Luke Stewart's Silt Trio: “The Bottom” (Cuneiform)

Luke Stewart's Silt Trio: “The Bottom” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Um olhar menos atento sobre a cena da música criativa de Washington DC permitiria pensar que existem pelo menos quatro ou cinco Luke Stewart. Não, há apenas um, espécie de “vários eus”, como diria Pessoa: contrabaixista, saxofonista, produtor, radialista, ativista, vem há quase duas décadas integrando várias comunidades musicais. “The Bottom” é o novo álbum do seu trio com o saxofonista Brian Settles e o baterista Chad Taylor.

Criado na cidade costeira de Ocean Springs, perto de Biloxi, Mississippi, Luke Stewart não esteve muito exposto ao jazz e à música improvisada, tocando saxofone nas bandas das escolas que frequentou. No início da adolescência deixou-se atrair pelo baixo elétrico, criou um grupo punk e interessou-se pelas eletrónicas e pelo hip hop. A epifania do jazz aconteceu por sua conta e risco, partilhada com amigos que desenvolviam a mesma paixão. A opção pelo contrabaixo não tardou.

Ao longo dos últimos anos tem aprofundado o jazz e outras formas da cultura negra, mas não só, desmultiplicando-se por vários projetos, em diferentes áreas, do indie rock dos Laughing Man aos projetos de hip hop com Grap Luva e Damu the Fudgemunk, passando pelo trio experimental Mind Over Matter, Music Over Mind. No jazz, foi um longevo membro do trio OOO, com o saxofonista Aaron Martin e o baterista Sam Lohman. É artista residente na Union Arts and Manufacturing e apresenta semanalmente o programa de rádio “The Vibes” na WPFW, via que lhe permitiu estabelecer ligações com figuras revolucionárias do jazz como Yusef Lateef, Randy Weston, Muhal Richard Abrams ou Amiri Baraka.

O trio Silt, com o saxofonista Brian Settles e o lendário baterista de Chicago Chad Taylor, é apenas uma das facetas desta atividade multímoda. “The Bottom”, com selo da Cuneiform, revela um triunvirato coeso e sinérgico, que espelha na música que faz – previamente estruturada ou livremente improvisada –  as teias de cumplicidade que vêm de trás. Nas origens da formação era Warren “Trae” Crudup III, alma gémea musical, quem se sentava à bateria (lançaram “No Trespassing”, na plataforma Bandcamp, em março de 2020). Stewart conheceu Settles na primeira jam session em que participou em DC. Taylor torna-se personagem desta estória quando Stewart, fã de longa data, gravou com ele numa residência no Pioneer Works, em Brooklyn (onde compôs a maior parte do material que emergiu neste “The Bottom”), e com ele contactou no quadro de colaborações com o quarteto Fly or Die, da trompetista Jaimie Branch.

Chad Taylor dispensa apresentações. É figura maior do jazz mais aventuroso das últimas três décadas, bastando lembrar o Chicago Underground Duo com Rob Mazurek (e as várias iterações que daí têm emanado) e as suas ligações a gente distinta como Fred Anderson, Pharoah Sanders, Nicole Mitchell, Matana Roberts, Ken Vandermark, Darius Jones, James Brandon Lewis, Derek Bailey, Marc Ribot e Peter Brötzmann. Taylor é também o baterista do trio de Brian Settles (que se completa com o pianista Neil Podgurski), documentado em 2020 no excelente “The Daily Biological” (Cuneiform), oportunamente recenseado pela jazz.pt, aqui

Natural da capital dos Estados Unidos, Settles toca regularmente em formações como Tomas Fujiwara and The Hook Up, os Cheating Heart e a big band Kolossus de Michael Formanek, e em grupos liderados por Jonathan Finlayson. Protegido de Stanley Turrentine, lançou dois álbuns na condição de líder, apostando nas suas composições animadas e concisas: “Secret Handshake” (Engine, 2011), com o quinteto Central Union, a que se seguiu “Folk” (Engine, 2013), em trio.

