André Santos: “Embalo” (Edição de autor)

André Santos: “Embalo” (Edição de autor)

Edição de autor

António Branco

“Embalo” é o terceiro álbum na condição de líder do guitarrista funchalense André Santos, depois dos bem recebidos “Ponto de Partida” (2013) e “Vitamina D” (2016). A solo (Salvador Sobral é convidado num tema), surge apenas acompanhado pela sua guitarra e, na revisitação de um tema tradicional, pelo rajão, cordofone típico da Madeira. A jazz.pt já o escutou.

Portugal é um país rico em guitarristas. Se apenas nos circunscrevermos aos (latos) domínios do jazz e das músicas improvisadas mais ou menos conexas, o rol de guitarristas portugueses é espantoso, em qualidade, quantidade e abrangência estilística. Um dos melhores exemplos é o guitarrista funchalense André Santos (n. 1986), alguém que ao longo da última década tem vindo a consolidar o seu lugar nesse dinâmico panorama, evidenciando os seus predicados como músico flexível e tecnicamente apetrechado, dotado de uma veia melódica muito particular.

A sua atividade mais recente não deixa margem para dúvidas quanto à grande relevância do trabalho que vem desenvolvendo em vários contextos. São exemplos o duo de guitarras Mano a Mano, que partilha com o irmão Bruno Santos, já com quatro discos editados; a participação no quarteto de Maria João e Carlos Bica ou no projeto Cantigas de Maio, com Bernardo Moreira, Ricardo Dias e João Neves; o projeto Mutrama, que visa reinterpretar o cancioneiro tradicional da Madeira, de que é diretor musical; as fortes ligações a Salvador Sobral e a António Zambujo; para além da direção musical de vários projetos. O rol de outras colaborações, em disco e ao vivo, é extenso e diversificado: Carminho, Joana Alegre, Teresinha Landeiro, Lars Arens, Júlio Resende, Ricardo Toscano, Rita Redshoes, João Mortágua, Magano, Ana Moura, João Barradas, Filipe Raposo, Filipe Melo, Romeu Tristão, apenas para mencionar alguns.

Depois de “Ponto de Partida” (2013) e “Vitamina D” (2016), André Santos acaba de lançar o seu terceiro álbum em nome próprio, “Embalo”, que inclui canções que foi escrevendo e compilando ao longo deste tempo, todas originais exceto “Veneno de Moriana”, peça do cancioneiro tradicional madeirense, para a qual fez um novo arranjo. «É um disco sem urgência», começa por dizer à jazz.pt. “Embalo” é fruto das múltiplas experiências musicais que viveu desde que regressou da capital dos Países Baixos, após ter completado o Mestrado em Jazz no Conservatório de Amesterdão. «Surgiu da vontade de dar vazão a alguns temas que fui compondo nos últimos seis anos, desde que lancei o “Vitamina D”. É um disco menos a tentar ser qualquer outra coisa e mais a tentar ser eu, na minha versão mais honesta.»

Ao longo do processo, o guitarrista foi sendo assaltado pela dúvida acerca de qual o tipo de formação que seria o mais adequado para dar forma a estas canções, tendo experimentado várias soluções que resultaram. Em determinado momento desta reflexão surgiu o convite de amigos para compor a banda sonora da série documental “À Volta da Mesa”, sobre a gastronomia madeirense, mas que acaba por ir muito mais além, contando a história de sete mulheres, todas com histórias de vida inspiradoras. «Decidi gravar a solo o tema para o episódio piloto», revela André Santos. «O resultado foi ótimo e comecei a pensar mais seriamente neste formato a solo, até porque a maior parte das canções surgiram à guitarra e respiram de uma forma única e especial nesse formato. Posso tocar muito baixinho ou muito alto, todos os detalhes são ouvidos.» As canções de “Embalo” são marcadas pela delicadeza e pela tranquilidade, algo que lhe surge naturalmente e que desta feita optou por não contestar. «Acho que tenho uma tendência para compor música assim. Meio nostálgica e contemplativa. Não é um conceito pensado, é só uma tendência que eu aceito e abraço. E às vezes contrario. Mas aqui decidi só abraçar e não forçar mais nada. Não foi conscientemente uma resposta aos tempos em que vivemos, mas certamente que terá a sua influência.»

