André Rosinha Trio: “Triskel” (Nischo)

André Rosinha Trio: “Triskel” (Nischo)

Nischo

António Branco

O trio do contrabaixista e compositor André Rosinha, com João Paulo Esteves da Silva ao piano e Marcos Cavaleiro na bateria, regressa com “Triskel”, o segundo álbum da formação, que, mantendo as características basilares do anterior, dá significativos passos em frente. A jazz.pt já o ouviu.

“Triskel” é o terceiro álbum em nome próprio do contrabaixista e compositor André Rosinha (n. 1987) e aposta reiterada na plêiade de possibilidades oferecidas pela configuração de trio piano-contrabaixo-bateria. E isso é logo denunciado no próprio título desta coleção de peças; em notas de apresentação, explicam-nos que “tríscele”, termo que remonta à cultura celta, significa três pernas. Ou três vértices ou três instrumentos ou três personalidades. «Para este álbum, procurei pela primeira vez um mote simbólico que unisse o projeto. Assim, foi todo construído à volta do algarismo 3, enquanto terceiro disco de minha autoria, escrito com 33 anos, para um trio», começa por dizer André Rosinha à jazz.pt.

A simbologia ligada a este conceito é representada por uma roseta que a partir de um centro comum se desenvolve numa espiral com três linhas curvas. A sensação de movimento criada a partir da união destes traços alude à ideia de ciclo, ação e progresso. Esta trindade de alguma forma subjaz ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em conjunto por Rosinha, o pianista João Paulo Esteves da Silva e o baterista Marcos Cavaleiro, músicos superlativos e que, com percursos distintos e personalidades vincadas, se complementam de forma notável.

“Triskel” é a evolução natural a partir do anterior “Árvore” – editado no final de 2019 –, sobretudo no plano composicional, dando Rosinha passos decisivos em direção a novos territórios, sem abdicar de certos traços identitários que já identificáramos no registo anterior. «O último projeto deu oportunidade ao trio para se explorar, desenvolver-se musicalmente e fazer crescer a cumplicidade entre nós. Existe muitas vezes a tendência para criar novas “bandas” para os diferentes projetos, mas nós os três encaixamos tão bem, que fez sentido continuar», acrescenta o contrabaixista. Depois de melhor compreender e interiorizar esta lógica, quer em termos individuais quer da exploração da geometria a três, procurou exponenciá-la, concebendo peças mais buriladas a nível composicional, ainda que assegurando espaço avonde para a improvisação. 

O tempo entretanto decorrido permitiu ao grupo consolidar uma linguagem comum, que se articula de forma cada vez mais coesa, mas, ao mesmo tempo, soando mais livre e natural. O repertório agora desvendado pelo trio foi inteiramente composto por André Rosinha tendo mais uma vez em mente as características musicais particulares dos dois músicos superlativos que tem a seu lado. «No João Paulo atrai-me a ideia de que seja um poeta que toca piano, com um pé na música tradicional portuguesa e na improvisação livre. No Marcos gosto da forma como vê a música, como procura constantemente a novidade e liberdade, mantendo-se sempre como um músico estável», refere. Grande parte das peças incluídas no novo álbum foi escrita durante a pandemia, numa fase introspetiva e de pesquisa interior. «Inspirei-me muito naquilo que fui ouvindo, já que não podia interagir com os outros músicos. Ouço muitos trios de piano e, a verdade, é que gosto bastante de tocar neste formato.»

Em “Triskel”, com chancela da Nischo, conserva-se o rigor na exploração da dimensão melódica, transparecendo agora uma mais clara associação ao lirismo de certo jazz europeu – nomeadamente a alguns trios nórdicos associados ao chamado, por vezes erroneamente, “som ECM” (Stenson, Gustavsen) – e uma maior permeabilidade a influências eruditas e às raízes portuguesas. «Começo sempre pela melodia e só mais tarde surge a harmonia, mas a forma como isto nasce não tem um método delineado. Tanto pode acontecer inesperadamente, quando uma melodia aparece na minha cabeça, ou então estudo com esse propósito criativo, através de improvisações livres no contrabaixo ou piano, onde parto de melodias sem rumo.»

A abrir, “Salto” – peça que já conhecíamos do álbum de estreia de Rosinha, “Pórtico” (2018), em quinteto, vivamente merecedora de uma segunda vida –, é um momento de vincado lirismo, com as notas cristalinas de João Paulo Esteves da Silva (na sua admirável condição de “músico-poeta”, mesmo quando inexistem as palavras), que o contrabaixista, exemplar, logo secunda, sublinhando ou contrastando, e com Cavaleiro sempre contido e rigoroso nos seus movimentos. Em “Wild Sheep Chase” – que busca inspiração no livro de Murakami, “Em Busca do Carneiro Selvagem” – os papéis invertem-se e o tema é introduzido pelo contrabaixo, ideia em que Esteves da Silva pega e desbrava em toda a sua riqueza.

No tema-título, a etapa mais longa da jornada, piano e contrabaixo expõem em uníssono o motivo-base, que em boa hora saiu da gaveta onde aboborava há algum tempo, dando lugar a um interlúdio com improvisação livre, interligando as duas secções de ambiências distintas. Atente-se nos detalhes de filigrana propostos pelo baterista. “33” (como se disse, a idade do músico quando escreveu as peças) é uma vinheta de contrabaixo sem acompanhamento, sendo lícito perguntarmo-nos se será prelúdio para futuro disco a solo. Mais agitada é “Gringo”, exercício de criação de um standard, na sua fluidez swingante, com Esteves da Silva a pintar sobre uma tela preparada por Rosinha e Cavaleiro. O contrabaixo também sola e o baterista empresta impetuosa tração numa peça atípica para o habitat natural do trio (daí o título).

Com delicadeza singular, Cavaleiro dá o mote para a peça soberba que é “Tilikum”, mais noturna e enigmática. Piano esparso e Rosinha a utilizar o arco para adicionar gravidade. Fortemente inspirada em Erik Satie, “Paseo de la Reina” é uma quase-canção, inicialmente escrevinhada num papel para fixar o momento, e “Tomar”, com o seu balanço soalheiro, conta com nova bela intervenção de Rosinha. Epílogo doce, “Cerejas” exibe uma serena linha de piano contrastada pela secção rítmica irrequieta, tour-de-force para Marcos Cavaleiro.

Pleno de sobriedade e elegância, “Triskel” certamente guindará André Rosinha a um outro patamar de reconhecimento como contrabaixista e compositor a ter em conta.

  • Triskel

    Triskel (Nischo)

    André Rosinha Trio

    João Paulo Esteves da Silva (piano); André Rosinha (contrabaixo); Marcos Cavaleiro (bateria)

Agenda

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Parque Verde – Centro de Interpretação da Serra da Estrela - Seia

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