Will Glaser: “Climbing in Circles pt. 4” (Limited Noise)

Will Glaser: “Climbing in Circles pt. 4” (Limited Noise)

Limited Noise

António Branco

“Climbing in Circles pt. 4” é o mais recente tomo de uma série de gravações do baterista e percussionista britânico Will Glaser

“Climbing in Circles pt. 4” é o mais recente tomo de uma série de gravações do baterista e percussionista britânico Will Glaser. Nascido em Nottinghamshire, Glaser licenciou-se em 2014 em Jazz na Guildhall School of Music and Drama em Londres, instituição onde atualmente é docente. Desde então tem colaborado com músicos de diversos quadrantes estilísticos, como a trompetista Yazz Ahmed, o saxofonista Soweto Kinch e a pianista Nikki Iles, o que traduz um universo musical abrangente.

Desta feita com chancela da editora Limited Noise, de Andrew Plummer, “Climbing in Circles pt. 4”, gravado durante cinco dias no ambiente muito especial do País de Gales, dá sequência natural à terceira parte, editada no ano passado pela Ubuntu Music. A Glaser juntam-se o eclético saxofonista e pianista Matthew Herd (nos anteriores discos da série o pianista foi Liam Noble) e o trompetista e manipulador de eletrónicas Alex Bonney, cujo trabalho tem vindo a ser requisitado de forma crescente em vários contextos.

A partir de um universo essencialmente acústico, Glaser começou a interessar-se por toda a dimensão eletrónica da música e pela utilização do estúdio como instrumento de trabalho, em termos de produção e processamento sonoro, na esteira de uma abordagem totalmente inovadora que os Beatles iniciaram durante as sessões de gravação de “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, em finais de 1966.

«Durante a pandemia de covid comecei a investigar gravação, eletrónica, explorando sintetizadores e processando a bateria. Esses mundos sonoros e novas formas de trabalhar começaram a influenciar os meus pensamentos sobre improvisação e a estética da música que eu poderia fazer dessa forma. Queria criar mundos sonoros mais expressivos e imersivos com – e para – a improvisação», explica Glaser em notas de apresentação do disco.

Estes múltiplos interesses levaram o músico a procurar equilibrar a utilização criativa das possibilidades colocadas à disposição no estúdio com a improvisação, que desejava manter como premissa fundamental no processo de criação. «Isso levou-me a ficar fascinado com as possibilidades composicionais da improvisação num contexto de estúdio. Para manter a improvisação no centro do disco, entramos no estúdio sem material preparado e estendemos o uso da improvisação em todo o processo de gravação», completa o baterista.

“Climbing in Circles pt. 4” é  assim o primeiro álbum no qual Glaser usou expressamente o estúdio como instrumento e veículo para a composição. E as pistas denunciadoras de que esta música nasce de um conjunto abrangente de referências sonoras – do jazz elétrico de Miles Davis ao negrume melancólico do trip-hop dos anos 1990, dos polirritmos de Moondog ao lirismo esdrúxulo de John Lurie – estão por toda a parte. Toda a música que aqui se escuta foi criada espontaneamente em estúdio, mas desta vez com uma utilização mais proeminente das possibilidades do estúdio, sob a forma de texturas eletrónicas adicionais, overdubbing e manipulação digital. Enquanto se mantém o compromisso com a liberdade criativa, fica claro que o álbum estrutura-se em torno de paisagens contrastantes e desafiadoras.

Tudo começa com “Beggings”, simples mas lindíssima melodia ao piano, subtilmente interpelado por via do processamento, que se dissipa numa nuvem eletrónica da qual lentamente emerge “Stained & Fractured Glass” improvisação intensa e mais textural, com o saxofone multímodo e a bateria em ebulição. “Spiral Dance” mostra Glaser na sua condição de baterista exemplarmente melódico, com as suas figuras de filigrana em perfeita articulação com a delicadeza do saxofone soprano. “Bad Dream Machines” tem acessórios de percussão soando como uma caixa de música e evolui para um groove garrido. “Subterranea” tem eletrónicas planantes aliadas ao saxofone garbarekiano de Herd.

“Middle Things” é vinheta abstrata que abre alas para a potência de “Of the Woods”, com o saxofone aveludado e pleno de um swing qua ganha propulsão na mais festiva e dançante “Dead Fly Disco”. “Ballad in the Jazz Style” é autoexplicativa na sua elegância, com saxofone fumarento, vassouras e demais pertences. Em absoluto contraste, “Psithurism” é um exercício caleidoscópio, primeiro vibrante, depois adquirindo um recorte quase camerístico. Fechando o círculo, “Endings” retoma a melodia base de “Beggings” e fecha com serenidade um álbum muito interessante, fresco e variado nas suas atmosferas, e que reclama audições repetidas.

  • Climbing in Circles pt. 4

    Climbing in Circles pt. 4 (Limited Noise)

    Will Glaser

    Will Glaser (bateria, percussão); Matthew Herd (saxofones, piano); Alex Bonney (eletrónicas, processamento de som)

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