Mário Laginha Trio: “Jangada” (Edition Records)

Mário Laginha Trio: “Jangada” (Edition Records)

Edition Records

António Branco

“Jangada” é o novo e muito aguardado disco do trio do pianista e compositor Mário Laginha, com o contrabaixista Bernardo Moreira e o baterista Alexandre Frazão, troika de sinal positivo que, três décadas depois, não cessa de surpreender.

A edição de um disco do trio liderado por Mário Laginha (n. 1960) é sempre razão para júbilo. “Jangada”, assim se chama o novo, e muito aguardado, registo do trio, volta a juntar o pianista e compositor ao contrabaixista Bernardo Moreira e ao baterista Alexandre Frazão, troika de sinal positivo que, três décadas depois, não para de surpreender. Depois de “Espaço” e “Mongrel”, este editado no já longínquo ano de 2010, no qual o trio indagou o universo musical, tão belo quão complexo, de Frédéric Chopin, “Jangada”, com selo da inglesa Edition Records, evidencia que os três músicos têm ainda, conjuntamente, muito por dizer na exploração desse manancial virtualmente infinito que é o da tradição do jazz, aqui bem presente, e desta pitagórica configuração instrumental.

Laginha prossegue, incansável, no seu labor de trabalhar elementos de diferentes tabuleiros musicais, com o jazz no fiel, mas convocando a tradição erudita, a música portuguesa, as sonoridades africanas. O próprio título do álbum alude a este facto, com a “jangada” (descortina-se a palavra Raft no centro da capa, tal como as letras J A N G A D A) a servir de metáfora para esse processo de juntar peças soltas para formar um todo uno e coerente. O trio continua a demonstrar uma empatia alquímica que, sendo a pedra angular do que escutamos, nunca se traduz num retomar de rotinas ou no requentar de fórmulas e procedimentos já consagrados. Bastam os primeiros minutos para se perceber que os três músicos trabalham com a mesma centelha os materiais sonoros fundamentais que reconhecemos na abordagem de Laginha. O todo é superior à mera soma algébrica das três identidades musicais, o que musicalmente é um triunfo. E há um quarto personagem não despiciendo neste processo: o silêncio…

É notório que Laginha continua a escrever música que assenta como uma luva nas características sonoras, tão marcadamente distintivas, de Moreira e Frazão. É o pianista que em entrevista recente à jazz.pt (ler aqui) diz que «já nos conhecemos tão bem que por vezes parece ensaiado aquilo que não é. Talvez isso seja uma das características que melhor nos define e que resulta num enorme prazer em tocarmos juntos.» Estão por aqui as componentes essenciais que reconhecemos nas construções de Laginha: o melodismo infalível, a enorme elegância harmónica, a efervescência rítmica, sempre uma renovada vitalidade e a apetência para dar passos em frente. “Jangada” continua a contar histórias. De facto, a música tem um fio condutor, ainda que este possa ser abstrato. «Não querendo prescindir de nenhum desses elementos, há que os explorar de uma forma que deixe uma impressão digital, por mais pequena que ela seja. Isso é, e será sempre, fascinante.»

A abrir, um monumento: “Short Shore”, com notas de um pianismo luminoso, padrão exposto pela mão direita complementado pela melodia cortesia da mão esquerda, esta em uníssono com o contrabaixo. Acresce a delicadeza prenhe de detalhes da bateria de Frazão. Peça belíssima em que escrita e improvisação são como Jano. A intensidade fulgurante de “Disquiet” é o resultado de um desafio colocado ao pianista pela Casa Fernando Pessoa e tem tudo a ver com o desassossego sublimado pelo poeta. A harmonia em constante mutação e a melodia em contraponto são a notável tradução sonora dessa inquietação. Em contraste, escutamos a serenidade diáfana que emana de “Ribeira da Barca” – nome de uma pequena aldeia piscatória localizada na ilha de Santiago, em Cabo Verde, de onde é natural Tcheka, músico adorado por Laginha. Eis uma melodia aparentemente simples que reclama uma letra. Menção especial para a enigmática “Efedra”, o retomar de formas devedoras da tradição clássica em “Chorale N.º 2” ou a soberba “The Stone Raft (A Jangada de Pedra)”, devedora do universo saramaguiano. “Between Two Worlds”, peça que encerra o álbum, envolve-nos numa bem-vinda atmosfera otimista.

Recolocando Laginha no píncaro das suas capacidades jazzísticas, “Jangada” é um disco maravilhoso para o qual confluem passado, presente e futuro.

  • Jangada

    Jangada (Edition Records)

    Mário Laginha Trio

    Mário Laginha (piano); Bernardo Moreira (contrabaixo); Alexandre Frazão (bateria)

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