Mané Fernandes: “ENTER THE sQUIGG” (Clean Feed)

Mané Fernandes: “ENTER THE sQUIGG” (Clean Feed)

Clean Feed

António Branco

A fantástica jornada sónica que o guitarrista, compositor e improvisador Mané Fernandes (n. 1990) nos propõe começa logo no título: “ENTER THE sQUIGG”, o seu primeiro com selo Clean Feed. O que significa? «Absolutamente nada, é um nome absurdo», diz à jazz.pt o artífice deste universo muito particular.

Não esqueçamos, porém, o título de um muito famoso disco de hip-hop dos anos 1990 e a explicação do termo “sQUIGG”, derivado de “squiggle”, que significa rabisco. «Esses invisíveis rabiscos são traduzidos para a experiência da música», acrescenta Mané Fernandes. «Eu não escolhi o “sQUIGG”, o “sQUIGG” escolheu-me a mim e agora só me resta convidar toda a gente a vir comigo.»

Prosseguindo uma abordagem multímoda e indefinível, documentada em várias frentes de trabalho, Fernandes, natural do Porto, desenvolveu este projeto durante os quatro anos em que viveu na culturalmente fervilhante Copenhaga, cidade para onde se mudou para frequentar um mestrado em improvisação. O que constrói funda-se em certos parâmetros estéticos do hip-hop e da eletrónica, que depois subverte, manipulando-os com a liberdade e a curiosidade de um improvisador do jazz, utilizando sem pruridos recursos criativos de produção eletrónica. E é assim sobretudo que se vê a si próprio: improvisador e discípulo da música. «O meu processo criativo passa pela pesquisa e estudo dos diversos aspetos da música que me fascinam, desde ritmo, harmonia e linguagem melódica, até forma, timbre e estética», refere o músico.

Ao que faz chama estética “pós-beat”, onde premissas são questionadas, normas definidas e rapidamente estilhaçadas, fronteiras esbatidas: «Vi isso a surgir no meu percurso e ouço-o na expressão de muitas pessoas da minha geração. Se estou a improvisar livremente, faço-o de um ponto de vista “pós-beat”, se estou a tocar música original minha ou de outra pessoa, faço-o de um ponto de vista “pós-beat”.» Aprofunda: «aquilo que o rock e o punk foram para muitos improvisadores, eu encontro na música “beat” de LA, nos gnawa do norte de África ou na IDM. É um processo orgânico de assimilação que se revela quando há total honestidade na improvisação e na composição, sem rodinhas de treino nem medo. Acima de tudo sem medo.» Mas independentemente deste termo, a tradição que mais influencia a sua música chama-se black american music: «é um termo mais amplo, mais justo e mais poderoso do que “jazz” ou algo parecido. Estética “pós-beat" é um termo pessoal. Black american music é um termo de consciência social», sublinha.

“ENTER THE sQUIGG” – apresentado ao vivo na mais recente Festa do Jazz, em dezembro de 2021 (reportagem jazz.pt) – surge na esteira dos discos que o precederam, “BounceLab” e “Root Fruit”. O primeiro, maioritariamente constituído por originais, foi concluído assim que terminou a licenciatura, um passo decisivo. “Root Fruit”, que apenas conhece existência digital, funciona como complemento do anterior, documento do que atingiu como improvisador tocando repertório tradicional de jazz e desse trio. O novo álbum conheceu um processo de maturação completamente diferente, com composições suas, produção partilhada com o baixista e compositor italiano Luca Curcio, e representa a abertura a todo um conjunto de possibilidades que o atraem e que continuará a explorar nos próximos anos. Momentos distintos, música distinta, «com todas as semelhanças e diferenças que isto implica.»