Mas nenhuma formação espelha melhor o trabalho de Stewart do que este trio com Taylor e Settles. A abordagem aberta do grupo à forma e as investigações no plano rítmico estabelecem um universo sonoro que olha para a frente fundado nas aventuras do passado. «Penso que é hora de nos focarmos novamente em ritmos e grooves livres», sublinha Stewart. «Não no sentido dos MBase de Steve Coleman [entrevistado pela jazz.pt em 2019, aqui], mas no sentido do poder que o ritmo tem de invocar espíritos. Entramos nele com essa intenção. Esse conhecimento está lá e resulta dessa interação. Chad é um músico tão rítmico, um dos mestres, e é realmente uma situação perfeita para eu e o Brian explorarmos este conceito com ele.»

«Abordei a sessão de gravação o mais próximo possível de tocar um “set”, organizando a sequência com isso em mente», revela Stewart em notas de apresentação do álbum. «As composições são alternadas com momentos de improvisação livre, mas essa improvisação livre é contextualizada pelo que aconteceu antes e depois. É uma viagem e a sessão de gravação reflete isso.» O álbum abre com “Reminiscince”, com a mbira (exemplar do Zimbabué) de Taylor a ecoar de modo encantatório a África ancestral. Nos últimos anos, Stewart tem aprofundado o estudo da mbira com Taylor, sendo esta peça vagamente baseada num motivo melódico da cultura Shona. Com o seu colorido exuberante, “Roots” é uma exploração polirrítmica que nos transporta à África Oriental, Caraíbas, Nova Orleães, Chicago e ao Harlem. Stewart e Taylor urdem um intrincado tricot rítmico sobre o qual Settles paira. 

Surge então a peça mais extensa do disco, “Angles”, jornada picaresca pontuada pela notável delicadeza do trabalho do baterista, nos címbalos e nas peles, com Stewart a recorrer ao arco para acrescentar intriga e Settles a sussurrar. O tema-título, inspirado pelas mudanças abruptas na paisagem que o líder observou durante uma viagem pela Highway 6 em busca da casa de infância do avô, funciona como pedra angular do álbum, com a potente linha de contrabaixo a lançar novo groove, incrementando tensão e intensidade sem aumentar o volume ou a velocidade. O flamejante “Circles” (com Settles a evocar luminárias como Ornette ou Ayler) dá lugar à atmosfera mais descontraída de “Dream House”, memória do centro artístico de La Monte Young em Tribeca, com Taylor incrível nas escovas e a precisão do contrabaixo, a que se junta o discurso luminoso de Settles. A milhas de saudosismos estéreis, “The Bottom” enraíza nas experiências passadas, delas brotando o futuro. Ouçamos como.

 

  • The Bottom

    The Bottom (Cuneiform)

    Luke Stewart's Silt Trio

    Luke Stewart (contrabaixo); Brian Settles (saxofone tenor); Chad Taylor (bateria, mbira)

Agenda

26 Novembro

Tiago Sousa

Cossoul - Lisboa

26 Novembro

Lynn Cassiers, Manolo Cabras e João Lobo “Dancing With Don”

Porta-Jazz - Porto

26 Novembro

Clara Lai, Amidea Clotet, João Almeida e João Valinho

Penha sco - Lisboa

26 Novembro

Orquestra de Jazz de Espinho com João Barradas

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

26 Novembro

José Lencastre, Ziv Taubenfeld e Felice Furioso

SMUP - Parede

26 Novembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

26 Novembro

Mariana Dionísio, Clara Lacerda e Romeu Tristão

Adega do Museu Rural e do Vinho - Cartaxo

26 Novembro

Practically Married

Hot Clube de Portugal - Lisboa

27 Novembro

Jorge Moniz “Cinematheque”

Cine-Teatro Louletano - Loulé

27 Novembro

Lynn Cassiers / Manolo Cabras / João Lobo “Dancing With Don”

MAAT - Lisboa

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