Anticlan: “Hurricane City” + Real Mensch: “Not Playing Ball” (Edições de autor)

Hugo Costa

Anticlan: “Hurricane City” + Real Mensch: “Not Playing Ball” (Edições de autor)

Edição de autor

António Branco

Radicado em Roterdão, Países Baixos, desde 2010, o saxofonista Hugo Costa continua em grande atividade. Chegam agora duas novidades de projetos que integra: "Hurricane City" de Anticlan (na foto) e "Not Playing Ball" de Real Mensch.

Desde que em 2010 se estabeleceu em Roterdão, Países Baixos, após ter terminado os estudos no Conservatório de Tilburg, o saxofonista alto Hugo Costa, alguém a quem há muito reconhecemos sólidos predicados, integra a importante cena local (com extensão a Amesterdão) do jazz mais aventuroso e da livre improvisação. Na linha da frente do seu trabalho nos últimos anos tem estado o power-trio Albatre – ao lado do baixista (e contrabaixista) Gonçalo Almeida e do baterista alemão Philipp Ernsting, formação que nos tem oferecido uma música mercurial (já apodada de jazzcore) que tanto radica no free jazz pós-Ornette como nas expressões mais cruas do rock, punk e metal, em discos com “The Fall of the Damned” (2018), “Nagual” (2015) ou no notável “A Descent into the Maelstrom” (2013). Integra também um trio com o contrabaixista Raoul van der Weide e o baterista Onno Govaert e, já este ano, ao lado do contrabaixista Hernâni Faustino e do baterista João Valinho, ofereceu-nos “Garuda”, com chancela da indiana Subcontinental Records (recenseado na jazz.pt aqui).

De Anticlan (na foto), consórcio multinacional de que já conhecemos “Volcano Hour” (2018) e “Close to the Bone” (2020), ambos na Creative Sources de Ernesto Rodrigues, chega agora “Hurricane City”. Os polos idiomáticos não serão muito diferentes de Albatre, mas os processos criativos são-no, desde logo pelo caráter determinante da componente escrita em Albatre, dimensão ausente em Anticlan. Face aos dois registos anteriores desta formação, mais energéticos e explosivos, em “Hurricane City” é explorada uma maior amplitude de possibilidades em termos de dinâmicas, texturas e interação, bem como uma mais notória atenção ao detalhe.

O trio – em que a Hugo Costa e ao mesmo Ernsting se junta outro músico migrante, o guitarrista de origem mexicana Josué Amador – apresenta-nos uma música completamente improvisada, urgente e espontânea, que evolui de forma orgânica, com guitarras que se aproximam do rock mais abrasivo e um tandem saxofone-bateria, de cuja articulação emanam inesperadas mudanças de direção. É este também o manifesto de intenções para “Hurricane City”, acrescendo algumas passagens mais serenas e contemplativas, gerando um mais alargado mosaico emocional.

A abrir, a peça-título em que ruminações da guitarra dão o mote; entram saxofone num registo agudo, cortante, e bateria cheia de subtilezas. Os primeiros minutos deixam clara forma como o trio faz música em conjunto, em três dimensões paralelas que coexistem e se influenciam mutuamente. A dado ponto, o saxofone assume os comandos, enquanto a guitarra tece um fundo rítmico e repetitivo e a bateria interage com outra camada muito intensa. A peça evolui para um final que se antevia flamejante, mas que, ao invés, acontece a tender para a tranquilidade.

Os primeiros sons de “Fragmented Futures”, uma improvisação coletiva, parecem aludir precisamente ao título da peça, com peças que se vão encaixando, ou não, sublinhando ideias ou exacerbando contrastes, tudo desenvolvido com minúcia de relojoeiro. Impulsionada pela bateria, a música adquire intensidade com o saxofone a propor frases intrincadas nos registos extremos do instrumento, acompanhado pelos acordes dissonantes da guitarra. O saxofone parece adquirir natural proeminência, mas logo os outros instrumentos reclamam o seu papel na arquitetura sónica (Ernsting, esquivando-se com propósito a rótulos, opta amiúde pela construção de texturas laboriosas, que justificam uma especial atenção ao que faz em cada momento), elevando a parada para um desenlace em crescendo de tensão, dissipada mesmo no estertor.

“Blue Velvet”, o epílogo, aparenta estar mais próxima de certo parâmetros do rock desfiliado, peça direta, descarnada, muito por causa da alta voltagem que a guitarra injeta (em vários momentos tanto Fred Frith como um Syd Barrett a caminho do colapso vieram ao pensamento). A intensidade cresce até atingir um clímax em que os tês instrumentos se unem. Costa solta-se e parte num voo sem amarras.

Real Mensch, projeto mais recente, formou se a partir de um convite endereçado pelo baterista e manipulador de eletrónicas Assi Weitz (JAP, Gone Bald, Sophya) a Costa e a Robert Gradisen (laptop) para uma sessão em Amsterdão. Após algumas Não esperaram muito até concluir que o projeto tinha condições para avançar. Em termos do “modus operandi”, estamos perante uma espécie de híbrido entre Albatre e Anticlan, com a sua peculiar mistura de elementos compostos com improvisações totais, criando paisagens sonoras que equilibram organicidade e eletrónicas, numa música impactante e que desafia catalogações simplistas. Avulta a faceta mais melódica e textural desenvolvida pelo saxofonista, que mostra uma outra faceta da sua abordagem. O resultado é um caleidoscópio sonoro que convoca psicadelismos, memórias de bandas sonoras de policiais dos anos sessenta e até um certo groove frio e industrial.

Se “Starter” diz muito sobre os propósitos do trio, com a sua pulsação eletrónica mutante e as deambulações focadas do saxofone, cruzando música eletrónica e free jazz, “Winner” exibe uma tensão latente, sob ameaça de explosão, e um interlúdio planante, que deixa o ouvinte permanentemente num misterioso limbo. “Massive” tem um groove denso e hipnótico, de onde despontam frases do saxofone que paulatinamente vão ganhando forma, e “Drone” remete-nos para uma paisagem industrial, austera e opressiva. “Shorty”, intitulada de forma autoexplicativa, pelos seus menos de quatro minutos de duração, é sobretudo uma declaração do saxofonista a tocar frases ousadas usando o registo altíssimo do instrumento – a espaços soando a certos instrumentos orientais – sobre um beat de matriz hip hop.

Dois discos claramente distintos, mas muito interessantes, repletos de música ricamente vigorosa, e que, acima de tudo, não deixam ninguém indiferente, o que só pode ser bom.

  • Hurricane City

    Hurricane City (Edição de autor)

    Anticlan

    Hugo Costa (saxofone alto); Josué Amador (guitarra); Philipp Ernsting (bateria)

  • Not Playing Ball

    Not Playing Ball (Edição de autor)

    Real Mensch

    Hugo Costa (saxofone alto); Assi Weitz (bateria, eletrónicas); Robert Gradisen (laptop)

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