Mats Gustafsson & NU Ensemble: “Hidros 8 - Heal” (Trost)

Mats Gustafsson & NU Ensemble: “Hidros 8 - Heal” (Trost)

Trost

António Branco

Há um quarto de século que Mats Gustafsson anda a organizar as suas improvisações compostas (ou composições improvisadas?), utilizando partituras gráficas, numa série que intitulou “Hidros”. Agora é a vez de “Hidros 8 - Heal”, gravada no final de 2016 por um decateto onde pontifica a trompetista portuguesa Susana Santos Silva. Tem selo da austríaca Trost e a jazz.pt já o escutou.

O saxofonista e compositor Mats Gustafsson (n. 1964) é um dos músicos mais marcantes do jazz europeu das últimas três décadas. Em 1997, começou a organizar as suas improvisações “compostas” com base em partituras gráficas, numa série a que chamou “Hidros”, para diferentes configurações instrumentais do seu NU Ensemble (e também do Copenhagen Arts Ensemble). Um quarto de século de permanente busca e inquietação criativa.

Cada versão de Hidros significa uma nova temática, uma nova peça, um novo conjunto de músicos, todos com ligações, mais ou menos longevas, mais ou menos profundas, com o músico sueco, numa lógica colaborativa que claramente ultrapassa os papéis individuais. Até ao momento, apenas quatro configurações de Hidros foram lançadas oficialmente: “Hidros One” (1999), “Hidros 3” (dedicada a Patti Smith, com uns expandidos Sonic Youth, entre outros, com o guitarrista Loren Mazzacane Connors, em 2004), “Hidros 6 - Knockin´” (tributo à obra de Little Richard, 2014) e agora “Hidros 8 - Heal”. Mas há mais declinações: uma dedicada à cultura sami, outra, “Hidros 7 - Zap”, a Frank Zappa, uma ao compositor austro-húngaro György Ligeti e uma mais à arquitetura. Recentemente, Gustafsson apresentou Hidros 9 para distintos grupos de instrumentos, três tipos de partituras gráficas e vários métodos de direção musical da formação.

“Hidros 8 - Heal”, lançado pela austríaca Trost, colhe inspiração nas nuvens plúmbeas que pairam sobre o mundo em que vivemos, ameaçando tempestades políticas, económicas, culturais, ambientais, sanitárias. Gustafsson sempre deixou bem claro de que o seu papel, como o de outros, enquanto artistas e indivíduos, é o combater a estupidez, local e globalmente. (Já diz Einstein: «Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não há certeza absoluta.») Esta composição é, para si, uma tentativa de «levantar e encontrar as perguntas sobre o estado das coisas.» «Há atualmente um desequilíbrio extremo aos níveis local e global – de perspetivas ideológicas, económicas, culturais e políticas – e precisamos de algum tipo de equilíbrio muito em breve. Pode curar? O que pode tudo curar? Por quanto tempo pode curar?», questiona o músico sueco.

Em entrevista ao blogue En Fri Jazz (Um Jazz Livre, em português), Gustafsson foi claro nos seus propósitos e na abordagem que empenhadamente prossegue para os alcançar: «Jazz é mudança. Comunicação. Interação. E resistência! Seja qual for a forma, o som, a aparência. Com olhos, ouvidos e alma.» E continua: «Música radical é sempre música de resistência. E, portanto, política. Temos que enfrentar a doutrina comercial que é criada pelas “soluções” técnicas que nos cercam. Temos que usar os novos mecanismos disponíveis e torná-los nossos. Não apenas ficar sentado e embarcar na viagem», sublinha.

Esta configuração em decateto do NU Ensemble reúne músicos próximos de Gustafsson e que com ele têm vindo a colaborar em vários projetos. Comparsas na Fire! Orchestra, como a trompetista portuguesa Susana Santos Silva, a saxofonista Anna Högberg e o tubista Per-Åke Holmlander, mas também o giradisquista austríaco Dieb13 (que colaborou em Hidros 6 e no trio Fake The Facts), Christof Kurzmann, vocalista e manipulador do software lloopp (parceiro de Gustafsson no duo Falling), o baixista italiano Massimo Pupillo (dos Zu, no sexteto Original Silence, e no trio Melt, com o baterista e vocalista Brian Chippendale), o guitarrista norueguês Hedvig Mollestad (participou em Hidros 7), o baterista Ivar Loe Bjørnstad (do Mollestad Trio) e o baterista neerlandês e eletronicista Gert-Jan Prins (cuja colaboração com Gustafsson remonta ao final dos anos noventa num trio com o pianista Misha Mengelberg). (Acrescentar que Holmlander, Dieb13 e Mollestad também integram Hidros 9.) “Hidros 8 - Heal” foi gravado na cidade belga de Antuérpia em novembro de 2016 e é constituído por duas longas partes. Nelas escuta-se uma amálgama de diferentes estados, caos, confusão e tumulto, mas também paz, partilha e esperança, uma música em permanente evolução, um inclassificável caldeirão sónico.

“Heal – Part 1” tem um início enigmático, tenso, com eletrónicas e diferentes percussões (gongos, címbalos) a construírem uma massa detalhada, para a qual afluem jogos rítmicos. A dado momento entram os demais instrumentos, assomando um motivo melódico. O tonitruante baixo assume uma linha pesada, que logo é contrastada pela clareza e lirismo do trompete de Santos Silva e do saxofone de Högberg, com a massa orquestral a mover-se lentamente. Sensivelmente a meio da construção, o solo poderoso de Gustafsson tudo torna mais abstrato e textural, lançando apontamentos de vários instrumentos, abordados segundo técnicas menos convencionais. A tuba a espreitar, os saxofones em espasmos e contrações, injeções eletrónicas, em linhas polifónicas que se cruzam, aproximam e afastam. A melodia axial (ainda que difusa) é retomada, a linha de baixa é desafiada por uma intervenção de Mollestad com muito de rock progressivo do início de setentas. O tutti reagrupa-se, coeso e potente, e conduz a peça ao seu estertor.

A segunda parte é a natural continuação da anterior (a divisão só parece fazer sentido por uma questão de gestão dos suportes), aprofunda indagações, reclama urgências e reforça convicções, partindo da massa sonora incandescente, misturando composição e improvisação. Os sopros perseveram no motivo-base e sobre o húmus eletrónico germina a declamação de Kurzmann («Why I am? Why I ask? Why I learn? Why I heal? Why I am, I am why...»), pontuada por curtas intervenções instrumentais. Uma nuvem eletrónica aparece e desaparece, adensado o mistério. Solta-se o saxofone flamejante de Högberg que paira sobre um motivo grave que se repete, denso e claustrofóbico. A melodia central apazigua e conclui uma notabilíssima peça.

Mats Gustafsson reitera uma visão muito pessoal, mas que partilha ardentemente com quem o acompanha e com quem o escuta. “Hidros 8 - Heal” é renovado testemunho de alguém para quem a música não é entretenimento e superficialidade. É paixão e combate. E cura.

 

 

 

  • Hidros 8 - Heal

    Hidros 8 - Heal (Trost)

    Mats Gustafsson & NU Ensemble

    Mats Gustafsson (saxofone barítono e direção); Anna Högberg (saxofones alto e barítono); Susana Santos Silva (trompete); Per-Åke Holmlander (tuba); Hedvig Mollestad (guitarra); Dieb13 (gira-discos); Christof Kurzmann (software lloopp, voz); Massimo Pupillo (baixo elétrico); Gert-Jan Prins (bateria e eletrónicas); Ivar Loe Bjørnstad (bateria)

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