Mário Barreiros: “Dois Quartetos Sobre o Mar” (Edição de autor)

Mário Barreiros: “Dois Quartetos Sobre o Mar” (Edição de autor)

Edição de autor

António Branco

O muito aguardado regresso de Mário Barreiros aos discos de jazz. A longa espera compensou.

Foi o mediático explorador Jacques-Yves Cousteau quem certeiramente disse: «Durante a maior parte da história, o homem teve que lutar contra a natureza para sobreviver; neste século, ele está a começar a perceber que, para sobreviver, deve protegê-la.» Bebendo na mesma sensibilidade, o título do novo álbum do baterista, compositor e produtor Mário Barreiros (n. 1961) explica-se a si mesmo, dado a inspiração colhida num documentário «retrato real sobre a vida nos oceanos». Gravado no verão de 2021, entre Lisboa e o Porto, é uma homenagem «a todas as pessoas que estão a cuidar do mar», e um grito de alerta.

O músico portuense considera que este trabalho coletivo radica um dois ambientes distintos, um “pacífico” – mais contemplativo e “romântico”, este último adjetivo é da lavra do próprio – e outro “abissal”, «mais exploratório de águas densas e profundas.» Dois quartetos foram gizados para operacionalizar esta visão dupla, mas coerentemente una que nos é oferecida em “Dois Quartetos Sobre o Mar”, álbum já de 2022, que assinala o regresso de Mário Barreiros, década e meia depois, aos discos de jazz, o que é motivo de júbilo. O Quarteto Pacífico (que assume as quatro primeiras peças) conta com os préstimos do saxofonista alto Ricardo Toscano, do pianista Abe Rábade e do contrabaixista Carlos Barretto; o Quarteto Abissal (a seu cargo estão as restantes quatro) tem o saxofone tenor de José Pedro Coelho, o piano de Miguel Meirinhos e o contrabaixo de Demian Cabaud.

Dois quartetos com configurações instrumentais quase idênticas, mas com abordagens muito diferentes, estimulantemente diferentes, em que Barreiros, com toda a sua mundividência sonora, é muito mais do que o fiel de uma balança coerente e equilibrada. Não esquecer que o baterista é uma figura fundamental da música que se fez em Portugal nas últimas quatro décadas (o seu nome consta da ficha técnica de mais de 300 discos, o que é obra), tanto no pop-rock – membro original dos saudosos Jafumega, produtor de Jorge Palma, Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Clã, Ornatos Violeta e Da Weasel, colaborador próximo dos The Gift, para só citar estes – como, sobremodo, no jazz – é um dos fundadores da frutígera Escola de Jazz do Porto e tem espraiado os seus sólidos argumentos baterísticos por diversas formações, entre próprias (quarteto e sexteto) e as lideradas por gente ilustre como Rão Kyao, António Pinho Vargas, José Peixoto ou o mesmo Carlos Barretto.

Não obstante esta (sempre saudável) elasticidade estilística, Mário Barreiros mantém uma prática jazzística diária, como ouvinte e executante, e isso nota-se na forma sábia como conduz o que aqui se escuta. Tudo começa com “Só Ten o Corpo Memoria”, balada saída da pena requintada de Rábade (a partir de um poema escrito em galego), com Barreiros exímio no uso das escovas, o saxofone aveludado de Toscano, o contrabaixo de Barretto tão discreto quão essencial. O pianista galego volta a alimentar o quarteto em “Narciso”, com o seu lirismo introspetivo, inspirado num texto de Ovídio. “Aquática”, do próprio Barreiros (a única peça sua incluída nesta coleção), prenuncia o que virá na segunda metade do disco e “Pacífico”, com assinatura de Toscano, traz consigo um balanço reconfortante.

Entrado em funções, o Quarteto Abissal logo se mostra em “El Árbol Negro”, peça soberba de Cabaud – baseada na lenda da comunidade indígena Qom, da província de Formosa, no norte da Argentina –, cujas dinâmicas e intensidades cambiantes desafiam o ouvinte, delas elevando-se um discurso altivo de José Pedro Coelho. Outras peças do argentino-luso são “Clarabóia”, que nos banha numa serenidade irregular com centro gravitacional no piano do jovem mas seguríssimo Miguel Meirinhos (toda a atenção nele), e na portentosa “Rede”, com o seu drive tenso, cortesia de uma dupla rítmica que ferve em lume alto, e o saxofone assertivo de Coelho (bem evidente também em “Abissal”). No quadro mental de Cabaud estão as palavras do eterno Neruda: «Son pájaros o son peces/En estas redes de la luna?/Fue adonde a mí me perdieron/Que logré por fin encontrarme?»

Este «mergulho no misterioso grande azul» é uma belíssima jornada. Reformei a bola de cristal, mas eis-nos perante um dos grandes discos do ano.

  • Dois Quartetos Sobre o Mar

    Dois Quartetos Sobre o Mar (Edição de autor)

    Mário Barreiros

    Quarteto Pacífico: Ricardo Toscano (saxofone alto); Abe Rábade (piano); Carlos Barretto (contrabaixo); Mário Barreiros (bateria); Quarteto Abissal: José Pedro Coelho (saxofone tenor); Miguel Meirinhos (piano); Demian Cabaud (contrabaixo); Mário Barreiros (bateria)

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