Eve Risser Red Desert Orchestra: “Eurythmia” (Clean Feed)

Eve Risser Red Desert Orchestra: “Eurythmia” (Clean Feed)

Clean Feed

Sofia Rajado

A pianista francesa Eve Risser apresenta uma proposta original, ao leme do seu projeto Red Desert Orchestra: música de empatia e do encontro.

Há discos que se inserem, sem qualquer dúvida, num género musical. São muito claros e contêm os seus limites muito bem definidos. Contudo, e ainda bem, há obras artísticas que fogem a este raciocínio lógico - são híbridas, escorregadias, inconclusivas, apesar de conterem em si uma estrutura definida. Uma miscelânea com diferentes origens que cria uma solidez que faz todo o sentido. E da pluralidade nasce a beleza. Essa beleza cruzada torna a categorização algo secundário, quase mesquinho. “Eurythmia” é esse mundo vivo, com genes musicais de lugares remotos do globo que se encontraram neste novo disco.

“Eurythmia” é então o novo trabalho de Eve Risser, juntamente com a Red Desert Orchestra. Com a participação de um vasto conjunto de músicos, esta formação é liderada pela pianista e compositora, que surge aqui também na voz. As composições são da sua autoria com arranjos dos vários membros da orquestra. A Red Desert Orchestra é composta por Eve Risser no piano e na voz, Antonin-Tri Hoang no saxofone alto e sintetizadores, Sakina Abdou no saxofone tenor, Grégoire Tirtiaux no saxofone barítono e qarqabas, Nils Ostendorf no trompete e sintetizadores, Mathias Müller no trombone, Tatiana Paris na guitarra electrica e voz, Ophélia Hié no balafon, bar e voz, Mélissa Hié no balafon, djembe e voz, Fanny Lasfargues no baixo electro-acustico, Oumarou Bambara no djembe, bara e Emmanuel Scarpa na bateria e voz. “Eurythmia” é um álbum editado pela Clean Feed, com gravação e mistura de Celine Grangey e masterização de Benoît Delbecq. 

As faixas presentes, distribuídas ao longo de 45 minutos de música, são todas muito diferentes, mas combinam na perfeição. A curta introdução, com os sopros e o piano a tocar a mesma frase melódica, criam imaginários com muitos caminhos possíveis para este disco, mas com pouca probabilidade de antever o que se segue. E apesar disso, a passagem da “Intro” para “So (Horse in Bambara)” é tão sentida que poderia ser escutada numa boa “live” de um DJ, pois encaixa na perfeição. Por esse motivo, soa como algo tão natural e perfeito para o ouvido e demonstra aqui muito do que representa este disco, talvez a ideia de uma viagem, de uma travessia – é a passagem de frases melódicas tocadas por instrumentos com origem na história da denominada “música clássica” para a entrada no mundo dos ritmos africanos, da eletrónica, do jazz. Mas não é uma ideia separatista ou colonizadora, pelo contrário, é a ideia de encontro e união de dois ambientes musicais e sonoros. Contudo, e como não há caminhos perfeitos, a segunda faixa, “So (Horse in Bambara)”, transporta-nos para a imagem de que percorremos uma estrada longa onde vão surgindo vários obstáculos que serão sempre ultrapassados, quase em modo de “videogame”.

A mistura tem origens tão diversas que em “Sa (Snake in Bambara)” é recuperado o ambiente sonoro da “Intro”, aqui com um brilhante solo de saxofone alto, com influências do jazz e, em “Desert Rouge” deparamo-nos com os sons da África Ocidental, muito ligados à cultura mandinga, que se manifestam nos ritmos tocados pela percussão, nomeadamente pelo balafon e pelas qarqabas, e também pelas harmonias/acordes presentes.

Na quinta faixa, encontramos um mundo mais exploratório, dando abertura à improvisação, nomeadamente no trombone e no piano. Mas em “Harmattan (dry wind from Sahara)”, regressamos novamente a África, debaixo de um sol intenso, e sob o vento seco do deserto, que nos é trazido pelo saxofone tenor, em sons graves, ventosos, agitados, que rodopiam e levantam as areias, criando simbolicamente um ambiente duro.

A viagem segue e termina de uma forma muito bonita. Em “Soyayya” encontramos o mundo do sonho, onde as possibilidades são infinitas, onde todos os mundos se encontram e seguem em harmonia. Aqui, as melodias dos sopros, os ritmos da percussão africana, a bateria do jazz, a eletrónica, relacionam a história da música e fazem-nos entender que não há muros nem fronteiras para a criação artística – a geografia da Terra é e foi sempre feita de migrações. “Eurythmia” representa esse mundo vivo, da empatia e do encontro.  

 

  • Eurythmia

    Eurythmia (Clean Feed)

    Eve Risser Red Desert Orchestra

    Eve Risser (piano, voz e composição); Antonin-Tri Hoang (saxofone alto e sintetizadores); Sakina Abdou (saxofone tenor); Grégoire Tirtiaux (saxofone barítono e qarqabas); Nils Ostendorf (trompete e sintetizadores); Mathias Müller (trombone); Tatiana Paris (guitarra elétrica e voz); Ophélia Hié (balafon, bar e voz); Mélissa Hié (balafon, djembe e voz); Fanny Lasfargues (baixo eletro-acústico); Oumarou Bambara (djembe e bara); Emmanuel Scarpa (bateria e voz)

Agenda

26 Novembro

Tiago Sousa

Cossoul - Lisboa

26 Novembro

Lynn Cassiers, Manolo Cabras e João Lobo “Dancing With Don”

Porta-Jazz - Porto

26 Novembro

Clara Lai, Amidea Clotet, João Almeida e João Valinho

Penha sco - Lisboa

26 Novembro

Orquestra de Jazz de Espinho com João Barradas

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

26 Novembro

José Lencastre, Ziv Taubenfeld e Felice Furioso

SMUP - Parede

26 Novembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

26 Novembro

Mariana Dionísio, Clara Lacerda e Romeu Tristão

Adega do Museu Rural e do Vinho - Cartaxo

26 Novembro

Practically Married

Hot Clube de Portugal - Lisboa

27 Novembro

Jorge Moniz “Cinematheque”

Cine-Teatro Louletano - Loulé

27 Novembro

Lynn Cassiers / Manolo Cabras / João Lobo “Dancing With Don”

MAAT - Lisboa

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