O título do álbum radica no facto de André Santos ter sido pai e de ter embalado muitas vezes o filho durante a noite. Quando o sono do pequeno custava a chegar, era o pai quem despertava. «Ficava ali perdido nos pensamentos, de madrugada. Numa dessas reflexões decidi que estava na hora de gravar o tal disco a solo que já tinha decidido gravar há uns meses», conta. Começou a tomar nota de todos os temas que compôs nos últimos anos e também dos temas alheios que tinha vindo a explorar. Quando a manhã finalmente chegou, decidiu não adiar o impulso e logo contactou o amigo Bernardo Barata para reservar dois ou três dias no estúdio Roma 49. «Fui para estúdio gravar dois/três takes dos vários temas e fazer uma ou outra exploração mais improvisada com uns temas pelo meio», recorda. Gravou muitos mais temas do que os que acabaram por ficar no alinhamento final do disco. «Passei algum tempo a pensar na cronologia e dramaturgia do disco e decidi retirar, reduzir ao essencial, restando apenas meia hora de música. Achei que a história musical do disco ficaria mais bem contada assim, com estes sete temas.»

A abrir e a fechar, “Jobim”, com os seus dedilhados suaves e melodia doce, é sentida homenagem a um dos mestres maiores da música do Brasil. Na versão cantada (ocaso do álbum) conta com a participação de Salvador Sobral, companheiro de muitas aventuras musicais ao longo dos últimos anos. Este tema, diz-nos André Santos, «é também um piscar de olho a um disco que gosto muito, Delírio Carioca”, de Guinga, em que a faixa que dá nome ao disco, dá início e fecha o disco, primeiro numa versão cantada e depois numa versão instrumental. Essa canção do Guinga foi a primeira música que o meu filho Diogo ouviu fora da barriga da mãe. A primeira vez que o embalei foi ao som dessa música.»

“Canção em Sol”, com o seu travo methenyano, lembra algumas das atmosferas de “Beyond the Missouri Sky”, que tanto vale pelo tom como pelo astro, e “Embalo”, de inexcedível ternura, são dois exemplos da elegância melódica da abordagem de Santos. “Veneno de Moriana”, que conheceu através de uma recolha da associação Xarabanda, com uma voz feminina a capella, é aqui objeto de uma leitura que conserva a belíssima melodia, e que, como quem conta um conto, lhe acrescenta algo de muito seu, em especial uma harmonia, num arranjo em camadas com a ajuda do pedal de loops. «Bendita a hora em que decidi explorar os cordofones madeirenses e, por consequência, toda a música tradicional da Região. É uma exploração que me tem enriquecido muito musicalmente. Desmistificou muita coisa. Ouvir senhoras e senhores que cantam das profundezas das entranhas como hobby ou para suportar mais facilmente o seu trabalho, comove e dá muito que pensar», acrescenta.

“Variações em Dó”, a peça mais extensa do álbum, e seu zénite, resultou de uma improvisação em estúdio que resgatou parte da melodia de outro tema seu, “Metamorfose da Borboleta”, que por sua vez trouxe à colação um tema ainda mais antigo, “Zion”, a que acrescentou novos elementos, usando uma afinação mais grave, em dó maior. Em “Canção para Rajão” André Santos utiliza com rigor e conhecimento profundo o cordofone típico da Madeira, de afinação peculiar (a nota mais grave está na corda do meio e não no início), explorando-lhe a sonoridade muito própria, numa peça que é também uma viagem no tempo, revisitação criativa de uma longa tradição. «Tirei partido dessa afinação para criar esta peça. Este instrumento obriga-me a ser mais intuitivo, porque é uma afinação diferente da que estou habituado e o meu ouvido tem de estar ainda mais atento, e os meus dedos não têm vícios.»

“Embalo” é um disco sereno e apaziguador, verdadeiro bálsamo para as agruras dos tempos atribulados em que vivemos.

 

  • Embalo

    Embalo (Edição de autor)

    André Santos

    André Santos (guitarra e rajão); Salvador Sobral (voz em “Jobim”)

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

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