjos e guitarra eléctrica solista. Sem luxúria, o disco soa extremamente engomado, como a roupa de um filme dos anos 1950 em “colour by deluxe”. Cline é um guitarrista ecléctico, participando tanto em projectos de improvisação total como em bandas de rock (Wilco, por exemplo). Originalmente composto para uma formação de 23 músicos, no Guimarães Jazz este “Lovers” será interpretado por um quinteto fronteado pelo guitarrista português Eurico Costa, acompanhado pela Orquestra de Guimarães, com direcção musical de Michael Leonhart.

O centenário será assinalado explicitamente no segundo dia (9 Novembro) com um espectáculo intitulado “Jazz – The Story” (09 novembro), desenvolvido pela All Star Orchestra, um ensemble encabeçado pelo saxofonista Vincent Herring e que integra o trompetista Jon Faddis, o saxofonista James Carter e o baterista Carl Allen, entre outros. É uma proposta musical didáctica e acessível em que Nicolas Bearde assumirá o papel de narrador e cantor e o grupo evoluirá por uma versão dos acontecimentos. A América tem uma longa tradição deste tipo de “aulas” musicais (Leonard Bernstein, etc.), pelo que se justifica a curiosidade quanto ao que este grupo fará.

No dia seguinte (10 Novembro) antecipa-se um momento muito especial, com o baterista Andrew Cyrille. Aos 76 anos, Cyrille mantém-se interessante, sempre mais preocupado com a forma do que com a manutenção de uma pulsação rítmica. Abstracto, o músico americano tem trabalhado primordialmente em contextos free (Cecil Taylor e Trio 3). O concerto de Guimarães assume o nome do seu último disco, com uma alteração no quarteto, entrando Ben Monder em substituição de Bill Frisell. É pena! No disco editado pela ECM no ano passado, e em particular nas improvisações colectivas, ouvimos o melhor de Frisell, coisa que já não escutávamos há algum tempo. Monder é também um excelente guitarrista, pelo que não ficaremos a perder muito com a troca. E estará envolvido Richard Teitelbaum, teclista vindo dos pioneiros Musica Elettronica Viva que no currículo tem tanto associações a Anthony Braxton como ao português Carlos “Zíngaro”. Este será certamente um dos momentos altos desta edição e um concerto obrigatório. 

Dripping sobre Seurat

Mostly Other People Do The Killing 

No dia 11, como habitualmente, teremos dois concertos, o da tarde e o da noite. Às 18:30 sobe ao palco o trio suíço VEIN com o saxofone tenor do americano Rick Margitza (que chegou a ter uma breve aparição ao lado de Miles Davis na digressão de “You Are Under Arrest”). VEIN são os irmãos Arbenz, com Florian na percussão e Michael ao piano, além de Thomas Lähns no contrabaixo. Todos os três são intérpretes de música clássica e contemporânea integrando orquestras europeias. Em paralelo, procuram uma carreira como músicos de jazz, num contexto conservatorial, rigoroso e cumpridor, como convém a um suíço. Margitza também alinha pela bitola classicista, pelo que poderemos esperar um concerto de jazz tocado com perfeição relojoeira, atenção ao detalhe e um cumprimento absoluto da música e das regras.

À noite ouviremos os Mostly Other People Do The Killing numa versão totalmente nova. Os MOPDTK foram até hoje um super-quarteto da nova geração: Peter Evans no trompete, Jon Irabagon nos saxofones, Moppa Elliott no contrabaixo e Kevin Shea na bateria. Agora são um septeto, com a saída de Evans e a ocupação do seu lugar por Steven Bernstein e a adição de Brandon Seabrook no banjo, Ron Stabinsky no piano e Dave Taylor no trombone. O quarteto foi sempre um exemplo de perfeição na mistura entre um jazz mais tradicional - be bop / hard bop – e as formas mais contemporâneas de improvisação. Neste formato alargado a primeira impressão é que a palavra “tradicional” recuou no tempo, para a era do swing (1920-1930), mantendo-se a intersecção com formas actuais, o rock inclusive: “dripping” sobre Seurat. “Loafer’s Hollow” é o disco mais acessível dos MOPTDTK até hoje – vamos ver como é que funciona em concerto.

A primeira parte encerra no domingo com a apresentação habitual dos alunos da ESMAE: o festival tem procurado desde há muito deixar sementes em cada edição e por isso os músicos contratados para as “jams” – este ano a cargo de Jeff Lederer e Mary LaRose – trabalham durante o dia com os alunos da escola, numa acção formativa assumida pelo festival e que deve ser relevada. Estes concertos, sempre muito concorridos, mostram os resultados desse trabalho.

