Ricardo Toscano Trio: “Chasing Contradictions” (Clean Feed)

Ricardo Toscano Trio: “Chasing Contradictions” (Clean Feed)

Clean Feed

Nuno Catarino

Ricardo Toscano está de volta. Ao leme de um trio com Romeu Tristão e João Lopes Pereira, o saxofonista apresenta “Chasing Contradictions” (edição Clean Feed). Um disco deslumbrante. 

O disco “Ricardo Toscano Quartet” (Clean Feed, 2018) confirmou-se como um marco da história recente do jazz português. Se Toscano já era um fenómeno de popularidade – com reconhecimento entre pares e junto do público, concertos sempre cheios e solos aplaudidos de pé – com o disco de estreia afirmou-se como músico completo, compositor e líder de um grupo superlativo. Esse álbum, gravado em quarteto com músicos portugueses da mesma geração (João Pedro Coelho no piano, Romeu Tristão no contrabaixo e João Lopes Pereira na bateria), revelava uma música madura, baseada em composições originais e assente na interpretação dinâmica do grupo (crítica aqui).

Agora, o saxofonista está de volta com um novo álbum, “Chasing Contradictions”. Mudou de formação; deixou o quarteto em pousio e o piano de lado (o pianista João Pedro Coelho editou já este ano um muito interessante disco como líder, “Crónicas”). Desta vez, o saxofonista apresenta-se ao leme de um trio, com Romeu Tristão e João Lopes Pereira. Desde logo, no título do disco o saxofonista assume “procurar contradições”. E, sem a cama harmónica do piano, o grupo tem o desafio de tocar uma música com mais foco. O trio tratou de apresentar o disco ao vivo, há poucas semanas, no Hot Clube (reportagem de Gonçalo Falcão aqui). 

Editado pela imparável Clean Feed, o novo disco inclui apenas cinco temas: dois são originais de Toscano (“Chasing Contradictions” e “Orange Blossom”), um é original de Lopes Pereira (“Totem”), há uma revisão de uma composição de Thelonious Monk (“Played Twice”) e fecha com um fado, “Súplica (Vagas Paixões)”. O álbum arranca com o tema homónimo, com Toscano a solo, a expor o tema, entrando depois a locomotiva rítmica de Tristão e Pereira, dando espaço para o saxofone brilhar; perto do final há espaço para a bateria a solo (nunca é demais elogiar a técnica e imaginação do baterista), até o trio se voltar a reunir para fechar o tema.

Segue-se “Orange Blossom”, uma belíssima balada saída da pena do saxofonista, e o modo de tocar de Toscano acentua as suas linhas doces e arredondadas. Este é o tema mais curto do álbum (quatro minutos) e o trio tem uma interpretação concisa e focada, sem se afastar muito da linha da composição. Estamos perante um dos destaques do disco, sendo daqueles temas que conquistam rapidamente os ouvintes (e que ao vivo pode crescer em improvisações mais acesas).

Em contraste “Totem”, composição do baterista, parte de uma base simples, em arranque lento, com aura de mistério, que nos deixa na expectativa, pendurados no balanço rítmico até que o saxofone alto se vai expandindo devagar (este é o tema mais longo do disco, passando dos dez minutos).

Ao quarto tema, “Played Twice” de Monk, o trio explora um swing bem ancorado, seguindo uma abordagem reverente à origem monkiana, com os músicos a mostrarem que são excelentes alunos da cadeira "História do Jazz". Será este o momento, de todo o disco, onde sentimos uma mais proximidade com a tradição histórica, com o saxofone a debitar as frases curtas e incisivas; há ainda espaço para o contrabaixo de Tristão se exibir, pelo meio do tema (e o contrabaixista merece destaque pela contante solidez).

Para fechar o disco, chega o fado: em “Súplica (Vagas Paixões)” ouvimos o saxofone em registo sentimental. A ligação de Toscano com o fado tem sido muito próxima, é um universo musical ao qual o saxofonista tem estado sempre ligado; e se no disco anterior já se sentia essa proximidade (em “Lament”), é agora mais evidente. Aqui, o saxofone de Toscano trabalha uma exploração fogosa, improvisando sobre o tema, e será aqui o momento do disco onde o ouvimos a libertar mais a alma, com mais calor (excelente final). Não que fosse necessária, mas aqui está expressa de forma clara a veia portuguesa desta música, num jazz que vai beber outras referências, que se mistura e onde resulta algo novo e especial.

Diferente do disco de estreia, neste novo álbum o saxofonista vai explorando novas ideias, arrisca, procura outros mundos. “Chasing Contradictions” é um disco deslumbrante, mais um sólido passo em frente na carreira de um magnífico saxofonista.

 

  • Chasing Contradictions

    Chasing Contradictions (Clean Feed)

    Ricardo Toscano Trio

    Ricardo Toscano (saxofone alto); Romeu Tristão (contrabaixo); João Lopes Pereira (bateria)

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

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