Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz: “Moacir de Todos os Santos” (Rocinante / Lusofonia Record Club)

Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz: “Moacir de Todos os Santos” (Rocinante / Lusofonia Record Club)

Rocinante / Lusofonia Record Club

Nuno Catarino

Jazz vibrante que homenageia o mestre pernambucano Moacir Santos.

Apesar de toda a proximidade e ligação histórica e cultural, o jazz do Brasil não chega até Portugal. Se na música popular temos acolhido e absorvido (e com todo o gosto!) a criação desse gigante país irmão (e há sempre tanto e tanto por explorar e descobrir), no jazz são poucos os artistas que nos chegam e que conseguem fazer pontes transatlânticas – o pianista Amaro Freitas e o saxofonista Esdras Nogueira, com a sua releitura de “Transa”, serão dos raros exemplos de músicos que têm conseguido quebrar esta barreira. 

Nascido em Salvador da Bahia, no ano de 1959, Letieres Leite foi um importante músico, compositor, arranjador e educador. Começou pela flauta e descobriu depois os saxofones tenor e soprano, além de tocar percussões. Precocemente falecido em 2021, aos 61 anos de idade (por insuficiência respiratória causada pela Covid-19), Letieres deixou gravado um importante corpo de trabalho, destacando-se o seu projeto Orkestra Rumpilezz.

A orquestra foi criada em 2005, editou dois álbuns (estreou-se com o registo homónimo em 2009, seguindo-se “A Saga da Travessia” em 2016) e colaborou com músicos como Gilberto Gil, Lenine, Joshua Redman, Arturo O'Farrill, Steve Bernstein e Carlinhos Brown, entre outros. Esta orquestra assumiu como base de trabalho a herança ancestral baiana, apresentando-a com uma roupagem harmónica contemporânea, combinando a percussão de matriz africana e a influência do jazz.

Esta big band de afro-jazz reúne cinco músicos de percussão (atabaques, surdos, timbal, caixa, agogô, pandeiro, caxixi) e catorze músicos de sopros (quatro trompetes, quatro trombones, dois saxofones alto, dois saxofones tenor, um saxofone barítono e uma tuba). Chegados a este seu terceiro disco, “Moacir de Todos os Santos”, presta-se homenagem a uma figura maior da música do Brasil: Moacir Santos (1926-2006), mestre pernambucano que se destacou como compositor, arranjador e multi-instrumentista.

Sob a direção de Letieres, a orquestra tratou de pegar na herança de Moacir e interpretou as suas composições (quase todas com o título de “Coisa”), acrescentando-lhes a dinâmica pujante dos sopros, apoiados pela fervilhante percussão. O disco é constituído por seis temas instrumentais (“Coisas” n.os 4, 8, 9, 1,7 e 2, respetivamente), com uma exceção: há um tema que conta com uma participação vocal, e não é uma voz qualquer: Caetano Veloso, figura maior da música mundial (é impossível de não ouvir a sua obra discográfica de forma recorrente, há sempre coisas a descobrir ou redescobrir), dá a sua voz ao tema “Nanã”. Instrumentalmente, destacam-se as intervenções solísticas de Raul de Souza (trombone), Joander Cruz (sax alto) e Marcelo Martins (sax tenor).

Sobre o disco, escreveu Gilberto Gil: «Inspirado no grande mestre pernambucano Moacir Santos, que o antecedera em algumas décadas nesse mister de estimular a fusão mais abrangente e profunda das linguagens nas músicas afro-americanas (a estadunidense, a cubana e brasileira), Letieres realizou, no breve período que a vida lhe concedeu, um trabalho de grande envergadura que deixa registrado agora neste disco que nos chega às mãos. Em torno de alguns conceitos amplos de ancestralidade e modernidade e de elementos rítmico-harmônico-melódicos de grande personalidade, Letieres nos oferece neste disco um pouco, um gosto, um gesto, um beijo do seu imenso legado.»

Só podemos subscrever as palavras da lenda viva da música brasileira, brilhante músico autor de hinos como “Domingo no Parque”. Aqui ouvimos um jazz atual e vibrante, que homenageia o mestre pernambucano Moacir Santos e enriquece o legado do mestre baiano Letieres Leite, numa despedida imaculada.

Com edição original no Brasil pela Rocinante, o disco tem edição europeia pelo exclusivo Lusofonia Record Club

 

 

  • Moacir de Todos os Santos

    Moacir de Todos os Santos (Rocinante / Lusofonia Record Club)

    Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz

    Letieres Leite (concepção, arranjos, direção e flauta em sol); Luizinho do Jêje (atabaques Rum e Rumpi, agogô e efeitos), Gabi Guedes (atabaques Rum e Rumpi e agogô); Tiago Nunes (timbau, atabaques Rumpi e Lé, agogô e caxixi); Emerson Taquari (pandeiro, surdos, timbau, atabaque Lé e caxixi); Jorge Wallace (surdos, atabaques Rumpi e Lé, agogô e timbau); Ícaro Sá (atabaques Rumpi e Lé e timbau); Kainã do Jêje (atabaqueria); Rowney Scott (saxofones tenor e soprano); Leo Rocha (saxofones tenor e soprano); André Becker (saxofone alto e flauta); Paulo Andrade (saxofone alto e flauta); Vinícius Freitas (saxofone barítono); Fernando Rocha (tuba); Adaílson Rodrigues (trombone baixo); Rudney Machado (trompete e fliscorne); Guiga Scott (trompete e fliscorne); João Teoria (trompete e fliscorne); Danilo Brito (trompete e fliscorne); Gilmar Chaves: trombone), Hugo Sanbone (trombone); Juracy Almeida (trombone)

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

Ver mais