À noite apresenta-se outro dos projectos mais subterrâneos do Guimarães Jazz: o impulso a associações de músicos portugueses. Começou por apoiar o colectivo Tone of a Pitch, que raramente apresentou propostas musicais e discográficas de relevo, estando nos últimos anos focado em ajudar a Porta-Jazz, esta dando provas de grande vitalidade e interesse. Nesta edição a proposta do colectivo portuense também se desenha potencialmente interessante, com a residência artística de uma semana do dramaturgo Jorge Louraço Figueira para a produção de um texto para a atriz Catarina Lacerda e um quarteto liderado por Nuno Trocado (guitarra), com Tom Ward (saxofones, flauta, clarinete baixo), Sérgio Tavares (contrabaixo) e Acácio Salero (bateria). O assunto central da residência é a exploração dos caminhos do som e da palavra. 

Um trunfo

Allison Miller

«As Eric Dolphy said 'Once you play the music, it's in the air. It's gone'. And that's true. But when you record it, it comes back to haunt you sometimes» - John Abercrombie. A segunda semana começa na quinta-feira, 16 de Novembro, com um trunfo: o regresso a Guimarães de Jan Garbarek. Já o ouvimos no mesmo palco, num concerto lotado mas que não deixou memória: tendo-o ouvido duas semanas antes em Vigo, percebi que Garbarek tinha o concerto “gravado” como se fosse um disco e a sua música saía, desalmada, como um contrato a cumprir. Dito isto, é preciso também não cometer a injustiça de não reconhecer que o saxofonista tem um som único e que o seu modo de tocar é capaz do melhor. (Levantei-me e fui colocar o “Paths, Prints” (1981) no prato e o “Dis” (1976) em lista de espera). Garbarek criou um universo sonoro muito próprio (que de alguma maneira associamos ainda hoje ao “som ECM”) e que – com os altos e baixos normais numa carreira musical de mais de 45 anos – continua a ser capaz de tocar lindamente. A Guimarães vem em quarteto com o baixista Yuri Daniel (que tinha acabado de entrar na banda da última vez que tocou no festival), Rainer Brüninghaus nos teclados e o grande Trilok Gurtu na percussão.

Na sexta toca a baterista Allison Miller  com o seu Boom Tic Boom, um sexteto com Myra Melford ao piano, Todd Sickafoose no contrabaixo, Charles BurnhaBen (que substitui Jenny Scheinman) no violino, Kirk Knuffke no fliscórnio e Ben Goldberg no clarinete. “Otis Was a Polar Bear” é o disco mais recente que estruturará o concerto. Depois de Allison, que lidera o grupo e compõe, Melford é o elemento fundamental desta equipa, actuando como um contrapeso relativamente à geral tendência para a formalização e a rigidez. Kirk Knuffke tem um som quente e tranquilo, que se cruza em uníssonos belíssimos com o clarinete.

O festival fecha no dia 18 de Novembro, e como habitualmente: o espectáculo da tarde é com o grupo que liderou as “jam sessions” e a formação aos alunos da ESMAE, designadamente o quarteto de Jeff Lederer / Joe Fiedler, com a participação especial de Mary LaRose. À noite, como sempre, uma formação orquestral, desta feita Darcy James Argue com a sua Secret Society. Conhecemos bem o álbum de 2009 desta, “Infernal Machines”, e desde então perdemos-lhe o rasto. Reencontrado este, verificamos que o seu líder continua no mesmo caminho, com uma música para grandes ensembles orquestrais e uma escrita barroca, intrincada e muito rápida. Mistura várias referências musicais, desde a salsa ao rock, num “zapping” constante e a grande velocidade. O grupo toca com uma precisão de máquina e a massa sonora é intersectada por solos e improvisações com mudanças constantes, colocando-nos no lugar do espectador de um filme de acção. Será um fecho em grande, orquestral como sempre e com uma proposta no mínimo curiosa.

Também como sempre, o festival não é só concertos: é desde logo a cidade de Guimarães, um dos mais belos lugares da Europa, felizmente ainda não turistizado como Lisboa. São parte do Guimarães Jazz as “after-hours” por vários lugares da cidade, o churrasquinho da cervejaria Martins, os “castelinhos” da pastelaria Gil Vicente, as tardes de sol com uma água tónica no Largo da Oliveira (não esquecer que estamos em pleno Verão de São Martinho), as exposições da Plataforma das Artes e da Criatividade, o Museu de Alberto Sampaio e um sem-número de outras preciosidades que fazem deste festival uma proposta irrecusável para uns dias no Shangri-La. Não se esqueçam de comprar os bilhetes “online”, porque muitos dos concertos esgotam. «I think all record companies should be run by a musician. Just as you wouldn’t trust your health to an electrician» - Paul Bley.

 

Para saber mais

http://www.ccvf.pt/