Hyper.object: “inter.independence” (Phonogram Unit)

Hyper.object: “inter.independence” (Phonogram Unit)

Phonogram Unit

António Branco

Hyper.object é um projeto criado em 2019 pelo pianista Rodrigo Pinheiro e que junta outros dois veteranos da cena lisboeta da música livremente improvisada – o contrabaixista Hernâni Faustino e o manipulador de eletrónicas Carlos Santos – a dois músicos mais jovens, mas de valia reconhecida: o trompetista João Almeida e o baterista João Valinho. Lançam agora o registo de estreia, "inter.independence".

Quando a pandemia lançou o seu manto de medo e incerteza sobre o mundo, o pianista Rodrigo Pinheiro aprofundou o seu interesse pelas consequências imprevisíveis das ações que tomamos, quer na condição de indivíduos quer coletivamente. «Durante esse tempo li o livro “Black Swan”, de Nassim Nicholas Taleb, e também descobri o livro “hyperobjects - Philosophy and Ecology after the End of the World”, de Timothy Morton. Para Morton, um “hiperobjeto" é um fenómeno ou acontecimento cuja dimensão no espaço e no tempo é tão grande que ultrapassa a nossa compreensão, ou então algo que aparentemente julgamos controlar, mas que num futuro próximo (ou distante) pode dar origem a consequências completamente inesperadas.»

Hyper.object foi assim o nome dado ao projeto por si criado em 2019 e que junta outros dois veteranos da cena lisboeta da música livremente improvisada – o contrabaixista Hernâni Faustino (computando, com Pinheiro, dois terços do inescapável RED Trio) e o manipulador de eletrónicas Carlos Santos – a dois músicos jovens, mas que há muito ultrapassaram com distinção a barreira das promessas: o trompetista João Almeida e o baterista João Valinho. Depois de ter tocado com estes dois últimos noutros contextos, o pianista pensou em Faustino para se lhes juntar, inicialmente em quarteto; após alguns ensaios surgiu o convite a Santos para integrar o grupo. Antes da pandemia, reuniam-se frequentemente para sessões de trabalho em conjunto; depois, os encontros passaram a acontecer apenas nos momentos em que os confinamentos eram aligeirados. Foi numa destas aberturas (em setembro de 2020) que a formação gravou este que é o seu registo de estreia, sugestivamente intitulado “inter.independence”, com selo da Phonogram Unit, editora que continua a erguer um catálogo notável.

O quinteto – apetece considerar sexteto, dado o relevantíssimo papel desempenhado por um sexto e decisivo elemento, o silêncio – definiu como premissa central para a gravação que cada um dos cinco músicos, para além de ter total liberdade para improvisar e escolher o que tocar, se focasse ativamente no desenvolvimento das suas ideias e não em processos de ação-reação e de diálogo com os demais. A ideia do grupo passava por experimentar a criação de várias camadas sonoras individuais e independentes que interagissem entre si de modo orgânico e gerador de tensões, não pelo volume, mas pelo espaço e pelos silêncios: «Sugeri-lhes que cada um tentasse escolher uma ideia, por muito contrastante que fosse, e que cada um se fixasse nessa ideia e a desenvolvesse até ao limite. Pretendia-se conseguir a criação de várias camadas, cada uma independente das outras, de maneira a que as interações entre estas camadas pudessem aparecer naturalmente quer de uma forma inesperada quer de uma forma mais consciente.» «Falámos várias vezes em não ter receio de assumir o silêncio como uma parte fundamental na música que estávamos a criar e em tentar seguir ao máximo a ideia da inter-independência mesmo quando o discurso de cada um aparentemente não se ligava de uma forma mais imediata», acrescenta Pinheiro.

A música que aqui escutamos estrutura-se, ainda, em torno de duas dimensões contrastantes: a criada pelos instrumentos acústicos, mais evidente, e a eletrónica, mais “artificial” e habitando nos interstícios. Cada músico aporta elementos dos respetivos backgrounds, sejam no jazz, na música erudita contemporânea, na livre improvisação não-idiomática, mas também no rock, na música eletrónica, na música étnica.

A abrir a função, “glitch” tem sons eletrónicos a antecederem a enérgica entrada em cena dos demais instrumentos; o piano borbulhante, o trompete focado, a secção rítmica a fornecer a voltagem necessária. De atmosfera mais introspetiva, muito por conta das notas rarefeitas propostas pelo piano, “low” traz trompete sussurrado a desenhar apontamentos melódicos, percussão minuciosa, com Faustino a explorar os confins do seu instrumento (usando preferencialmente o arco) e eletrónicas subtis e eficazes. “glue”, onde a referida “inter-independência” se revela de forma mais evidente, transporta-nos de início para uma dimensão tranquila, adquirindo densidade crescente, com todos os instrumentos e suas relações cruzadas a contribuírem equitativamente para o todo sonoro.

“loss” assume um caráter mais fragmentado, hiperdetalhado, com todos os sons no sítio certo, resultando numa peça de forte teor imagético, metamorfoseando-se em distintas atmosferas. Em “glow”, a peça mais longa e, direi, mais jazzística de todas, menção é devida à notabilíssima prestação do trompetista, elevando as suas linhas sobre o piano de travo monkiano de Pinheiro e uma seçcão rítmica assertiva. “last”, onde a harmonia prevalece, é o perfeito epílogo para o que escutáramos até aqui, com o piano esparso interpelado pelo contrabaixo e pelas notas longas de trompete, com sons eletrónicos a complementarem o quadro sonoro com propósito e inteligência; Faustino recorre de novo ao arco e adiciona gravidade.

“inter.independence” é um álbum deveras desafiante, que reclama vagar para se fruir na plenitude.

  • inter.independence

    inter.independence (Phonogram Unit)

    Hyper.object

    Rodrigo Pinheiro (piano); João Almeida (trompete); Carlos Santos (eletrónicas); Hernâni Faustino (contrabaixo); João Valinho (bateria)

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