O núcleo central deste projeto completa-se com o baterista Simon Albertsen. Os caminhos dos três cruzaram-se na capital dinamarquesa, vivendo juntos vários anos. A partir das ideias e sugestões de Fernandes, o trio desenvolveu uma forma de tocar muito própria, burilada numa intensa rotina quotidiana. No disco escutamos também dois amigos próximos: o pianista José Diogo Martins e o saxofonista José Soares, companheiro do Porto de longas jams e do projeto The Mantra of the pHat Lotus, que logo encaixaram nos propósitos da formação. O que aqui escutamos resulta de dois dias de gravação em estúdio e de subsequentes cinco meses de meticulosa produção – overdubs, cortes e recortes criativos, processamentos, desenho de som.

Tudo começa com “Ode to the Mixtape”, evocação da adolescência, no início dos anos 2000. Início abstrato, adquirindo um groove generoso do qual emana o discurso altivo de José Soares, que ganha momento com o passar dos segundos e a guitarra de Fernandes a assumir-se como fio de Ariadne; e aquele derradeiro minuto hiper-bop. “Boom Boom Bap”, tour-de-force para o contrabaixo de Luca Curcio, é reminiscente do “dancehall” jamaicano. Uma grande parte do conteúdo melódico e harmónico de “PLRLT∞NFNT” (de “plurality, infinity”), com o seu paisagismo sonoro sedutor e de audição viciante, nasceu da simplicidade de uma guitarra acústica numa jam caseira. A abordagem rítmica emergiu para contextualizar um “erro” de samplagem; Mané pensou no groove como um “23 por 32” (23 fusas em vez das mais típicas 24) que evoca uma relação supersticiosa com os números 23/32 (também os números das camisolas envergadas pelos lendários basquetebolistas Michael Jordan e Earvin ‘Magic’ Johnson). Notável é o contraste entre a complexidade da secção rítmica e a atmosfera descontraída nos planos melódico e das improvisações. 

Em “The Move”, escrita uma semana antes da gravação, a guitarra camaleónica paira sobre tapete eletrónico; peça ritmicamente exigente e com uma melodia basicamente dodecafónica. Na flauta, Flávia Huarachi dobra a improvisação de Fernandes na primeira secção do solo, em que Soares pega para partir para uma soberba declaração. “Makuma ‘79” (o irmão mais velho de Mané, António, também guitarrista, em criança autoapelidava-se de “Makuma”) tem um forte travo a Brasil, com Milton Nascimento a acorrer logo ao pensamento. Um belo solo de João Barradas é antecedido pela voz de António, o primeiro áudio que Mané encontrou no telemóvel e que encaixou na perfeição no tempo pretendido. Também se escuta o som da chuva e do comboio na estação mais perto da casa onde trabalhavam na produção.

“Goyaweh”, com a bateria de Albertsen no coração, envolve-nos numa atmosfera cinemática, com uma linha melódica trauteável que se vê envolvida num jogo do gato e do rato com a dupla rítmica, mantra várias vezes repetido aliado à produção que o contextualiza. “Pink_M”, dividida em três partes, é introduzida por um contraponto improvisado entre guitarra e saxofone a que se segue um beat eletrónico quente e uma exploração tímbrica com um pequeno hino no final. “Pentagram Ceremony Squiggle”, funk com vibração de jogo de vídeo tipo “Street Fighter”, tem a guitarra suportada por uma dupla rítmica em efervescência, ecos sinistros que nos transportam para uma catedral gótica, e novo solo alienígena de Barradas.

Momento maior do percurso de Mané Fernandes, “ENTER THE sQUIGG” apenas levanta a ponta do véu de uma história que se antevê longa. Já esperamos os próximos capítulos.

  • ENTER THE sQUIGG

    ENTER THE sQUIGG (Clean Feed)

    Mané Fernandes

    Mané Fernandes (guitarra e eletrónicas); Luca Curcio (contrabaixo, synth bass); Simon Albertsen (bateria); José Soares (saxofone alto); José Diogo Martins (piano); João Barradas (acordeão Midi); Flávia Huarachi (flauta)

Agenda

29 Novembro

Sélène Saint-Aimé

Teatro da Trindade - Lisboa

29 Novembro

Mariana Dionísio e João Pereira “Tracapangã”

Hot Clube de Portugal - Lisboa

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

Ver mais