Quartet Exquis: “Da Multiplicidade do Vácuo” (Citystream)

Rui Eduardo Paes

E eis mais um resultado da crise pandémica em curso. João Madeira, Helena Espvall, AnnaMaria Ignarro e Noel Taylor (dois cordofones, contrabaixo e violoncelo, e dois clarinetes, soprano e baixo) pegaram na metodologia surrealista que ficou conhecida como “cadavre exquis” (e daí o nome do quarteto) e cada um/uma gravou em casa no ano que passou (confinamento oblige) uma série de solos improvisados apenas com os tempos predefinidos. Madeira recolheu-os e montou as peças que ouvimos em “Da Multiplicidade do Vácuo” – só numa, a que se ouve logo na abertura, “Adieu Amennotep”, se acrescentou outra regra, o clássico formato ABA. O interessante da situação é que a conjunção de materiais tão diversos tenha resultado tão convergente. Ouvimos e parece que todos os quatro músicos estão a tocar na mesma sala, ouvindo-se e reagindo uns outros.

Para tal efeito muito contribui o facto de cada improvisador ter uma abordagem compositiva da espontaneidade criativa. Ou seja, os motivos sucedem-se, parecendo que uns geram outros. Aqui, o vácuo (entenda-se: o vazio social introduzido pelo vírus da Covid-19 e as medidas políticas impostas para o combater) é mesmo múltiplo, mas com uma multiplicidade que se complementa, dando corpo musical à ideia de que, quando olhamos para o abismo, este mira-nos de volta e nós aprendemos a lidar com essa presença. Uma coisa é certa: se a presente situação deixou os músicos numa situação ainda mais precária do que era habitual, a música, essa, encontrou formas engenhosas de continuar a acontecer. Ainda há esperança para a humanidade.