Harry Christelis: “Nurture the Child / Challenge the Adult” (Clonmell Jazz Social)

Harry Christelis: “Nurture the Child / Challenge the Adult” (Clonmell Jazz Social)

Clonmell Jazz Social

António Branco

“Nurture the Child / Challenge the Adult” é o álbum de estreia de um quarteto liderado pelo guitarrista britânico Harry Christelis, a que se juntam o trompetista Christos Stylianides, o contrabaixista Andrea Di Biase e o baterista Dave Storey. É também a edição inaugural da Clonmell Jazz Social. A jazz.pt já o escutou.

O nome de Harry Christelis (n. 1988) soará certamente mais familiar a quem esteja atento ao trabalho do guitarrista português Pedro Velasco, radicado em Londres desde 2003. Amigos comuns mediaram, três anos mais tarde, o encontro entre ambos; logo num primeiro momento de trabalho ficou claro que nascia ali uma química musical, que levou a que continuassem a tocar regularmente em duo, partilhando composições e desenvolvendo abordagens individuais próprias (e de tocarem juntos). No ano passado editaram o muito interessante “Scribbling” (Ubuntu Music), recenseado na jazz.pt aqui.

“Nurture the Child / Challenge the Adult” é o álbum de estreia de um quarteto liderado pelo guitarrista britânico, a que se juntam o contrabaixista Andrea Di Biase (Kenny Wheeler), o baterista Dave Storey (James Allsopp), para além do trompetista Christos Stylianides (Jas Kayser), jovem músico em ascensão na cena londrina. Todos aportam uma ampla gama de recursos sónicos, que vão do jazz mais clássico, à livre  improvisação e à música eletrónica, onde a liberdade de movimentos é crucial para o cômputo. (Esta é também a primeira edição com chancela da Clonmell Jazz Social.) 

«A música deste álbum é um reflexo de um momento pessoal desafiador na minha vida, bem como de um momento sem precedentes e desafiador para milhões de pessoas ao redor do mundo», começa por dizer Harry Christelis à jazz.pt. Todas as composições – exceto “Zero Hours” – foram escritas durante os confinamentos da covid-19, uma época em que a vida normal foi interrompida e substituída por uma grande quantidade de tempo para refletir. «O álbum é o culminar da vasta gama de emoções que senti durante esse tempo, reconhecendo os aspetos que faltavam na minha vida. No final, reduzi grande parte dessa experiência a uma verdade singular; que os humanos precisam de um equilíbrio nas suas vidas para ter a sua criança interior nutrida e apoiada, enquanto o lado adulto de si mesmos é desafiado e questionado», explica o guitarrista.

A música de Christelis, que assina todas as peças, é sóbria e elegante; não há por aqui quaisquer laivos autoritários ou tendências pirotécnicas. Ao invés, o que nos propõe o quarteto é por norma sereno e contemplativo, mas nem por isso menos desafiador. «Esforço-me para manter as coisas o mais organizadas e abertas possível. Antes de entregar uma composição minha aos músicos com quem trabalho, certifico-me de que dou apenas uma noção básica da melodia e da harmonia. Não gosto de falar sobre nada relacionado aos com os detalhes da performance antes de tocarmos, incluindo o andamento, sensação, forma ou estrutura. Desta forma, todos os que tocam no grupo devem confiar apenas nos seus instintos, usando o que ouvem à sua volta como combustível para as suas próprias interpretações.»

Ressalta evidente a forma comunal como o som é aqui tratado; as fronteiras são difusas e se divisamos traços de um Miles Davis mais exploratório, também surgem claras as influências do chamado (por vezes de modo demasiado apressado) “som ECM”, ou ainda subliminares (ou nem tanto) reminiscências das atmosferas propostas por Jon Hassell ou pela pop sofisticada de uns Talk Talk.

A abrir, “Horizon”, improvisação livre baseada na própria palavra “horizonte” («isto é algo que muitas vezes gosto de fazer no estúdio, gravando peças livremente improvisadas onde a única coisa que temos para tocar é uma palavra escolhida», diz-nos o autor), com introdução pontuada pelas notas de guitarra e trompete, processadas eletronicamente, criando paisagens que lembram o som oceânico, por vezes tranquilizador, outras aterrorizante, com Di Biase a transportar-nos para as profundezas recorrendo ao arco. Em “Zero Hours” é o contrabaixo que introduz com solenidade; o trompete sussurra, guiado pela guitarra luminosa do líder, que toma as rédeas da peça para não mais as largar. Os músicos embarcam como que numa viagem rumo a destino incerto.

As notas tranquilas de Christelis marcam o início de “In These Place We Live”, em diálogo com o trompete, secção rítmica cumpridora (Storey bem nas vassouras) e um solo do contrabaixista. Antídoto para os tempos (e os locais) onde vivemos. “Walking Blue” é outra peça melancólica, de certa forma devedora de “Nefertiti”, de Wayne Shorter, com a guitarra em profícuo diálogo com o trompete, avultando o detalhado trabalho de Storey. Contrastante, “Lu” traz uma valsa rápida, mas também melancólica, com figuras rítmicas desenhadas pelo baterista, que interage em igual plano com guitarrista e trompetista.

Na telegráfica “Prism”, livremente improvisada nos mesmos moldes de “Horizon”, é o trompete que assume a liderança, pontuada por intervenções esparsas dos demais instrumentos, em hipnótica interação. Sentida elegia a algo ou alguém ausente, “Missing” é hino exposto em uníssono por guitarra e trompete. Mas será no ocaso do álbum que acontece o seu zénite, com “Exploration of One’s Self Inside a Caravan”, exercício de introspeção coletiva e a composição mais abertas do álbum, escrita durante a primeira viagem que Christelis fez para fora de casa depois de algumas das restrições pandémicas terem sido levantadas. Uma simples figura de baixo de um compasso e uma melodia de linha única são mote para explorações livres de sons e texturas, que encerram o álbum elevando expetativas para o que virá depois.

 

 

  • Nurture the Child / Challenge the Adult

    Nurture the Child / Challenge the Adult (Clonmell Jazz Social)

    Harry Christelis

    Harry Christelis (guitarra); Christos Stylianides (trompete); Andrea Di Biase (contrabaixo); Dave Storey (bateria)

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

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