João Lencastre: “Safe In Your Own World” (Phonogram Unit) + “Studio Adventures” (Edição de autor)

João Lencastre: “Safe In Your Own World” (Phonogram Unit) + “Studio Adventures” (Edição de autor)

Phonogram Unit

António Branco / fotografia: Fernando Mamede

O baterista e compositor João Lencastre acaba de editar não um, mas dois álbuns: “Safe In Your Own World”, na Phonogram Unit e pela primeira vez em quarteto, com Leo Genovese, Drew Gress e Pedro Branco, e “Studio Adventures”, com improvisações livres inéditas registadas durante as sessões de gravação do anterior “Unlimited Dreams”. A jazz.pt já os escutou.

Figura de proa do jazz nacional da última vintena de anos, o saxofonista e compositor João Lencastre surpreende mesmo quem siga atentamente os seus passos. Liderando os seus próprios projetos e formações ou trabalhando com músicos de universos sonoros díspares, o músico tem vindo a desenvolver uma abordagem muito pessoal e versátil, que o faz encaixar-se com naturalidade e consequência em diferentes contextos. Se os Communion serão a sua banda mais emblemática – que tanto pode ser um trio como assumir outras configurações instrumentais (“Unlimited Dreams”, notabilíssimo disco de 2021, foi gravado em formato de octeto), o músico tem vindo também a entregar-se a projetos paralelos, como Parallel Realities, com disco homónimo de 2019, e “No Gravity” do ano seguinte).

Do jazz de feição mais conservatorial à livre improvisação, passando por outros géneros, Lencastre tem revelado uma especial apetência para correr riscos, nunca se acomodando a fórmulas ou fronteiras, o que só abona em seu favor. É um notável gestor de referências e contrastes, dinâmicas e intensidades, sons orgânicos e eletrónicos, mantendo uma assinalável coerência em todas as vertentes do seu trabalho multímodo. «É uma coisa que acontece muito no momento, dependendo do que vou escrevendo ou do que ando a ouvir na altura. Mas estou constantemente a pensar em música e a imaginar formações e ideias para realizar», começa por referir à jazz.pt. O músico lisboeta traz agora “Safe In Your Own Way”, com selo da Phonogram Unit (é o primeiro lançamento da editora apenas com músicos que não são os seus responsáveis), acompanhado pelo pianista Leo Genovese (membro dos Communion desde a sua primeira encarnação), o contrabaixista norte-americano Drew Gress, e o guitarrista Pedro Branco, amigo de longa data e membro de muitos projetos do baterista. (É interessante notar também que Lencastre nunca antes gravara em quarteto.)

O título do disco remete-nos para um lugar que nos afasta da realidade quotidiana – tantas vezes tumultuosa e imprevisível – das nossas vidas. Lencastre detalha a ideia: «É uma alusão àquele sítio que todos (ou quase todos) temos, onde nos conseguimos desligar da realidade do dia-a-dia, e que nos transmite uma calma e uma tranquilidade especial. É como que um refúgio, onde te sentes “seguro”. Pode ser uma divisão qualquer da nossa casa, uma praia, campo, ou outro sítio.» Esta gravação aconteceu durante uma minidigressão de dois concertos com Genovese e Gress, um no Seixal Jazz e outro na Casa da Música, Porto. «Escrevi música nova para a ocasião, e quando pensei em gravar senti que poderia funcionar muito bem em quarteto com a guitarra do Pedro Branco, e já que nunca tinha gravado nesse formato, achei também uma boa oportunidade para fazer isso acontecer», refere Lencastre. «Conheço o Leo há quase 20 anos e tocamos juntos muitas vezes desde então, e sou um grande admirador do Drew desde que me lembro e foi muito bom tocar pela primeira vez e compartilhar esses momentos musicais com dele», complementa o baterista.

A música que escutamos em “Safe In Your Own World” é direta e espontânea, misto de composições e improvisações livres, não tendo a sessão de gravação durado mais de três horas. Excetuando “Staying Power”, cujo arranjo foi alterado, todos os takes escolhidos foram os primeiros, o que demonstra uma busca consciente pela frescura e integridade da música. Todos arriscam e deixam que o momento lhes diga o que tocar (ou não tocar) – o que deverá ser o jazz senão isto mesmo? Peça escrita a pensar nas características destes músicos, “Staying Power” revela, desde logo, a pena meticulosa de Lencastre; após a apresentação do tema, o piano solta-se e a guitarra vai atrás, ocupando um lugar central no desenvolvimento da peça, com a secção rítmica sempre atenta e interventiva. A elegante peça-título é introduzida pelo contrabaixo; o piano surge sereno e enigmático, e a bateria prenhe de pormenores, com bastante espaço nos interstícios para a improvisação, permitindo antever que possa vir a adquirir diferentes contornos de cada vez que for tocada.

