Susana Santos Silva: “All the Birds and a Telephone Ringing” (Thanatosis) / Fred Frith & Susana Santos Silva: “Laying Demons to Rest” (RogueArt)

Susana Santos Silva: “All the Birds and a Telephone Ringing” (Thanatosis) / Fred Frith & Susana Santos Silva: “Laying Demons to Rest” (RogueArt)

Thanatosis

António Branco

A notabilíssima trompetista, compositora e improvisadora Susana Santos Silva tem vindo a construir ao longo da última década um corpo de trabalho poliédrico e entusiasmante. “All the Birds and a Telephone Ringing” (um quase-solo), na Thanatosis,  e “Laying Demons to Rest”, em duo com o mestre guitarrista e improvisador Fred Frith, na RogueArt, são as suas propostas mais recentes. A jazz.pt já as escutou.

Baseada em Estocolmo – onde estuda composição eletroacústica no Royal College of Music –, a trompetista, compositora e improvisadora Susana Santos Silva (n. 1979) tem vindo nos últimos anos a erguer um impressionante corpo de trabalho, nos domínios do jazz e da música improvisada com ele mais ou menos aparentada. A sua atividade espraia-se em múltiplas direções, em diferentes projetos por ela liderados ou coliderados, e colaborações com históricos como Anthony Braxton (no seu Diamond Curtain Wall Trio) e Fred Frith, e também com Kaja Draksler, Mats Gustafsson (na Fire! Orchestra ou na mais recente encarnação do seu NU Ensemble), no quarteto Hearth com Ada Rave, Mette Rasmussen e Draksler, ou Torbjörn Zetterberg, de entre muitos outros.

Em entrevista a Phil Freeman publicada recentemente no Bandcamp, a trompetista realça que «os trompetistas têm vozes muito mais únicas do que, por exemplo, os saxofonistas, e acho que é porque o instrumento é tão difícil de tocar que toda a gente inventa os seus próprios truques ou maneiras (de contornar isso).» E acrescenta: «Eu queria tocar mais alto e mais rápido, mas hoje em dia estou em paz com o que posso fazer, e apesar dessas restrições que temos como instrumentistas, há algo que podemos tirar dele [trompete]. Aceito o que posso e o que não posso fazer, e acho que basta expressar o que preciso expressar.»

Nos últimos anos, Santos Silva tem rasgado horizontes artísticos, criando colagens de sons que misturam meticulosamente gravações de campo, eletrónicas várias e o seu trompete sempre capaz de alternar momentos ferozes com passagens etéreas. Em “All The Birds and a Telephone Ringing” demonstra a sua notável habilidade para transformar ou incorporar qualquer som numa obra composta, explorando as relações que existem entre o mundo natural e os seres humanos que o habitam. Este é um disco praticamente a solo, editado pela sueca Thanatosis, no qual a portuguesa para além do trompete, toca também flauta irlandesa, tendo ainda feito gravações e misturas.

Diz ela em notas de apresentação que “All The Birds and a Telephone Ringing” «está relacionado com os problemas climáticos que enfrentamos e com a forma como a sociedade vive. Está tudo errado, o mundo está completamente de cabeça para baixo.» «Como interagimos, como afetamos o mundo ao nosso redor e como o mundo ao nosso redor nos afeta e às nossas práticas. É sobre como tudo o que ouço à minha volta afeta, influencia, inspira a música. O que ouvimos ao nosso redor já é a própria música», sublinha. Em “All The Birds And A Telephone Ringing” faz uso de técnicas estendidas no trompete (por exemplo, a abrir a peça “All the Birds”) ou mistura o ranger de um casco de navio e sons de gaivotas no início de "The Way Home”, embora prefira manter o mistério acerca das fontes sonoras que utilizou. «Se as pessoas imaginarem algo completamente diferente, ótimo», diz ela. Para servir de complemento visual ao álbum, preparou vídeos a partir de filmagens feitas com o seu smartphone.

Se há encontros mágicos, este da trompetista com Fred Frith é um deles. Pertencendo a gerações e a contextos musicais díspares, partilham uma atração pela descoberta e pelo risco, sempre ávidos de dar temerários passos em frente. Guitarrista, multi-instrumentista (guitarra, baixo, teclados, violino), compositor, improvisador, inventor, escultor de sons, Frith é, desde os anos sessenta, um pioneiro da música experimental (desde logo, com os seminais Henry Cow) e um desbravador de caminhos para a guitarra e para a música, como atestam o seu trabalho a solo e os inúmeros projetos e colaborações em que se tem envolvido. Os dois já haviam tocado juntos (como em São Paulo, setembro de 2018) e estreitado laços no disco "Road", editado em outubro de 2021 onde ao trio de Frith (com o baixista Jason Hoopes e o baterista Jordan Glenn, que em março próximo estará em Espinho) se juntaram a trompetista portuguesa e a saxofonista e compositora dinamarquesa Lotte Anker.

“Laying Demons to Rest”, com selo da incontornável RogueArt, é o novo registo do duo, gravado ao vivo no final de agosto de 2021 (também o ano em que editou o excelente "Tomorrow", em duo com Zetterberg), durante o Festival Météo, Mulhouse, França, para a rádio pública France Musique/Radio France. Aos dois músicos, de personalidades vincadas, mas sempre prontas a partilhar aventuras com outros músicos, junta-se o desenho de som do mesmo Zetterberg. (Já este ano o duo reencontrou-se na Associação de Moradores da Bouça, no Porto.)

Os dois erguem uma música profundamente imagética (numa peça única, com quase quarenta e dois minutos de duração), em permanente mutação, agindo e reagindo, tumultuando e acalmando, de onde brotam melodias subliminares, tensões (in)contidas. Santos Silva faz uso de diferentes técnicas e, qual extensão natural do seu próprio corpo, o trompete, ora mais rugoso ora gloriosamente límpido, dialoga com a guitarra e as eletrónicas que mestre Frith detalhadamente burila. Um permanente jogo de averiguação mútua, em que ambos exploram, indagam, sublinham e contrapõem. Provavelmente em busca da presença espetral a que Tim Hodgkinson, multi-instrumentista, compositor e cofundador dos Henry Cow, se refere nas notas de capa.

Se os demónios descansam, os nossos sentidos exultam.

 

  • All the Birds and a Telephone Ringing

    All the Birds and a Telephone Ringing (Thanatosis)

    Susana Santos Silva

    Susana Santos Silva (composição, trompete, flauta irlandesa, field recordings, gravação, mistura); Rosanna Gunnarson (field recordings); Torbjörn Zetterberg (gravações adicionais)

  • Laying Demons to Rest

    Laying Demons to Rest (Rogue Art)

    Fred Frith / Susana Santos Silva

    Fred Frith (guitarra elétrica); Susana Santos Silva (trompete)

Agenda

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Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

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Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

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