Rão Kyao: “Malpertuis” (Valentim de Carvalho)

Rão Kyao: “Malpertuis” (Valentim de Carvalho)

Valentim de Carvalho

Gonçalo Falcão

Apesar de haver quem alimente o equívoco que os dois singles de Domingos Vilaça da década de sessenta – “Charleston” (Alvorada – MEP 60 175) e “Dixieland” (Alvorada – MEP 60 011) – são o berço das gravações de jazz em Portugal, parece-me ser hoje pouco discutível que “Malpertuis” é o primeiro disco de jazz português. E é um começo em grande!

Instalado o equívoco importa fazer como à maionese: pô-la em pratos limpos: Vilaça ensaiou tocar (tosca e malinformadamente) ragtime e charleston de origem holandesa, numa tentativa comercial que não medrou (gravou dois singles em nome próprio, apenas um de dixieland). A orquestra de Vilaça era, essencialmente, uma unidade de acompanhamento de música ligeira para cantoras como Gina Esteves, Maria Adalgisa, Sara Chaves, Maria de Lourdes Resende ou Alberto Ribeiro e o dixieland foi uma tentativa numa música que desconhecia, usando como referencial as composições holandesas de Pierre Jean Carel Wijnnobel. Por sua vez, Wijnnobel e a sua orquestra (O.L.V. Pierre Wijnnobel) adaptavam composições originais americanas da década de 50 (recordemos que quando falamos de dixieland estamos a falar das décadas de 20 e 30 do século passado na américa). Já “Ronny Parker”, outro dos interpretados por Vilaça, não é mais nem menos que o trompetista belga Robert de Kers que gravou para a Telefunken com o seu grupo (Robert De Kers And His Cabaret Kings, Robert De Kers Et Ses Vibraswingers) temas de inspiração caribenha e ocupou um lugar estável na Orchester Eddie Tower (Emile Deltou). Vilaça não toucou jazz  música que desconhecia  mas sim uma versão europeia de dixieland. Tocou pouco (apenas 4 temas neste género).

Mesmo usando de muita flexibilidade histórica, dificilmente poderemos classificar o charleston como jazz. Não se poderá por isso afirmar que se trata dos primeiros registos de jazz português mas sim das primeiras gravações de música relacionada com o jazz feitos em Portugal (vou ignorar propositadamente a questão do flexidisc publicitário “Felizes Vamos, com a Shell Viajamos” da Orquestra de Jorge Costa Pinto e o “Óleo Shell 2T Em Ritmo Jazz” porque me parece excessivamente desnecessário desmascarar que não é “o primeiro disco com uma composição jazz escrita por um músico português” até porque a composição é gravada nos dois lados com ritmos diferentes (jazz e cha-chá-chá) e porque não basta imitar uma ideia do que seria um “ritmo de jazz” para ser jazz).

Definida a posição sobre estas questão das origens, podemos passar para o primeiro disco de jazz gravado em Portugal.

Rão Kyao, tinha 29 anos quando, no dia 17 de maio de 1976, entrou nos estúdios da Valentim de Carvalho para a primeira sessão de gravações. Foi acompanhado pela elite dos músicos do seu tempo e pautas escritas por si. No piano estava Tony Pinho Da Silva, (mais tarde António Pinho Vargas), no contrabaixo e baixo elétrico José "Boots" Eduardo (mais tarde Zé Eduardo), na bateria Joãozinho "Oiã" (que desapareceu da vida musical depois de dois discos neste período) e na voz Very Nice (que mais tarde ficará conhecido como Fernando Girão). 

O disco instala-se como uma alvorada, com a abertura lenta de um ambiental “Almada”. É uma cidade vista do outro lado. O tema surge do nada, como um despertar e depois de exposto pelo saxofone ouvimos o primeiro solo de Pinho Vargas no seu melhor – ágil, inteligente, intenso. Joãozinho “Oiã” é um baterista excelente que agarra no andamento rápido com muita competência apoiando o solo de Rão que está ao melhor do que se fazia no seu tempo. Zé Eduardo já era então o contrabaixista consistente e criativo que conhecemos hoje. Percebemos desde o início que “Malpertuis” não é um ensaio. É um disco maduro, tão bom como o que se fazia na Europa no mesmo período, que sabe e compreende o jazz.  

O segundo tema é uma “Balada”. Surge a flauta, que virá mais tarde a ser o instrumento de eleição do ainda então saxofonista. Uma melodia lindíssima que incorpora já – se bem que de forma muito velada, - um sabor oriental que mais tarde será dominante. O piano, gravado de um modo curioso, ao fundo da sala (não sabemos se por acidente ou propositadamente), dá uma graça muito especial a esta música, como se a flauta estivesse a solar sobre uma melodia que vem de outra casa. E o duo - piano e sopro - fecha este tema com enorme elegância. 

Em “Zau” aparece desde o início a voz de Very Nice. Há um gingar dançante e uma forma de cantar gritada muito original, ainda hoje. As percussões impõem-se nesta espécie de “Capoeira” com uma melodia muito bonita. Os solos de saxofone são intensos e dançáveis. Alguma coisa do que mais tarde ouviremos no modo original como Maria João canta, já está qui.

“Malpertuis” (1943) é o nome de um casa de um romance de terror gótico do autor belga Jean Ray (1887–1964), onde um feiticeiro morrente prende alguns deuses do Olimpo, incorporando-os em cidadãos belgas. O tema que dá nome ao disco, recebe mais claramente as influências do jazz elétrico de Miles Davis, com Pinho Vargas no piano elétrico e o diálogo entre o saxofone e os gritos ritualistas de Girão mais intensos, o andamento rápido e maior abstração e abertura à improvisação.

“Líbano” que encerra o LP vem com ares de médio oriente nas melodias e na forma de cantar. O contrabaixo de Zé Eduardo constrói uma muralha sólida que tudo agarra numa linha repetitiva intensa.

Em 1976 o país ainda estava numa propedêutica da liberdade e já o saxofonista a usava com tanta sapiência. Malpertuis é jazz português: integra com uma paixão lúcida rock, música oriental, músicas do mundo num projeto musical criativo onde Rão Kyao usa esclarecida e criativamente a linguagem do jazz. 

É o começo de uma viagem musical onde podemos falar de verdade, pois conseguimos hoje, quase 50 anos depois, perceber que a música do saxofonista/flautista, que  evoluirá de diversas maneiras e para outras paragens, mantem algumas das características fundamentais do disco primogénito: melodiosa, elegante e exploradora. 

A importância de “Malpertuis” vai muito para além do facto de ser fundador. É que é um disco excelente.

Aguarda-se agora a reedição de “Bambu” (1977), “Goa” (1979) e “Live At Cascais” (1980), tudo LP’s que guardo na minha coleção como grandes discos de jazz. Esta reedição remasterizada repõe em boa hora no mercado um LP que estava a atingir preços absurdos; a remasterização feita em 2022 do original de 1976 pareceu-me manter grande parte das características do LP original, adicionando mais clareza e profundidade.

  • Malpertuis

    Malpertuis (Valentim de Carvalho)

    Rão Kyao

    Rão Kyao (saxofones alto e tenor, flautas, percussão, voz); José "Boots" Eduardo [Zé Eduardo] (contrabaixo, baixo elétrico, voz); Joãozinho "Oiã" (bateria e percussão); Tony Pinho Da Silva [António Pinho Vargas] (piano e piano elétrico, voz); Very Nice [Fernando Girão] (voz e percussão)

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