João Frade & Tuur Moens: “Rewind” (Kimahera)

João Frade & Tuur Moens: “Rewind” (Kimahera)

Kimahera

António Branco

Festim sonoro cosmpolita e plural, “Rewind junta o acordeonista português João Frade ao baterista belga Tuur Moens.

O acordeonista e compositor João Frade (n. 1983) é um cosmopolita e a sua atividade tem vindo a refleti-lo em diferentes tabuleiros. Algarvio de origem, iniciou, ainda bastante jovem, um processo de interiorização e processamento dos diferentes sons com que se ia confrontando – fossem de África (Senegal, Mali, Marrocos) ou do universo latino-americano (Cuba, Brasil, Porto Rico), sem abdicar das raízes ibéricas e mediterrânicas –, materiais que lhe permitiram gizar uma abordagem própria à música e ao instrumento que lhe escolheu para se expressar criativamente.

O jazz – principalmente o dito de fusão – e a improvisação funcionam como argamassa aglutinadora dessa miríade de referências e como pedra angular de uma linguagem pessoal que deu azo a inúmeras colaborações, quer em Portugal, quer no estrangeiro. O longo rol de figuras com quem já trabalhou inclui nomes como os de Airto Moreira, Antonio Mesa, Stanley Jordan, Flora Purim, Hugo Alves, Mariza, Jorge Pardo, Carles Benavent, Mário Laginha, Carlos Bica, Didier Labbé e Carmen Souza, apenas para citar alguns.

Depois de explorar uma inusitada (e estimulante) associação em duo com o trompete do também algarvio Hugo Alves – em “Morphosis”, recenseado na jazz.pt aqui – e de um álbum homónimo, ambos editados em 2019, Frade regressa com “Rewind”, em consórcio com o baterista belga Tuur Moens. Foi a partir da Polónia, onde se encontrava em digressão, que explicou à jazz.pt o título escolhido, que deixa antever um olhar para atrás, «um ato de recapitulação de projetos, criações, colaborações que ficaram suspensas assim que se deu a pandemia.»

Os primeiros contactos com o trabalho de Moens deram-se na internet e hoje os dois partilham também o projeto do multi-instrumentista brasileiro Munir Hossn, entretanto radicado nos Estados Unidos. Durante uma temporada em Madrid, Frade e Moens integraram um quarteto com o saxofonista e flautista espanhol Jorge Pardo e daí em diante surgiram inúmeras oportunidades de colaboração, quer em projetos pessoais quer paralelos (o álbum de Moens, “Nebula”, de 2018, foi produzido por Hossn e conta com a participação especial de Pardo na flauta). As afinidades entre ambos ficam bem expressas não apenas no painel de influências comuns, mas também, e sobremodo, na forma como incorporam esses elementos na música que fazem.

A conceção de “Rewind”, gravado entre Albufeira e Roterdão durante o período de confinamento, muito deve à proximidade permitida pela tecnologia. Como uma carta, Frade decidiu enviar áudios juntamente com algumas imagens colhidas durante o seu registo para Moens, que de pronto acedeu ao convite, «porque ambos acreditamos na resiliência enquanto “ferramenta” obrigatória para tornar o nosso mundo um lugar melhor», dizem nas notas de apresentação do disco. O processo colocou alguns constrangimentos, sobretudo «fazer com que a música soasse “viva” e não algo um pouco mais frio ou menos dinâmico, que este tipo de contextos normalmente conduzem», acrescenta o acordeonista.

Os resultados ficam logo claros no tema de abertura, “Fly”, da autoria de Moens, com o seu beat complexo, a raiar o drum´n´bass, que nos transporta para o bulício de uma grande metrópole, contrastado por uma primeira melodia mais solta, e um segundo momento mais tenso. Segue-se “Bylas”, peça resgatada a “Morphosis”, adquire aqui uma vibração mais latina, com flautas e o trompete de Diogo Duque. “Paradox”, espécie de interlúdio sci-fi com baixos e teclados eletrónicos, antecede “Inpulse”, peça orelhuda saída da pena de Frade, de melodia soalheira, cortesia também do pianista cubano Luis Guerra e do baixo do espanhol Jesus Bachi.

De veia mais assertivamente methenyana, por via da guitarra e das vocalizações do brasileiro Augusto Baschera, “Sinestesia” faz parte de uma série de composições de Frade inspiradas em discos de músicos que fizeram parte do movimento Clube da Esquina (surgido na década de 1960 em Belo Horizonte, tendo como figuras tutelares Milton Nascimento, Toninho Horta ou Wagner Tiso) e conta com um notável solo de João Barradas no acordeão processado. “Wenda” traz ecos de ritmos africanos e de “Crush”, um dos momentos mais interessantes do disco, avulta uma veia mais exploratória. “Resilient” é o festim tímbrico (com o vibrafone de Eduardo Cardinho a destacar-se) que encerra o álbum numa toada otimista.

Fresco e plural, “Rewind” é um disco com potencial para agradar a uma faixa alargada de público. Aconselhado a todos que os entendem a música como um desígnio universal e sem fronteiras.

  • Rewind

    Rewind (Kimahera)

    João Frade & Tuur Moens

    João Frade (acordeão, teclados, voz, composições, arranjos); Tuur Moens (bateria, teclados, voz, composições, arranjos); Adriano Alves “Dinga” (baixo elétrico; Adam Hersh (teclados, sintetizadores); Augusto Baschera (guitarra elétrica, voz); Diogo Duque (trompete, flauta); Eduardo Cardinho (vibrafone); François Lapeyssonnie (baixo elétrico); Léo Vrillaud (teclados); Jesus Bachi (baixo elétrico); João Barradas (acordeão synth); João Silva (violino); Michael Olivera (voz); Nino Jazz (Fender Rhodes, teclados); Luis Guerra  (piano, Fender Rhodes); Panagiotis Andreou (baixo elétrico); Tiago Oliveira (guitarra elétrica); Tony Grey (baixo elétrico); Yarel Hernandez (baixo elétrico); Xico Santos (baixo elétrico)

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