“One”, “Two”, “Three” e “Four” são improvisações coletivas. “One” envereda por trilhos mais exploratórios e abstratos; as eletrónicas, o piano efervescente, a guitarra mutante e a secção rítmica a flutuar. “Two” é dominada pelo contrabaixo tocado com arco, o que confere à peça uma certa solenidade, reforçada pelo piano rarefeito e pela relojoaria rítmica proposta por Lencastre. “Three” é vinheta a trio que antecede “Four”, com os vários instrumentos a entrelaçarem-se de forma compacta, numa peça com os níveis energéticos bem altos até ao momento em que lentamente se esvai em silêncio. Deveras surpreendente é “Slip & Counter”, com o seu travo quase-punk inicial que desemboca num swing desenfreado, interpelado pelos espasmos elétricos da guitarra de Branco. “Flow” é a peça mais extensa do álbum e a que lhe serve de majestoso epílogo, com a sua atmosfera contemplativa que logo nos envolve, guiada pela linha melódica desenhada pelo piano.

Apenas alguns dias antes de “Safe In Your Own World”, João Lencastre ofereceu-nos também “Studio Adventures”, em edição própria, que reúne um conjunto de improvisações livres e inéditas gravadas na tarde do segundo dia da sessão de “Unlimited Dreams”. «Faltava apenas gravar dois temas e durante um coffee break sugeri fazermos algumas improvisações para descomprimir um bocado da música escrita», diz-nos João Lencastre. O músico diz-nos que o seu conceito de improvisação livre é «não ter conceito, apenas ouvir e reagir.» «O que levado mesmo à letra é mais difícil do que parece», acrescenta.

Tendo gostado do que ouviu, nomeadamente do contraste evidente com a música de “Unlimited Dreams” – apesar de os músicos terem disso exatamente os mesmos: Albert Cirera e Ricardo Toscano nos saxofones, André Fernandes e Pedro Branco nas guitarras, Benny Lackner no piano e eletrónicas, Nelson Cascais no contrabaixo e João Hasselberg nas eletrónicas –, entendeu que seria de partilhar com quem a quisesse ouvir. Estas “aventuras” são a continuação de um caminho que há anos vem trilhando, embora revele que pretende gravar mais música no filão do anterior registo: «Já há vários anos que participo em diversos projetos onde a música é completamente livre. É uma coisa que adoro fazer e que pretendo continuar a explorar, mas com esta formação quero de futuro gravar música nova, mais no género de “Unlimited Dreams”.» O grupo foi dividido em dois para grande parte das peças, sendo “V” a única na qual participam todos os músicos. «De resto nada mais foi falado, apenas esperámos o sinal de que estava a gravar», conta Lencastre.

“I” é um entrelaçado textural de guitarra, saxofone, eletrónicas, criando uma atmosfera intrigante e em “II” as eletrónicas abrem espaço para as notas cristalinas de piano, contrabaixo com arco adicionando gravidade, massa delicada de que brota o saxofone de Toscano. Com a sua atmosfera mais etérea, “III”, introduzida pelo contrabaixo, tem guitarra esparsa, percussões subtis e um saxofone que desenha uma melodia. “IV” é miniatura abstrata com ruminações de guitarra (que vão ganhando carga), um saxofone a explorar um registo agudo e a bateria a ligar tudo, qual argamassa rítmica. De “V” avulta a serenidade da linha melódica proposta pelo saxofone, as eletrónicas a injetarem disrupção, uma guitarra subtil, percussão de filigrana. Elementos que dão corpo a uma massa sonora em crescendo, até que tudo se desvanece no clímax final.

“Safe In Your Own World” – em maior medida – e “Studio Adventures” – mais do que mera compilação de outtakes –, sendo registos que revelam facetas distintas, mas complementares, do trabalho de João Lencastre, são adições importantes ao pecúlio de um dos mais interessantes músicos portugueses de jazz dos nossos dias.

  • Safe In Your Own World

    Safe In Your Own World (Phonogram Unit)

    João Lencastre

    João Lencastre (bateria); Leo Genovese (piano); Drew Gress (contrabaixo); Pedro Branco (guitarra)

  • Studio Adventures

    Studio Adventures (Edição de autor)

    João Lencastre

    João Lencastre (bateria e percussão eletrónica); Albert Cirera (saxofones soprano e tenor); Ricardo Toscano (saxofone alto); André Fernandes (guitarra); Pedro Branco (guitarra); Benny Lackner (piano e eletrónicas); Nelson Cascais (contrabaixo); João Hasselberg (eletrónicas)

Agenda

26 Novembro

Tiago Sousa

Cossoul - Lisboa

26 Novembro

Lynn Cassiers, Manolo Cabras e João Lobo “Dancing With Don”

Porta-Jazz - Porto

26 Novembro

Clara Lai, Amidea Clotet, João Almeida e João Valinho

Penha sco - Lisboa

26 Novembro

Orquestra de Jazz de Espinho com João Barradas

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

26 Novembro

José Lencastre, Ziv Taubenfeld e Felice Furioso

SMUP - Parede

26 Novembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

26 Novembro

Mariana Dionísio, Clara Lacerda e Romeu Tristão

Adega do Museu Rural e do Vinho - Cartaxo

26 Novembro

Practically Married

Hot Clube de Portugal - Lisboa

27 Novembro

Jorge Moniz “Cinematheque”

Cine-Teatro Louletano - Loulé

27 Novembro

Lynn Cassiers / Manolo Cabras / João Lobo “Dancing With Don”

MAAT - Lisboa

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