Indra Trio: “Shiva” (Edição de autor / GDA)

Indra Trio: “Shiva” (Edição de autor / GDA)

Edição de autor/GDA

António Branco

Três anos depois da auspiciosa estreia, o Indra Trio, constituído pelo pianista Luís Barrigas, o contrabaixista João Custódio e o baterista Jorge Moniz, regressa com o segundo álbum, “Shiva”.

Fascinados pela distante e enigmática (aos nossos olhos ocidentais) cultura hindu, mais do que propriamente ligados à dimensão religiosa, o pianista Luís Barrigas, o contrabaixista João Custódio e o baterista Jorge Moniz, figuras com sólidos predicados no jazz nacional, formaram o trio Indra, que em 2019 nos ofereceu o seu registo inaugural homónimo (então recenseado aqui). Se, no Hinduísmo, Indra é o deus do céu e rei dos deuses da natureza (Deva), associado à chuva e aos cursos de água, Shiva, juntamente com Brama e Vixnu, forma a trimúrti, a trindade divina, sendo apodado de “o Destruidor” (ou “o Transformador”). «Esta ideia da destruição e regeneração foi algo que me atraiu. Pensei que seria interessante no momento atual fazer música integrando este pensamento de transformação», diz o pianista Luís Barrigas à jazz.pt.

“Shiva” é por isso a aguardada sequela discográfica de uma formação que continua a trilhar caminhos próprios, convocando tanto elementos distintivos do jazz de feição mais europeia como da música erudita (não esqueçamos que Moniz editou no final de 2021 o disco “Cinematheque”, no qual revelou as suas experiências numa linguagem mais próxima deste universo), com a improvisação a assumir um papel central e comum. O novo registo dá continuidade ao ideário expresso no anterior, porventura até de forma globalmente mais coerente – apesar do menor tempo para experimentar a música antes de a gravar –, algo que é corroborado pelo pianista: «Tanto pelo facto de estarmos a tocar juntos há mais tempo, fazendo com que a música possa fluir cada vez melhor, como pela própria forma programática dos títulos de cada tema.»

A música que une o trio continua a pautar-se pela procura de um encontro com a natureza e com uma ligação profunda aos sons, numa só aparente simplicidade, porém indagando algo muito mais profundo. Neste “Shiva” apresentam uma coleção de composições originais que continuam a exibir elos orgânicos entre os três músicos, aprofundando uma relação empática que resulta do conhecimento que têm uns dos outros, sem que tal se traduza em rotina ou previsibilidade. Partindo de ideias escritas geralmente sucintas (esmagadoramente para o piano, nada está escrito para a bateria e só algumas vezes para o contrabaixo), os três músicos abrem considerável espaço à improvisação e à criação espontânea.

O pianista continua a ser a principal força compositora do grupo, assinando sete das nove peças incluídas no disco (Moniz é autor das duas restantes), mas os vértices desta geometria interagem de modo equilibrado e sem protagonismos particulares. Não propondo uma revolução nos pilares fundacionais do formato piano-contrabaixo-bateria, o trio continua a interpelar o legado e a desvendar recantos desta “clássica” configuração instrumental, ainda com bastante terreno para perscrutar, tanto pelo que se ouve como por aquilo – que por vezes é tanto – que não se ouve, «pela maior exposição de cada instrumento e pelas possibilidades de mais silêncio e espaço que cada um pode ter», acrescenta Luís Barrigas.

A abrir, “Luz Crescente”, valsa onde melodia e harmonia se aproximam das antigas canções de jazz, diz logo ao que o trio vem, com o vincado melodismo do pianista a ser bem sublinhado pela segurança de Custódio e pela delicadeza da abordagem de Moniz. (A lua crescente surge nos cabelos de Shiva simbolizando estar este além das emoções.) Ritmicamente mais intenso, “Lingam” – símbolo que representa a fertilidade, força vital para a criação – exibe uma estrutura clássica, como um motivo apresentado, explorado e depois reexposto sempre com groove. Alguns dos momentos mais interessantes do disco acontecem em “Serpente”, lenta e belíssima peça que assenta num ostinato de mão esquerda que move alguma harmonia e uma melodia, emanando um lirismo com muito de português.

“Inércia-Movimento-Equilíbrio” é uma mini-suíte constituída por três andamentos; “Inércia” é mais arrojado e atonal, “Movimento” traz uma ótima intervenção do contrabaixista e uma colagem de vozes na rádio, espelho do caos em que por vezes estamos mergulhados, e “Equilíbrio” uma melodia frugal com Barrigas a recorrer ao sintetizador. Merecedoras de nota são ainda a serenidade oblíqua da peça-título, a fluência mais jazzística de “Nimba”, peça original de Jorge Moniz baseada numa figura que paulatinamente se vai transformando, ou a riqueza de “Damaru”, também saída da pena do baterista, balada contemplativa banhada pelas notas cristalinas de Barrigas, sublinhadas pelas notáveis prestações de Custódio e Moniz, este exemplar nas escovas. “Nataraja”, tema concebido como banda sonora, é uma espécie de dança pela abordagem do contrabaixo contrastada pela bateria, que livremente interpela esse ritmo constante.

“Shiva” é um disco sóbrio e cuidado, que ganha balanço no jazz para partir noutras direções, resultado do trabalho de três músicos que fazem da cumplicidade ingrediente essencial para, em conjunto, dar resolutos passos em frente.

  • Shiva

    Shiva (Edição de autor/GDA)

    Indra Trio

    Luís Barrigas (piano e sintetizador); João Custódio (contrabaixo); Jorge Moniz (bateria)

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