Cantigas de Maio: “Cantigas de Maio” (JACC Records)

Cantigas de Maio: “Cantigas de Maio” (JACC Records)

JACC Records

Nuno Catarino

Depois do excelente “Entre Paredes”, Bernardo Moreira apresenta-nos mais uma criativa revisão da música portuguesa. Agora está companhado por João Neves (na voz), Ricardo Dias (no piano) e André Santos (na guitarra).

Contrabaixista e compositor, Bernardo Moreira é figura omnipresente do jazz nacional nos últimos trinta anos. Sendo um primeiros rostos da profissionalização do jazz em Portugal, ao longo do seu percurso o contrabaixista tem desenvolvido uma progressiva aproximação à música popular portuguesa: em 2002 editou o (agora clássico) disco “Ao Paredes Confesso”, onde criava um jazz original a partir de elementos da música de Carlos Paredes, em forma de homenagem; no ano passado publicou “Entre Paredes”, uma espécie de continuação desse projeto, mas agora com o jazz mais desconstruído, com maior abertura às formas da canção; e no trio Sul, com Bernardo Couto e Luís Figueiredo, trabalha uma revisão de música tradicional com foco na guitarra portuguesa (o trio tem disco previsto para o último trimestre do ano).

Agora, Bernardo Moreira lidera um novo projeto, novamente ligado à tradição popular. Contudo, e ao contrário dos anteriores, esta música não é puramente instrumental, há aqui uma voz que está no centro de tudo – a voz de João Neves. Mais do que puro jazz, há aqui uma aproximação mais clara à música popular, com o jazz a manter-se enquanto cama instrumental. O título do projeto evoca diretamente Zeca Afonso, mas o grupo não se fica por aí, abraça vários autores da música de intervenção do pós-revolução: além de Zeca, são revisitados e transformados temas de Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho e José Mário Branco. A escolha dos temas não foi a mais óbvia: ficam de fora muitos sucessos populares, entram outras melodias menos evidentes.

A voz de Neves foi popularizada pelo The Voice e, mesmo não tendo saído vencedor, conquistou o público, pela qualidade das interpretações e pela amplitude tímbrica. O cantor tem-se desdobrado em diversas colaborações e acaba de se apresentar num projeto em nome próprio, assinando como “jo~ao” – editou um junho o EP “Myself As Well”, oito temas onde a sua voz navega sobre a exploração eletrónica. Nestas Cantigas de Maio, João Neves revela uma interpretação sóbria, adequada às canções, sem exageros nem fogos de artifício, sempre no ponto certo (e saber aplicar a dose certa tem todo o mérito). Ao longo do disco, João Neves dá a voz e rouba os holofotes. Juntam-se o piano de Dias e o contrabaixo de Moreira, que são as bases e alicerces. E a guitarra (e viola de arame) desassombrada de André Santos completa este quarteto. Esta é uma formação atípica, uma combinação instrumental inusitada, mas a ligação instrumental flui com naturalidade.

A abrir o disco, “Lembra-me um sonho lindo” de Fausto: a voz de Neves brilha, o piano dá a estrutura, o contrabaixo marca o ritmo e a guitarra acrescenta sublinhados deliciosos (Neves já tinha gravado este tema com a pianista bielorussa Katerina L’dokova, no seu disco “Travessia”, que foi também recentemente gravado no disco “Mil Pedaços” do grupo de percussão Simantra com Luís Figueiredo). Outro destaque é a interpretação de “Tenho barcos, tenho remos” (onde se ouve “só me falta ser mulher”, inspiração para “Só te falta seres mulher” de B Fachada). As interpretações de “O meu menino é de oiro” e “A morte saiu à rua” não têm a pungência de Zeca, navegam em águas mais brandas. “Porque me olhas assim” (também alvo de uma revisão recente, pel’A Garota Não, mas antes também já revista por Cristina Branco e Camané), é outra versão marcante. Só há um tema de Sérgio Godinho, “Um tempo que passou” (e poderiam ser tantos outros…), uniformizado pela base instrumental e pela voz. E, para fechar o álbum, a voz de Neves trabalha em duo com a guitarra elétrica de Santos, “As contas de Deus”, de José Mário Branco – uma versão despida mas inteira na sua essência.

As versões originais (de Zeca, Fausto, Godinho e Branco) já são perfeitas e intemporais, não precisavam de qualquer atualização; ao longo destas décadas estas músicas nunca perderam o brilho ou fulgor. Contudo, estas revisões contemporâneas, trabalhadas com sobriedade e bom gosto, dão nova vida a estes clássicos. Sem a urgência original, esta música ganha agora formas mais cristalinas. Tratando-se de um grupo de músicos ligados ao jazz, neste disco não se ouve propriamente de jazz, estamos no terreno de uma música popular sofisticada, marcada pela elegância. As Cantigas de Maio nunca perderam a pertinência, mas nesta revisão são bem-vindas.



  • Cantigas de Maio

    Cantigas de Maio (JACC Records)

    Cantigas de Maio

    Bernardo Moreira (contrabaixo, direção musical); João Neves (voz); Ricardo Dias (piano); André Santos (guitarra e viola de arame)

Agenda

29 Novembro

Sélène Saint-Aimé

Teatro da Trindade - Lisboa

29 Novembro

Mariana Dionísio e João Pereira “Tracapangã”

Hot Clube de Portugal - Lisboa

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

Ver mais